Maria Tudor, ópera de Antônio Carlos Gomes

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Maria Tudor

Fugindo à cronologia de Carlos Gomes, antecipamos para 1998, a produção de Maria Tudor. O Guarani, produzida em 1996, era naturalmente o título do centenário de morte do compositor por ser sua primeira ópera criada na Europa e a mais conhecida. Quem não ouviu a sinfonia de abertura? A ópera do ano seguinte, Fosca, a segunda de Gomes, tinha uma história ambientada na Itália. A terceira seria Salvador Rosa, um título belíssimo e também uma ópera "para os italianos" como definiu o próprio compositor.

A ópera seguinte de Gomes foi Maria Tudor. Salvador Rosa ou Maria Tudor. Itália ou Inglaterra? Naquele momento em que decidimos, o desafio era buscar novos elementos estéticos para o projeto Carlos Gomes.

Em 1999, Maria Tudor completará, em 26 de Março, 120 anos de sua estréia em Milão. Pretendíamos gravar a nova ópera com pelo menos um cantor brasileiro no elenco e Eliane Coelho, a soprano brasileira, hoje no seleto elenco da Ópera de Viena, seria perfeita para interpretar a Sanguinária, por seu vigor como cantora, interprete e pelo momento especial que vive na sua carreira. Finalmente, mostrar no palco a ambientação cenográfica baseada em Hampton Court - o palácio Tudor e na Torre de Londres onde rolaram cabeças no curto reinado de Mary I, tornou-se importante até para reforçar o caráter didático do projeto, uma vez que um dos alvos é auxiliar a orientação musical e formação de platéia. Estes aspectos nos levaram a adiar Salvador Rosa, conquistando também um tempo ideal para fazermos uma nova revisão da partitura que ainda não se encontra em condições adequadas de uso.

Definidos por Maria Tudor, iniciamos um longo trabalho que envolveu a contratação do maestro Luiz Fernando Malheiro, do cenógrafo italiano Salvatore Russo, do diretor de cena Plamen Kartaloff, da The Sofia National Opera, do elenco de convidados, do coreógrafo Flávio Bennati e a montagem de uma equipe de produção no Brasil e em Sofia que envolveu mais de 400 pessoas em um ano de trabalho. Se por um lado a experiência anterior com os competentes profissionais da The Sofia National Opera reforçava as condições adequadas para realização do projeto, por outro, tínhamos em Maria Tudor uma série de dificuldades novas.

Pretendemos que nestas nossas primeiras montagens das óperas de Gomes sejam adotados os elementos visuais propostos pelo livreto. Ainda que busquemos uma modernização dos cenários, os figurinos devem ter a máxima fidelidade possível ao período histórico correspondente, sem perdermos a noção do conjunto. Isto significa que, diferente de O Guarani, onde boa parte dos figurinos dos índios pode sofrer algumas estilizações e, em Fosca, em que os figurinos dos piratas eram cheios de detalhes, mas de realização relativamente simples, em Maria Tudor tivemos um grande complicador. Como as outras óperas, é uma superprodução, porém com 320 figurinos de nobres e membros de uma corte inglesa do século 16. E Salvatore Russo, felizmente, não é profissional de fazer concessões. Foram centenas de metros de tecidos; mais de 1000 plumas e bijuterias , metros e metros de correntes, fios e materiais de acabamento que deram a Maria Tudor a condição de espetáculo pronto para ser exibido em qualquer Teatro de Ópera do mundo. Isto, sem os exageros de entusiasmo de quem realizou o trabalho e gostou do resultado. Musicalmente, Maria Tudor também surpreendeu, principalmente porque se a ouvirmos atentamente, percebemos que Carlos Gomes, nesta ópera, teve o gênio musical revelado, talvez até com maior força que nas outras composições. A unidade musical é perfeita. Cada cena, cada ballet, demonstra a decisão do compositor, a escolha de deixar tudo em harmonia. Até a respiração do público é previsível. Dos primeiros ensaios que acompanhamos em Sofia até a estréia, vimos que tínhamos na mão uma obra prima. Mais uma vez reforço que, felizmente, contamos com o Luiz Fernando Malheiro e com os bons profissionais da orquestra e do coro da Ópera de Sofia. Com a preparação simultânea de um segundo elenco para as apresentações européias e no Brasil, muitas horas foram utilizadas em dobro e sempre tivemos a preocupação de trabalhar com as vozes corretas para cada papel, extraindo o melhor de cada profissional.

 

A direção de cena foi um outro desafio.

As produções das óperas de Gomes são realizadas para serem gravadas em vídeo e em áudio. Desta forma, temos que trabalhar com três linguagens diferentes. Muitas das cenas que funcionam bem no palco, em vídeo geram um resultado ruim por ser uma outra linguagem, um outro formato. Esta adequação precisou ser feita sem perdermos as características do trabalho de direção de cena realizado por Plamen Kartaloff e, em alguns momentos, até exigindo dele o esforço de buscar outra solução que funcionasse melhor nas duas linguagens.

Para a gravação de áudio foi desenvolvido um outro complexo plano de trabalho porque, sendo ao vivo, os microfones fixos não poderiam interferir nem sofrer interferências da cenografia composta de torres de 8 metros que se movimentam o tempo todo. Para isto também contamos com o esforço da equipe liderada pelo engenheiro Gueorguiev que, além de reduzir ruídos nas partes de metal-madeira na construção dos cenários, criou todas as condições técnicas necessárias para o resultado que pode ser visto neste CD, que ocupou de Marco Stricione e de Walther Neto mais de 50 horas de mixagem e masterização.

Para registrar os últimos 20 dias de trabalho, o fotógrafo brasileiro Gal Oppido gastou cerca de 200 filmes para realizar um sofisticado ensaio fotográfico que poderá ser visto em exposições e livro a ser publicado.

Estes são alguns dos aspectos que marcaram a realização de mais esta ópera de Carlos Gomes. Como viria a registrar o jornalista da Folha de São Paulo que acompanhou o espetáculo, as várias línguas faladas no back stage (português, inglês, italiano e búlgaro) contribuíram para dimensionar o caráter multinacional deste trabalho e, de certa forma, fazer da produção de Maria Tudor a nossa própria ópera. E, se em algum momento houve dificuldade, impaciência, preocupação, tudo foi superado pela certeza de que todo o grupo, no Brasil e em Sofia, trabalhou de forma coesa e voltada para oferecer ao público um resgate digno da obra de Carlos Gomes, um compositor que traz na sua história a marca da brasilidade.

Cleber Papa e Rosana Caramaschi
Outubro de 1998

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