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Rendas e Bilros da Lagoa da Conceição

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Luiz Braga

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Brasil das Artes
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A prensença da renda no Brasil está intimamente ligada ao mar e à atividade da pesca. Diz-se até que "onde tem rede, tem renda". Coincidência ou não, é na região litorânea onde se encontra renda em todo o Brasil e, em Santa Catarina é notório o acabamento das peças e o fino trançado dos trabalhos realizados por muitas mulheres em praticamente todo o litoral, tendo na lagoa da Conceição um referencial de qualidade e de produção. A renda de bilro, como se faz em Santa Catarina, surgiu provavelmente em Milão no século XV, simultaneamente à renda de agulha que, à mesma época, era realizada em Veneza.

Os caminhos da difusão da renda foram tortuosos, passando por guerras e pelo aperfeiçoamento do
comércio. A renda de bilro de Milão foi para França, ganhando grande desenvolvimento com Luiz XIV. Ainda que não se saiba precisar quando chegou a Portugal, sabe-se que a palavra renda apareceu por volta de 1500, tendo se difundido rapidamente por Viana do Castelo, Setúbal, Lagos e Açores, que se tornaram grandes centros produtores de renda. A colonização portuguesa e a forte presença açoriana em Santa Catarina levaram à introdução da rendas de bilros na região, com uma crescente quantidade de artesãs que, enquanto seus maridos se dedicavam à pesca, dividiam as tarefas domésticas com o "trocar bilros" ou "bater pauzinhos", como falam até hoje.

As rendas são feitas com almofadas e o chamado pique, que é um papelão cheio de furos ilustrando o desenho do trablaho que se quer fazer. Ao lado do que ocorre em outros estados brasileiros, as rendas de Santa Catarina são representantes importantes dessa cultura centenária tão enraizada na história do país. Nessa região encontramos dona Norma e outras artesãs que se dedicam aos "pauzinhos", das 5 horas da manhã às 10 horas da noite. "Quase um vício", diz dona Norma. "A gente começa a fazer e não quer parar, e quando não tem nada para arrumar ou mexer em casas, bem aquela vontade e não tem jeito. A genta começa e vai embora".

Os bilros que utilizam são de babaçu e "quanto mais velho, mais macios ficam". Aos 5 anos, dona Norma começou a aprender a fazer renda com a mãe, usando restos de linha. Quando completou 6 anos "já estava boa" e ganhou a primeira linha. e dos milhares de quilômetros de linhas que usou até aqui, fez nascer centenas de trabalhos com os mais diversos tipos de pontos: Tramóia, Maria Morena, Margarida, Cocada, Bico de Pato, Céu Estrelado. Segundo as rendeiras, a Tramóia só usa dois pares de bilros e, hoje em dia, somente as mais velhas sabem fazê-la. A Maria Morena é muito trabalhosa e antigamente uma toalha de banquente era feita por 5 mulheres e demorava um mês.

A Bico de Pato está em extinção porque usa 44 bilros. Até 10 anos atrás, era comum juntarem-se 5 ou 6 rendeiras para fazer renda. Cada uma inventava o seu pique. Hoje trabalham sozinhas. Tudo se diz para justificar que "as mais novas não querem aprender, dá muito trabalho e pouco dinheiro". Verdade? O fato é que já se vê muita renda industrializada sendo vendida nas mesmas lojinhas que vendem as rendas de bilros. Também é verdade que muitas artesãs ainda fazem renda e que ainda é possível encontrar jovens trabalhando. Mais verdadeiro ainda é o magnífico resultado desse trabalho que traz, nas suas tramas, o cheiro gostoso da Lagoa da Conceição.

Cleber Papa

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