Carlos Gomes

OUTRAS PERSONALIDADES

Troféu Carlos GomesEm Dez 2006, a Casa da Ópera comemorou 10 anos da idealização do projeto Carlos Gomes Vida e Obra quando iniciou a produção e as gravações das óperas do Compositor.

Esta efeméride ficou marcada também porque a São Paulo ImagemData foi a vencedora do "Troféu Carlos Gomes 2006" (foto ao lado), na categoria "Universo da Ópera" com o Festival de Ópera do Theatro da Paz que produziu durante 5 anos consecutivos.

O "Prêmio Carlos Gomes ", tem a intenção de prestigiar a música erudita brasileira, premiando instrumentistas, intérpretes e compositores brasileiros. Criado durante as comemorações do centenário da morte do compositor paulista Carlos Gomes , em 1996 é desde então realizado anualmente. Em sua 11ª edição, os premiados foram escolhidos no dia 27 de novembro de 2006, em votação de um corpo de jurados formado por destacados nomes do meio musical, crítica especializada e do mundo cultural.

O Festival de Ópera do Theato da Paz foi realizado pelo Governo do Estado do Pará até a mudança de Governo nas eleições de 2006.

Carlos Gomes - um resumo biográfico

Antonio Carlos Gomes nasceu no dia 11 de julho de 1836 na Vila de São Carlos, atual Campinas, então província de São Paulo, segundo e último filho do musicista Manoel José Gomes (1792/1868) com Fabiana Maria Cardoso ( 1816 / 1844 ) . Estes  só se casaram oficialmente em 1840 , o que para ele significava a terceira união, seja por casamento, seja por  co- habitação .  O outro  filho do casal José Pedro de Sant´Anna Gomes nascera em 1834, e foi grande amigo e protetor do irmão mais novo.

O pai de CG era musicista, tocava vários instrumentos, principalmente o violoncelo, era excelente copista  e deixou várias composições, em sua maioria sacras, inspiradas quase sempre na estética musical predominante na obra de seu professor André da Silva Gomes , mestre de capela da Sé de São Paulo . Enérgico, brigão e autoritário, Maneco Músico (este era seu apelido), desde cedo pensou em encaminhar esses seus dois filhos a uma profissão não ligada à música  Mesmo assim, começou a utilizar os serviços de ambos na banda da qual era regente , diretor geral e proprietário . Alguns autores apontam que Maneco era pobre, e que a infância de CG se passou quase na penúria, o que não combina absolutamente com os imóveis comprados por Maneco e com as rendas que auferia  e pelos negócios que mantinha.

Carlos Gomes foi posto pelo pai a aprender o ofício de alfaiate, e tanto ele quanto seu irmão Juca  (apelido de José Pedro ) começaram desde cedo a receber do pai lições de música, e a  aprender a tocar violino, clarineta, piano, flauta . Na banda, que efetuava  giros pelo interior da província, os dois irmãos carregavam e limpavam instrumentos, ordenavam partituras, armavam estantes, alinhavam cadeiras , e acabavam  por ouvir os concertos . Foi nas aulas com o pai  rigoroso, e nesse trabalho íntimo na banda com partituras e instrumentos, vendo e ouvindo concertos  em coretos e solenidades, ouvindo opiniões e referências de intrumentistas e cantores,  que teve início a formação da estética musical de CG.

O menino Tonico  (apelido de CG ) nasceu e cresceu portanto dentro da música. Sua personalidade, pela presença de um pai severo e às vezes violento,  tendeu logo a vacilações e indefinições .  Em 1844, quando tinha ele oito anos, sua mãe morreu assassinada a punhaladas  não se sabe por quem . O fato traumatizou o menino, e marcou a vida de CG para sempre . Sem  a mãe a seu lado, mais instável, vacilante e indefinida ficou sua personalidade.  

