Fotografia

Herdeiros de Vitalino

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Fotos/photos:
Evelyn Ruman

Do livro/from the book:
Brasil das Artes
editado por/edited by:
São Paulo ImagemData

Dizer que não há brasileiro que não tenha visto ou conheça o trabalho de Vitalino é um exagero porque somos muitos e certamente há que não tiveram a oportunidade de se apaixonar por uma arte tão marcante e característica mas isso não tira a força da expressão. Também é sem exagero que se pode afirmar que há no mundo pouquissímas formas de arte popular que definem tão claramente seu artista, país, região e cidade como a obra de Mestre Vitalino e seus sucessores. nela se reconhece o Brasil. O país de Pernambuco daquela cidade pitoresca de Caruaru. E com a obra em cerâmica, inevitavelmente vem a música dos pífanos – aquela flautinha rústica de sonoridade indescritível. Vitalino fez as duas coisas.

Nascido Vitalino Pereira dos Santos em 10 de julho de 1909, em Caruaru, PE, desde os 6 anos de idade, brincando com as sobras de barro das cerâmicas utilitárias feitas por sua família de louceiros, fazendo vaquinhas, panelinhas e outros animais, até criar sua banda de pífanos em 1924, o mestre mostrou-se um criador integrado às coisas de sua cultura regional, tornando-se conhecido e reconhecido em todo o mundo. Vitalino casou-se com Joana Maria da Conceição com quem teve 6 filhos: Amaro, Manoel, Maria, Severino, Antonio e Maria José, 5 anos dos quais se dedicaram a reproduzir a arte do pai, sendo que Severino, o filho mais velho, é naturalmente o mais atuante. Até morrer 1963. Vitalino manteve uma produção de milhares de peças, e a doação que fez, ainda vivo, de 250 peças ao Museu de Arte Popular de Caruaru, dá uma idéia da dimensão do quanto realizou. Sua arte influenciou diversos outros artesãos da região e ainda hoje provoca o surgimento de novos artistas interessados em aprender sua forma de trabalhar.

A obra de Vitalino e de seus herdeiros é absolutamente particular. Afora a excepcional habilidade desses artistas de dar forma ao barro, é na irredutível concentração nas coisas, gente e gestos da terra que esse artesanato ganha sua principal característica.

Aqui não se trata apenas de reproduzir no barro o imaginário ou as expressões de influência urbana, regional, como fazem os excelentes artesãos que o Brasil possui, mas, em Vitalino, sua obra é a fotografia artesanal do dia-a-dia de sua gente.

A cultura popular está toda expressa ali, como um documentário de batizados, casamentos, procissões, retirantes, cangaceiros, bumba-meu-boi, e mais de uma centena de temas que povoam seu universo e de seus filhos. Outro aspecto peculiar é a fidelidade histórica do seu povo e seus costumes. Tudo isso feito com uma ingenuidade ímpar. Própria de quem do barro faz vida com um sopro. De pífanos, é claro.

Cleber Papa

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