Carmen, ópera de Georges Bizet

Viva a ópera

Uma rápida passagem de olhos sobre as programações anuais dos principais teatros do mundo nos mostra pelo menos uma dúzia de produções diferentes de Carmen, numa demonstração clara do interesse público pela música belíssima e a dimensão do drama cotidiano expresso na obra.
Carmen é originalmente um conto (1847) de Prosper Mérimée, um parisiense nascido em 1803, num ambiente favorável à cultura e às artes – seus pais eram pintores. Estudou no Liceu Imperial, fez Direito e, na literatura, identificou sua verdadeira vocação, tendo trabalhado em várias áreas. Seu conhecimento de línguas clássicas (italiano, espanhol, inglês, russo), além de línguas e dialetos exóticos (lituano, língua dos ciganos, entre outros divertimentos), e sua curiosidade natural o levaram a viajar por toda a Europa e pela Ásia Menor, onde se encantava quando, numa mesa de hospedaria, o acaso o aproximava da história e de contrabandistas, ladrões, prostitutas e outras pessoas semelhantes. Essa atmosfera presente nos seus contos, e particularmente em Carmen, permeada de expressões em romani, serviu de tema para o poema dos libretistas Ludovic Halévy e Henri Meilhac, dando origem à obra-prima de Georges Bizet, compositor francês nascido na Paris de 1838.
Com Carmen, Bizet transforma radicalmente a opéra comique, introduzindo a emoção passional e o final trágico ao modelo vigente até então. Considerada “obscena” por seu libreto, condenada pela música dita obscura, sem colorido, nada romântica, Carmen passou por maus bocados à época de sua estréia, na Opéra-Comique de Paris, em 3 de março de 1875. Bizet não veria o sucesso de sua obra e morreria poucos meses depois (junho) da tumultuada estréia, vitimado por um ataque de angina, provavelmente em conseqüência de uma depressão aguda motivada pelos resultados de seu trabalho.
Apesar desses atropelos iniciais, Carmen ganhou novos contornos após a revisão de Guiraud, que introduziu os recitativos cantados em substituição aos diálogos declamados originais, hoje retomados também em várias produções.
A ópera adquiriu uma força tão grande que acabou se tornando um referencial sobre a Espanha de tal modo comprometedor que muitos ainda hoje imaginam aquele país ocupado por mulheres sensuais que dançam flamenco nos bares, com toureiros e soldados ocupando as tabernas e tapas.
Ao conceber uma nova produção de Carmen, procurei entender Sevilha em primeiro lugar, caminhar nas mesmas ruas que encantaram Mérimée, visitar suas citações, como a Calle del Candilejo, levantar algumas centenas de referências sobre a cidade, suas ruas estreitas, as sevillanas, o tablao, suas muralhas, igrejas, as cores e texturas impregnadas em cada esquina e, entre um gole e outro de jerez e manzanilla, o que ainda existe da atmosfera cigana em Triana, o antigo bairro gitano na outra margem do Rio Guadalquivir, onde ficaria a taberna de Lillas Pastia e, finalmente, a antiga Fábrica de Tabacos, onde está a Universidade hoje e são mantidas as características arquitetônicas, ainda que quase nada se encontre sobre a atividade original, em que foram empregadas mais de 10 mil mulheres e que constituía a principal economia da Espanha à época. Para conhecer esses detalhes, só em Madri, para onde foi levado o acervo do período. Esses elementos foram apresentados ao cenógrafo David Higgins, para que tudo fosse traduzido de maneira original, com desenhos que valorizassem o teatro pela imersão na fantasia.
À atmosfera de Sevilha busquei acrescentar uma proposta conceitual para os personagens que permitisse uma leitura compreensível do drama, a acentuação das características psicológicas de cada um e estabelecendo um fio condutor para a ação dos atores. A princípio me fixei em Carmen, don José e Escamillo, entendendo os demais como personagens acessórios. Os contrabandistas, por exemplo, são o que restou da opereta na obra. São a memória histórica daquele período na Espanha em que, de fato, o contrabando de mercadorias da Inglaterra e de países vizinhos era uma fonte de renda ilegal para parte da população, convivendo com a exportação de cigarros produzidos na Fábrica Real de Tabacos. Esses personagens, na ópera, chegam a parecer inocentes quando propõem às mulheres que os ajudem a passar as mercadorias pelos postos de guarda nas montanhas, acreditando que a graça, os sorrisos e maneirismos sedutores seriam a tal ponto eficazes que fechariam os