Aos doze anos, Maneco  leva CG a Itu, onde o menino se apresenta pela primeira vez em exibição pública, cantando modinhas e tocando piano . Daí até se tornar adulto, a vida de CG se resumiu a estudar teoria musical, ao aprendizado de vários instrumentos, e ao auxílio ao pai em serviços gerais da banda. Pouco a pouco, o rapazinho começou a não mais carregar intrumentos e a ordenar partituras nas estantes : CG começou a elaborar arranjos  de partituras para adaptá-las às possibilidades da banda . Se uma peça  de Rossini exigia a presença de duas flautas, CG  elaborava um arranjo para só uma flauta ; se uma composição de Bellini ou Mozart pedia fagote, CG transformava o fagote em tuba, e assim por diante .

Em 1854, aos dezoito anos, CG acaba de compor uma grande missa, a "Missa de Sâo Sebastião",  dedicada a seu amigo , o clarinetista  Henrique Luiz Levy  . Levy    foi de importância  decisiva no desenvolvimento do início da carreira de CG . Por volta de meados dos anos 50, CG compõe as obras para piano "Uma Paixão Amorosa", e  uma "Fantasia sobre motivos de Il Trovatore" .  Em  1857 começa a compor outra missa, a "Missa de N.S. da Conceição" , terminada em 1859 . Outra influência apontada por muitos sobre CG foi a do violinista francês Paul Julien, que se hospedou na casa dos Gomes  por volta de 1858 . Em 1859 CG vai a São Paulo com Levy e o irmão Juca, e aí,  a 23 de abril de 1859, apresenta-se ao piano com Levy na clarineta e Juca aoviolino, em programa que incluía uma obra sua, a "Fantasia sobre a Alta Noite"  . Sucesso estrondoso, a mocidade paulistana o aplaude . Volta a Campinas, e Levy pede a Maneco para levar CG para o Rio de Janeiro . Relutante, o pai aceita, mas ambos partem então não para o Rio , mas para São Paulo, onde ficam por cerca de 15 dias . CG aí conhece vários estudantes de uma famosa geração da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco , os quais o incitam a ir para a  capital do Império . Compõe o hino "Mocidade Acadêmica" . CG executa várias obras suas em outro concerto, e ganha uma boa soma . Pouco antes, em Campinas, Maneco excedera-se em violências contra o filho Juca, tentando chicoteá-lo, o que foi o estopim para que CG pensasse em abandonar  a  casa paterna . Partiu  para o Rio de Janeiro, e aí matriculou-se no Conservatório de Música de Francisco Manoel . Voltou a Campinas por uma alegada doença (febre amarela), compôs  "Quem Sabe?", sua mais conhecida canção,  com versos de seu amigo Bittencourt Sampaio, e em 1860 voltou ao Rio de Janeiro . Só retornaria a Campinas em 1871 .

Em 1860, no Rio de Janeiro começa a trabalhar na Ópera Nacional, nome genérico e variável de uma instituição  que se destinava  à produção e encenação de óperas inicialmente em português, e depois na  língua original . O fundador dessa instituição, Don José Amat, espanhol refugiado, logo anteviu as possibilidades do recém  contratado . Foi na Ópera  Nacional que CG alargou completamente seu gênio musical , exercendo funções de pianista acompanhador, maestro preparador  e ensaiador, regente da orquestra, copista, arranjador, e até afinador de instrumentos . Conhecido, compõe e faz executar duas cantatas de grande porte . Sob auspícios da Ópera Nacional,   faz subir ao palco em  1861  sua primeira ópera, "A Noite do Castello", com libreto em português de Antonio José Fernandes dos Reis,  bem recebida pelo público . Em 1863,  sua ópera  "Joanna de Flandres", com libreto de Salvador de Mendonça, vai ao palco sob palmas do público e algumas restrições da crítica, que achou a ópera " modinheira" demais .

