Uma História de Amor
Tratando-se de dois intermezzi inseridos entre os atos de uma ópera séria,
La Serva Padrona não possui abertura ou prelúdio. Seis compassos
orquestrais lhe servem de introdução, sucedidos pela primeira intervenção
de Uberto, um burguês orgulhoso que reclama da constante demora de sua
serva, Serpina, em atendê-lo, bem como de sua postura mandona (é muito
interessante comparar, textual e musicalmente, essa ária – Aspettare
e Non Venire – com a primeira ária de Don Giovanni, de Mozart, na
qual Leporello pragueja contra seus afazeres e seu patrão). Após
discutirem (sempre em forma de recitativo), Uberto incumbe o empregado Vespone
(papel mudo) de lhe arrumar uma esposa obediente, pois somente assim poderá ter
uma casa organizada, sem ficar à mercê dos caprichos de sua impertinente
serva. Após rebater as críticas do patrão, Serpina revela
aos espectadores um pouco mais de sua personalidade através de uma bela ária
(Stimozzo Mio) e se oferece como a melhor opção de esposa para
o patrão que, evidentemente, desdenha. Um delicioso dueto põe fim
ao primeiro intermezzo.
Valendo-se da idéia do próprio Uberto, e adaptando-a à sua conveniência,
Serpina coloca Vespone a seu serviço, convencendo Uberto de que se casará com
um homem muito temido, conhecido como Capitão Tempestade (que nada mais é do
que o ingênuo Vespone pateticamente disfarçado). O mudo capitão se comunica
através de Serpina e exige de Uberto um dote para se casar com ela, afirmando que, caso
não receba seu dinheiro, obrigará o próprio Uberto a contrair matrimônio
com a jovem. A astuta serva fez uma aposta correta na avareza do patrão (outro mote
clássico da comédia do século 18), tendo sucesso em seu plano. Após
descobrir que o temido capitão não passa do inofensivo Vespone, Uberto compreende
que sempre amou Serpina e que todo o imbroglio foi apenas um pretexto para uni-los. O segundo
intermezzo é encerrado com um convincente dueto no qual cada um dos dois, à sua
maneira e com suas metáforas, declara seus melhores sentimentos em um alegre final feliz.
Mais uma vez, bons versos e boa música contam uma boa história de amor. Este,
porém, é apenas um dos níveis possíveis de leitura desse importante
título do teatro lírico, um dos mais antigos a serem ainda hoje amplamente representados
em todo o mundo.
Henrique Lian