olhos dos soldados. Opereta pura. Mas, se nos afastamos desses componentes num primeiro momento, podemos enxergar Carmen de várias maneiras: a mulher sedutora, a prostituta gitana, a mulher volúvel, a apaixonada, romântica. Ora, essas atitudes servem de aparente solução, mas procurei encontrar uma justificativa que desse aos personagens uma dimensão palpável, trazendo-os para próximo dos espectadores, se possível. Para isso, recorri ao conceito trilógico da inveja como a causa primeira dos problemas do homem. A inveja entendida como a atitude de desgosto ou pesar pelo bem de outro e seu próprio, a inversão patológica que leva o homem à autodestruição. Assim, Carmen ganha uma nova dimensão, com acréscimos de intenções e gestos visíveis em toda a encenação. A displicência, ingenuidade e aparente felicidade de don José é o que atrai Carmen, e à medida que ele se transforma num homem amargo, ciumento, invejoso, ela se afasta dele e é novamente atraída, como uma mariposa, pelo traje de luces de Escamillo. Ela não quer o homem, mas o brilho desse homem. Foi assim com don José e assim com Escamillo. Simbolicamente, Carmen viu sua morte nas cartas e, apesar de afirmá-lo o tempo todo, o que ela faz é a negação do amor, o verdadeiro e único sentimento do homem. Carmen é atraída pelas referências externas daqueles que a cercam, inveja Manuelita, desafia Zuniga, é arrogante, tudo isso como máscara de liberdade e rebeldia, mas, de fato, mecanismos internos de autodestruição, pois mesmo prevendo a inevitabilidade de sua morte, nada faz para mudar seu destino. Don José, por sua vez, é também dotado de grande inveja e sua degradação é anterior a Carmen, pois não é ela quem o destrói. É ele que vem numa espiral inconsciente que o afastou de Navarra (no conto de Mérimée abandonou a batina, matou acidentalmente um amigo, fugiu, virou soldado. O resto está na ópera), deixou sua mãe que se queixa e o “perdoa”. De soldado a prisioneiro, desertor, contrabandista, assassino. Responsabilizar Carmen por essa trajetória seria muito mais simples do que, como prefiro, entendê-lo e a sua inveja. Don José teve à sua frente a oportunidade de modificar sua decadência, unir-se a Micaela, retornar à sua origem, mas tudo isso era tão bom que ele – na sua doença interna – preferiu fingir-se cheio de amor e matar-se aos poucos e matando. Claro que não podemos aceitar o amor como um sentimento que destrói, se o entendemos como uma expressão da qualidade, da felicidade e do bem. Entender as atitudes de don José como amor seria reduzir o sentimento a uma dimensão inconcebível.
Escamillo, o toureiro de Granada, não tem nenhum compromisso com Carmen ou qualquer outra mulher. Deseja a mais desejada, usa-as para realçar seu brilho entre seus pares. Na arena, derrota o touro, e fora dela exerce seu papel secundário e discutível. No conto original, Escamillo não é sequer mencionado. Na ópera é reduzido a um solo e a um dueto com don José.
Procurei expressar esse conjunto de idéias e sua ampliação para os demais personagens, no espetáculo construído com um excelente grupo de solistas, dois coros, corpo de baile e orquestra dedicados e ávidos por oferecer ao público uma diversão de qualidade e sensível. Espero que esta versão da ópera divirta e facilite a reflexão. Musicalmente, nada foi cortado por nossa sugestão e do maestro Karl Martin.
Dirigir Carmen ganha para mim um significado duplo. Como diretor cênico, o prazer de criar, e como produtor, amplia o espectro ao somar-se aos 23 títulos de ópera que montamos – eu e Rosana Caramaschi – nestes 15 anos de atividade que a São Paulo ImagemData completa em 2004, tendo produzido também 15 espetáculos de teatro, entre outras atividades de dedicação exclusiva à cultura, participando da discussão do fazer cultural no Brasil, reconhecendo e aliando-nos à seriedade de propósitos, conscientes de que somente o aprendizado contínuo pode nos dar o parâmetro e a medida justa do que temos ainda por fazer.
Dedicar Carmen ao público, ao Governo do Estado do Pará, que realiza o Festival, aos artistas e técnicos é pouco. É preciso dedicá-la também aos anônimos, que de alguma forma contribuíram para auxiliar seu resultado, seja produzindo tecidos, madeiras e metais, os demais materiais utilizados, seja transportando, cozinhando, servindo. É preciso enxergar a ópera com a energia que move e encanta multidões.

Cleber Papa

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