Obtem em 1863 a medalha de ouro como primeiro aluno do Conservatório, e por méritos próprios e disposições contratuais é mandado para a Itália, a fim de se aperfeiçoar, estudar e de lá enviar uma composição para ser executada no Rio de Janeiro . Chega a Milão em fevereiro de 1864, insere-se logo no ambiente musical milanês, conhece literatos e musicistas, e se projeta como compositor  e profissional da música competente e inspirado . Tem aulas privadas com Lauro Rossi no Conservatório de Milão, e em 1866 faz estrear no Teatro Fossati aquela que viria a ser a primeira revista musical italiana : "Se sa minga", com libreto em dialeto milanês de Antonio Scalvini, que obtem enorme sucesso . Em 1868, leva ao palco do Teatro Carcano sua segunda revista musical, "Nella Luna", com libreto de Torelli-Violier . Novo sucesso, menor que o primeiro .

Conhecido da editora Casa Lucca, esta o ajuda a levar ao palco da Scala a "opera d´obbligo" ( ópera nova que os empresários se obrigavam a encenar )  da temporada  de 1869/1870, e em 19 de março de 1870 " Il Guarany" vai ao palco, com libreto de Antonio Scalvini e Carlo D´Ormeville, com estrondoso sucesso . Parte para o Brasil, encena essa ópera no Rio de Janeiro, recebe mil homenagens, e parte para Campinas, onde revê a família e amigos . Seu pai havia falecido em 1868 .

"Il Guarany"  corre a Itália e o mundo . Entusiasmada, a Casa Lucca encomenda nova ópera, " I Moschettieri", que CG começa a compor e da qual existem vários trechos para voz e piano . Insatisfeito, CG abandona essa ópera e começa  a compor "Fosca", sob libreto de Antonio Ghislanzoni ( modificado e acrescido por Carlo D´Ormeville) . Pretendendo ser o realizador do desejo de renovação inspirado pelas teorias de Wagner  acatadas pela "scapigliatura" milanesa ( grupo de intelectuais liderados por Arrigo Boito ), CG adota os "Leitmotive", procura maior concordância da música com a ação dramática, explora o cromatismo, e tenta combinar a cantabilidade italiana com as teorias de além Alpes . "Fosca", criada na Scala em 1873, é  recebida pelo público sem o mesmo sucesso de "Il Guarany" . A  critica, no entanto,  a elogia muito. 

Saudoso do sucesso, troca de editor, e compõe  " Salvator Rosa", com libreto de Ghislanzoni ( sempre modificado por D´Ormeville), para a Casa Ricordi .  Com essa ópera, retorna a um estilo fácil e melódico, sem preocupações sinfonizantes . Sucesso estrondoso na estréia no Teatro Carlo Felice, de Gênova , em 1874 . "Salvator Rosa" se torna até mais popular que "Il Guarany" .

CG por essa época começa a ter problemas com a família . Em 1871 casara-se com Adelina Peri, sua antiga colega no Conservatorio . Tiveram logo filhos, e alguns morreram em tenra idade . O temperamento instável, por vezes irascível e muito ansioso de CG o leva a ter problemas com empresários, diretores de teatro, editores, cantores . Em 1879 perde mais um filho em tenra idade, e entra com ação judicial de separação contra Adelina, em rumoroso processo . Seu prestígio decai . Compõe " Maria Tudor" para a Casa Ricordi, sob libreto de Emilio Praga, modificado por muitos . Essa ópera, que CG achava o seu melhor trabalho, é apupada em sua estréia na Scala em 1879 . Os apupos de deviam mais a uma reação de outros compositores e da imprensa italiana contra um compositor que, no final das contas, acabou sendo taxado de " estrangeiro invasor" e tomador do lugar dos italianos . Um CG magoado inicia período de viagens ao Brasil .

Separado da mulher Adelina, CG começa a partir de 1879 a gastar mais do que podia, em viagens, luxos e principalmente com a construção de suntuosa "villa" em Maggianico, bairro de Lecco, à margem do Lago de Lecco, norte da Itália, região de ricos e "socialites" . Essa "villa", por ele denominada "Villa Brasilia", foi uma das causas de seus  problemas financeiros começados naquela época . Em 1881 e 1882 a Casa Ricordi edita dois álbuns de canções de CG,  canções essas que podem ser incluidas no que de melhor podia ser composto no gênero na Itália de então .  

