Pagliacci - Ópera de Ruggiero Leoncavallo

Consta que Leoncavallo buscou inspiração para o seu "Pagliacci" numa peça teatral, vista em um teatro mambembe, quando ainda era criança.
Durante a encenação e diante do público, o ator principal matara a heroína da peça (sua esposa), que o traía com o criado. Depois, chamara o criado ao camarim, e lá também o matara.
O pai de Leoncavallo teria atuado como juiz no julgamento do criminoso.
Para o público e, para o pequeno Ruggiero, entretanto, que assistia ao espetáculo na pequena aldeia de Montalto, na Calábria, o assassinato ocorrido no palco parecia fazer parte do drama.

Sinopse

A ópera se passa na aldeia de Montalto Uffugo, Calábria, entre 1865 e 1870, no dia de "Ferragosto" (Festa da Assunção).

Antes de a ópera começar:
Vagando com sua trupe ambulante pelas pobres aldeias da Calábria, Canio, o chefe da companhia de saltimbancos, encontrou Nedda mendigando, quase morta de fome. Cuidou dela, alimentou-a e apaixonou-se. Pouco tempo depois, casaram-se. Hoje, Nedda é uma das principais artistas da companhia. Canio, muito mais velho do que ela, sofre de um ciúme doentio. Nedda sente-se sufocada e vislumbra uma única escapatória: fugir com Silvio, seu jovem amante, abandonando o marido.

Prólogo
Antes que a cortina se abra, o barítono que durante a ópera cantará a parte de Tonio vem para a frente do palco, representando alegoricamente o Prólogo da antiga tragédia grega, cuja função era explicar ao público certos detalhes do drama que se iria representar. Nas montagens mais tradicionais desta ópera, ele traz nas mãos as máscaras de choro (tragédia) e riso (comédia) sempre associadas ao teatro clássico.
"O autor envia-me a vocês", diz o Prólogo, "para adverti-los de que os artistas também são seres verdadeiros; assim, vocês ouvirão gritos de dor e de raiva, e verão os tristes frutos do ódio. Mais que aos nossos trajes de cena, prestem atenção às nossas almas, pois somos homens de carne e osso, e respiramos, assim como vocês, o ar deste mundo órfão".

Primeiro ato
Com grande estardalhaço, chega ao vilarejo a companhia dos ambulantes, anunciando o espetáculo daquela noite. Estacionadas as carroças, Tonio, o corcunda, estende a mão para ajudar Nedda a descer, mas leva um empurrão de Canio. Enquanto os aldeãos riem, o corcunda jura vingança em voz baixa.
Alguns dos aldeãos convidam os artistas para um copo de vinho na taverna da esquina. Canio aceita, mas Tonio não; ficará para cuidar do burrico. É quando um dos populares brinca com Canio: "Ele quer ficar para cortejar Nedda!". Imediatamente, Canio torna-se ameaçador, conseguindo a muito custo controlar seu ciúme, e diz ao autor da brincadeira que a vida e o teatro não são a mesma coisa. "Um tal jogo, é melhor não jogá-lo comigo!"
O mal-estar dissipado, todos vão para a taverna. Nedda fica só, pensativa. "Brutal como é, que aconteceria se ele pudesse ler meus pensamentos secretos?" Enquanto ela admira o vôo dos pássaros e inveja sua liberdade, Tonio, que a observava escondido, aproxima-se e declara seu amor. Nedda, enojada pela deformidade de Tonio, diz-lhe que guarde suas caretas para o espetáculo da noite. O corcunda tenta beijá-la à força, e ela o repele a chicotadas. Tonio mais uma vez jura vingança, e foge.
Chega Silvio, o jovem amante de Nedda, e, após um tórrido dueto de amor, decidem fugir depois do espetáculo. O corcunda, escondido, vê os dois se beijando e corre à taverna para chamar Canio. Enquanto Nedda se despede languidamente de Silvio - "esta noite, serei tua para sempre" -, Canio entra enlouquecido de ciúmes, mas não consegue identificar o amante, que foge rapidamente. Fora de si, Canio tenta forçar Nedda a dizer-lhe o nome do homem que estava com ela, ameaçando-a com seu punhal.
A intervenção de Beppe, outro membro da companhia, consegue acalmar a discussão do casal. Separando-os, Beppe diz a Canio que é hora de maquiar-se e vestir-se, pois o espetáculo vai começar dentro em breve. Só, destruído por dentro, Canio canta seu famoso lamento, Recitar... Vesti la Giubba!, o trecho mais famoso da ópera. "Devo representar, mesmo que possuído pelo delírio! Você não é um homem, é Palhaço! As pessoas pagam, e querem se divertir; ria, Palhaço, e todos o aplaudirão!"

Segundo ato
O espetáculo está prestes a começar. O público vai-se sentando no circo improvisado. Furtivamente, Silvio confirma com Nedda, que vende os ingressos, a fuga daquela noite. Começa a representação: Colombina (Nedda) está em companhia do criado Taddeo (Tonio), esperando por seu amante Arlequim (Beppe), que chega cantando uma serenata. Quando os dois estão jantando romanticamente, o criado irrompe em cena, gesticulando exageradamente: Palhaço, o marido de Colombina, voltou antes para casa, muito alterado.
Nos trajes de Palhaço, Canio entra em cena. Continuando o texto da peça, o Arlequim foge pela janela, e Colombina grita "esta noite, serei tua para sempre". São as mesmas palavras que Nedda, naquela tarde, havia dito ao seu amante. Realidade e representação confundem-se na cabeça de Canio. No palco, ele é Palhaço, mas fala com Colombina como se ela fosse a Nedda da vida real. O público, a princípio, nada percebe, e comenta a veracidade da representação.
Nedda ainda tenta trazer Canio de volta à representação, mas, quando o marido a chama de meretriz, ela também desiste de tudo. Não suporta mais, e quer que ele a mande embora para sempre. Mas o ciúme cega Canio completamente: "Se você não quer me dizer o nome de seu amante, vai gritar esse nome nos espasmos da morte". Ele a apunhala mortalmente.
Morrendo, Nedda chama por Silvio, que se aproxima correndo e é também apunhalado por Canio. Com as forças exauridas pelo duplo homicídio, ele deixa cair o punhal. O barítono, abandonando o papel de Tonio e transformando-se novamente no Prólogo, dirige-se a ambos os públicos - o da comédia, representado pelo coro, e o verdadeiro, sentado no teatro - e diz: "A Comédia... terminou!" (*)

Sergio Casoy

(*) Em algumas montagens, essa frase é cantada pelo tenor (Cânio).

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