Os numerosos e diferentes censores que Pierre Augustin Caron de Beaumarchais
(1732-1799) enfrentou em defesa de suas peças certamente perceberam,
antes de seu entusiasmado público, o que havia de revolucionário
e inquietador no subsolo das deliciosas e movimentadas obras cênicas
por ele escritas. As linhas de tensão social e política do
século 18 concentraram-se, principalmente, no embate entre Iluminismo
e despotismo esclarecido. Nesse tempo contraditório, os anseios de
Liberdade, Igualdade e Fraternidade – palavras-chaves da Revolução
Francesa, a mais importante revolução européia – se
chocavam com a existência de monarquias absolutistas.
Beaumarchais começa sua particular e expansiva revolução
intelectual colocando um criado, Fígaro, como personagem principal de
O Barbeiro de Sevilha. E não só isso: esse personagem é mais
inteligente, mais humano, mais simpático e, sobretudo, mais vitorioso
do que seu nobre patrão, conde de Almaviva, diante de todas as armadilhas
da vida.
Descendente direto do Arlecchino, da Commedia dell´Arte, Fígaro é,
tal como ele, um homem polivalente, hábil articulador e manipulador.
Na verdade, o nosso barbeiro torna-se tão vivo e admirado que Beaumarchais
lhe dedica nova peça, As Bodas de Fígaro, em que ele aparece
politicamente mais maduro e mais contestador dos privilégios da nobreza
e da burguesia emergente. É este segundo Fígaro que seduz Mozart
(1756-1791) para compor, com roteiro de Da Ponte, baseado na peça homônima
citada, a obra-prima Le Nozze di Figaro.
Entretanto, o primeiro Fígaro de O Barbeiro de Sevilha conquistará Rossini
(Gioacchino, 1792-1868) em 1816, e mais cedo Paisiello, que fez sua ópera
apenas sete anos depois da estréia, em 1775, na Comédie Française.
Rossini, que foi saudado por ninguém menos que Stendhal como “um
novo conquistador” do mundo em lugar de Napoleão Bonaparte, é quem
vai transformar Fígaro de factotum della cità em faz-tudo universal.
É pela vivacidade melódica, pela habilidade de caracterizar tipos
musicalmente, que Rossini eleva Fígaro a substantivo comum designativo
para pessoa esperta, sabida, assim como Molière transformou Tartufo em
sinônimo de hipocrisia e carolice. Apesar de contar na sua bibliografia
musical também peças como Guilherme Tell e comédias como
La Cenerentola, para citar apenas duas do extenso repertório desse músico,
O Barbeiro de Sevilha é a maior ópera-bufa jamais escrita e a melhor
composição operística que ele escreveu.
Tendo em suas mãos um libreto excelente, Rossini chegou a ponto de superar
em dramaticidade a peça de Beaumarchais, tal como Verdi posteriormente
fará com Otello e As Alegres Comadres de Windsor, de Shakespeare, transformando
esta última no magistral Falstaff.
Beaumarchais, também músico, escrevera sua peça como uma ópera
cômica, com diálogos declamados, mas foi recusada pelo Théatre
des Italiens. Rossini tinha o senso daquilo que é o espírito
puramente musical, ou seja, uma invenção orquestral que não
se esgota jamais e que não cansa o ouvinte.
O grande encanto das mais belas árias de Rossini está nos seus
acompanhamentos. Como exemplo podemos citar a ária de entrada de Fígaro,
exultante, eufórica, marcada pelo acelerado apoio orquestral, e a ária
La Calunnia, cantada por don Basílio, que alcança seu efeito
por meio de um crescendo orquestral maravilhoso, indo do sussurro ao fortíssimo.
Em Rossini os instrumentos representam quase tanto quanto as vozes. Nos personagens
existe uma “natural” humanidade; a despeito de se enquadrarem nos
arquétipos da Commedia dell´Arte, esses personagens, como Pinocchios,
parecem tornar-se pessoas de carne e osso.
A surpreendente integração de ação dramática
e música, uma comentando e apoiando a outra em mútua complementação,
faz de O Barbeiro de Sevilha a ópera-bufa por excelência.
Herói da liberdade, o criado Fígaro nos traz à lembrança
aquele outro de Mozart, o nobre cavaleiro don Giovanni, quando canta E Viva
la Libertà!
Maria Sylvia Nunes