Só em 1889, dez anos depois da "Maria", CG dará ao mundo sua ópera " Lo Schiavo", sob libreto de seu amigo Alfredo Taunay e do poeta italiano Rodolfo Paravicini  . Estreada no  Teatro Dom Pedro II no Rio de Janeiro, "Lo Schiavo"  logo se transformou em grande sucesso no Brasil, mas não foi encenada na Itália . Durante as encenações de "Lo Schiavo" no Brasil é proclamada a república, fato que muito entristeceu um CG muito ligado ao Império, do qual era o maior e mais conhecido artista, e ao imperador Pedro II, seu admirador e auxiliador em muitas ocasiões .

Em 1890 a Casa Sonzogno o contrata para compor a "opera d´obbligo" da temporada 1890/1891 da Scala, e CG então compõe "Condor", sob libreto do obscuro poeta Mario Canti . Essa ópera, encenada na Scala em 1891, é exemplo de composição em muitos aspectos ligada à nova escola dita "verista" que então começava a dominar o melodrama italiano . Obteve ela razoável sucesso .

Em 1892, ano do quarto centenário da descoberta da América por Colombo, CG tenta apresentar tanto em Gênova,  cidade natal do descobridor, quanto nos Estados Unidos, seu "poema vocal-sinfônico "  "Colombo", sob versos de Albino Falanca, anagrama do nome de  seu amigo  Annibal Falcão . Não conseguindo nem uma coisa nem outra, encena essa obra no Teatro Lírico do Rio de Janeiro em 1892, sem nenhum sucesso de público ou de crítica . CG, findo o Império, era visto como representante de um passado a ser substituído .

Voltando à Itália, CG se dedica a cuidar de interesses seus  de talvez compor nova ópera, acompanhar e fiscalizar as não mais tão freqüentes encenações de suas obras e tentar um cargo fixo em instituições musicais na Itália ou no Brasil . Muito ligado ao Pará, em que estivera muitas vezes, inicia tratativas e é indicado para dirigir o recém fundado Conservatório de Música em Belém . Em 1895 "Il Guarany" é encenado em Lisboa na presença de CG, com muito sucesso . A elegância de um CG velho e doente é mesmo assim assinalada na capital portuguesa .

Já havia algum tempo CG sentia dores na boca e na lìngua . Era ele fumador assíduo de um charutinho curto até hoje popular na Itália, os charutos "Virginia" . Especialistas da época apontaram ser o fumo desses charutos a causa da doença final de CG : câncer na lìngua . Em maio de 1896 chega a Belém . e seu estado de saúde é muito precário . Assume o posto de diretor do Conservatório em julho, e morre em Belém do Pará a 16 de setembro de 1896, longe dos dois filhos que havia deixado na Itália e amparado  por poucos amigos.  

CG foi o principal  compositor do período de transição entre o melodrama italiano de Rossini, Bellini, Donizetti e Verdi, definido pelos jovens intelectuais italianos da geração pós - Risorgimento como " velho", e o novo melodrama da " giovane scuola" de Mascagni, Puccini, Leoncavallo e outros, ditos "veristas" . Todos esses compositores, e também Ponchielli, foram de várias formas influenciados por ele . Foi ele o autor da primeira revista musical italiana em estilo à Offenbach, foi o primeiro a tentar maior continuidade e fragmentação do discurso musical, com "Il Guarany" e "Fosca" ,  foi ele o criador de uma " attrice cantante"  ( "Fosca" ), foi ele o primeiro a usar a técnica do "Leitmotiv" como técnica orgânica de composição e não em citações eventuais ( "Fosca" ), foi ele o primeiro a usar técnicas de orquestração modernas  na Itália de então  ( " Maria Tudor ", " Lo Schiavo" , "Condor" ), foi ele o primeiro a tentar bem sucedida economia de meios e de temas  ( "Lo Schiavo" ) Foi um inovador, um pioneiro . 

 

Marcus Góes - Especial para a Casa da Ópera – Julho 2008  

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