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REPERCUSSÃO, FOTOS |
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| osvaldo gabrieli | ||
| Sertões pornográficos de Zé Celso em Berlim João Cezar de Castro Rocha No sábado passado, o Teatro Oficina recebeu uma longa e comovente ovação no teatro Volksbühne, em Berlim. Em retribuição, José Celso Martinez Corrêa solicitou que a platéia tomasse o palco de assalto, afirmando: “Para nós, para Dioniso, o público é o Olimpo”. Os atores então aplaudiram o público. E com razão: em inúmeras ocasiões, houve aplausos em cena aberta; além disso, todas as vezes em que foi solicitada, a audiência interagiu ativamente. Por isso, não surpreende que a maior parte do público tenha permanecido até o final das seis horas de encenação da quarta parte de “Os sertões”, “A luta — 1”. Destaque-se o impecável trabalho de tradução do espetáculo, realizado por Berthold Zilly, consagrado tradutor de “Os sertões”, de Euclides da Cunha. Tal recepção expressou a resposta do público alemão à campanha de alguns jornais sensacionalistas, sempre à busca de escândalos. Desta vez, o caráter dionisíaco do teatro de Zé Celso forneceu a munição. Jornais estamparam fotografias da encenação, previsivelmente selecionadas: corpos nus dos atores, engajados em simulações do ato sexual, respondiam afirmativamente à pergunta retórica “Teatro ou pornografia?”. Na encenação da segunda parte, “O Homem — 1”, em 15 de setembro, Zé Celso incorporou os jornais ao espetáculo. Logo após a impressionante cena da devoração do bispo Sardinha — que se oferece feliz aos índios caetés, inaugurando a promessa do Brasil como a futura civilização antropofágica —, atores “devoram” espectadores, ao mesmo tempo que se alude às matérias sobre o “teatro pornográfico”. No dia seguinte, no final de “O Homem — 2”, após seis horas de espetáculo, a atriz que representa Lina Bo Bardi questiona a adjetivação, recordando a vocação dionisíaca da própria origem do teatro. O público aplaudiu com entusiasmo, selando o acordo com o projeto visionário de Zé Celso: dar forma teatral à obra de Euclides da Cunha, num espetáculo dividido em cinco partes, com duração de 24 horas. E a duração interessa como proposta de uma vivência alternativa do tempo. No fundo, o episódio envolvendo a pretensa “pornografia” serviu para confirmar o pleno êxito da encenação, pois a pronta resposta de Zé Celso trouxe à tona tanto a incorporação estrutural do improviso, quanto a centralidade da nudez e do erotismo. Em três horas e meia de espetáculo, a primeira parte, “A Terra”, apresenta a formação do sertão, a partir dos fatores geológicos, incluindo a ação do homem. Em meio a recursos cênicos tão variados quanto criativos, Zé Celso transformou as descrições do texto euclidiano — feitas numa terceira pessoa objetivadora — em eloqüentes discursos em primeira pessoa. É como se a paisagem se tornasse voz e corpo do sertão, realizando a passagem da página ao palco, no anúncio do embate do sertanejo com a adversidade do meio. Em 11 horas de encenação, as partes seguintes do espetáculo, “O Homem 1 e 2”, fecham o círculo, dando ao teatro de Zé Celso a potência da síntese antropológica. Numa sucessão de cenas, marcadas por crescente ritmo percussivo, períodos diversos do aparecimento do homem são sintetizados sob a imagem da luta constante — contra o meio; pelo domínio do fogo; contra o próprio homem. A disputa pelo poder e a apropriação (erótica) do outro são as chaves da iluminadora encenação. Assim se revela a universalidade da guerra de Canudos, ao mesmo tempo que se destaca sua particularidade. De um lado, “A Luta”, também dividida em duas partes, das quais somente a primeira está concluída, é vista como resultado típico da civilização brasileira, com sua fronteira simbólica, política e econômica entre o rico “Sul” e o empobrecido “Norte”. De outro, essa “luta” pertence à história universal das assimetrias que compõem o sistema capitalista; história anterior e posterior ao episódio de Canudos. Por isso, Zé Celso pode transformar o anacronismo em método produtivo, incorporando, através de imagens projetadas em telões, referências à colonização; ao imperialismo de George W. Bush; ao crime organizado nas favelas do Rio. A compreensão antropológica do problema estimula a criação do “improviso estrutural”, assimilando antropofagicamente dados novos à poderosa matriz interpretativa. Dioniso — Zé Celso ensina —, além do teatro, criou a antropologia, oferecendo uma síntese do humano, produto da violência e do erotismo. Zé Celso desenvolve ao máximo essa idéia, associando repressão sexual e opressão política e econômica. A centralidade da nudez se esclarece: o corpo deve renascer no palco, vivenciando a travessia do sertão e as vicissitudes da luta. A nudez é uma página em branco, na qual se pode inscrever uma nova história. Euclides da Cunha denunciou a campanha de Canudos a fim de reescrever a História. Incorporando Antônio Conselheiro, Zé Celso deseja reinventar o mundo contemporâneo — à sombra de um Dioniso oswaldiano, na plenitude do tempo da performance. O projeto é visionário. Mas, para quem criou um memorável espetáculo de 24 horas, o improvável é matéria do cotidiano. JOÃO CEZAR DE CASTRO ROCHA é professor de literatura comparada da Uerj e realiza pesquisa em Berlim com bolsa da Fundação Alexander von Humboldt |
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| O Mundo Como Marginal, o Marginal do Mundo.
Animação desenfreada, sexo e ritmos sambados: o Volksbühne de Berlim se “brasilianiza” com “Os Setrões” do Teatro Oficina Uzyna Uzona de São Paulo. Devorar ao invés de aniquilar, incorporar ao invés de dissolver, integrar ao invés de repelir. O dramaturgo Matthias Pees, que descobriu o Teatro Oficina no ano passado encrustrado em pleno bairro da Bela Vista em São Paulo e o trouxe para o “Festival do Ruhr“ de Recklinghausen, trazia, em sua bagagem, uma interssante teoria cultural: o conceito brasileiro de Antropofagia. Segundo ela, não só os índios do continente americano enfrentaram os missionários europeus, como também o Brasil moderno se serve no buffet de seres humanos, línguas, religiões e economias estrangeiras para alimentar sua identidade pós-nacional: uma técnica cultural que o sociólogo Ulrich Beck vê como um “basilianização” que irrompe sobre a Europa. |
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