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24 horas não são um dia

A companhia brasileira Teatro Oficina encena teatro político como impetuosa orgia de carnaval
Por: Friedhelm Teicke

Alguns caras, aglomerados ao acaso, não fazem nada. Outros conversam, formando grupos. E há os que dançam, riem, amam. Leite materno é lançado em jatos. A vida transcorre em prazeres e agitação, diversão e orgia. Mas também em trabalho e flagelo, na contínua luta para sobreviver no sertão, na savana árida do interior do estado da Bahia, no Nordeste brasileiro, onde um acontecimento se tornou lenda,acontecimento esse que agora o Teatro Oficina Uzyna Uzona narra de maneira arrebatadora e poderosa. Horas a fio. Durante quatro, cinco dias. Por atacado e a varejo. Em até agora quatro partes, encenam quase todas as vírgulas do texto de 700 páginas sobre o qual se baseia a montagem, o épico nacional do Brasil, Os Sertões, de Euclides da Cunha (a edição alemã Krieg im Sertão foi publicada pela editora Suhrkamp). O livralhão descreve a revolta popular da cidade de Canudos, e o modo como esta foi brutalmente arrasada pelas tropas do governo brasileiro no fim do século 19. Um morticínio. Um massacre. Mas, ao mesmo tempo, a raiz e o nascimento de uma nação.
Em extensas passagens, o livro parece um estudo sociológico, está mais para ensaio que para romance. No entanto, é assombroso o que Teatro Oficina Uzyna Uzona faz desse material, às vezes bastante árido. É uma estética inundada de amor, de vida e corporeidade. O Oficina fala do sertão, mas, na verdade, está falando do mundo todo. Fala de regiões e religiões, de servidão e de estruturas injustas de distribuição; de índios, africanos, europeus, e dos brasileiros, oriundos da mestiçagem de todos eles.
É claro que a demarcação tradicional do gênero do teatro falado pouco importa a esses atacantes teatrais. Tais demarcações estão aí para serem niveladas e transgredidas, tanto na concepção quanto no conteúdo e na estética. Preferencialmente com a inclusão de música, vídeo e – beijos. Estes últimos fazem parte do trabalho de persuasão, quando um ator ou uma atriz convida alguém do público a interagir. Algo entre ritual e arrasta-pé, com direito a amasso – é onde o espetáculo poderia ser enquadrado. O que não é de se admirar, se levarmos em conta que o carnaval é um decalque da estética teatral do fundador e diretor do Oficina, Zé Celso. Naturalmente estamos falando do carnaval brasileiro. A nossa „Funkenmariechen“ [dançarina das paradas de carnaval na região do Reno], com sua marcha e seus trajes militares, enrubescida, estaria totalmente fora do lugar.
Zé Celso chama seu teatro total de „Tragicomediorgia“. É portanto um teatro orgiástico, que busca elementos tanto na tragédia e comédia gregas, quanto nos rituais do culto afro-brasileiro do candomblé e na capoeira, bem como em Friedrich Nietzsche.

Devorem seus inimigos
Nietzsche? Nietzsche! “A definição de Nietzsche de teatro como lugar dionísiaco tem um papel fundamental no meu entendimento de teatro”, diz Zé Celso. Como podemos ver, para ele o Iluminismo e a formação da consciência política não se pauta pelo distanciamento e estranhamento, como em Brecht, mas sim pela vivência sensual, literalmente corpórea. O teatro como ato de comunicação, como festa, como carnaval, carregado de erotismo e emoções – é disso que se alimenta a obra artística da Tragicomediorgia. “Meu deus”, diz o diretor de 68 anos, “chama-se Eros”.
Zé Celso é uma lenda no Brasil há muito tempo. Já no final dos anos 50, ele fundou o Teatro Oficina, que - depois de alguns anos de exílio durante a ditadura militar – foi revivido por ele no início dos anos 90, sob a denominação algo pesada de “Teatro Oficina Uzyna Uzona”. Depois de ter colaborado com Augusto Boal, no início dos anos 60, ele lança os alicerces de sua estética teatral com a estréia de O Rei da Vela, peça escrita pelo modernista Oswald de Andrade. Ao mesmo tempo, essa montagem desencadeou a Tropicália, famoso e polêmico movimento ao redor dos músicos Caetano Veloso, Tom Zé e Gilberto Gil (atual ministro da Cultura do país), movimento esse que, cunhando um estilo, propagava a fusão de diversos elementos e reforçava a Antropofagia de Oswald de Andrade, com excepcionais resultados artísticos. A idéia é a de abrir-se a todas as influências, misturá-las com as próprias tradições e fazer surgir desse caldo algo novo e tremendo. Como por exemplo o mega-teatro Os Sertões.
Caetano Veloso, que freqüentemente compõe músicas para o Oficina, costuma chamar o seu teatro de o “Wagner brasileiro”, diz Zé Celso, não disfarçando um certo orgulho. A música de Os Sertões, no entanto, não é de Caetano Veloso, e sim de alguns dos mais interessantes músicos populares da geração mais jovem: Carlinhos Brown, Zé Miguel Wisnik, Arnaldo Antunes e Adriana Calcanhotto; incluindo ainda um tropicalista veterano como Tom Zé. Um grande trunfo, porém, é que o ensemble do Oficina conta com três das mais instigantes novas vozes desse país tão rico em talentos: Letícia Coura, Adriana Capparelli e Mariana de Moraes, neta do famoso poeta bossa-nova Vinicius („Garota de Ipanema“). Todas elas apresentarão as suas múltiplas facetas no concerto Música Mestiça, em 20 de setembro.

Envolvimento total ao invés da mera presença
O desenvolvimento de uma nação a partir da integração de muitos elementos heterogêneos, conforme nos mostra Zé Celso em Os Sertões, deve ser entendida - e essa é a intenção do diretor - como uma parábola para um mundo em que as diferenças culturais levam à violência, ao terror e à guerra. Não se trata, portanto, do retrospecto de um acontecimento no passado. Este teatro-maratona, cujas partes duram um total de quase 24 horas, é na verdade, de extrema atualidade. Mas um teatro total como esse faz suas exigências ao espaço. Toda a área do palco e da platéia foi descaroçada. De modo similar ao que aconteceu na época do projeto “Neustadt”, de Bert Neumann/Frank Castorf, surge um espaço teatral que permite a atuação em todos os lugares. O espectador fica totalmente envolvido, ao invés de meramente estar presente. Este palco, que na verdade se resume numa pista, foi inspirado no espaço original do Teatro Oficina em São Paulo: uma área de encenação como o Sambódromo no Rio de Janeiro. Um local adequado para uma “ópera de carnaval”.
Causar “novas irritações” – este era o propósito de Castorf para a nova temporada, e ele acertou em cheio escolhendo o grupo brasileiro para a abertura. Já no ano anterior o Teatro Oficina apresentara esse épico – que tinha só três partes - na Alemanha: no festival Ruhrfestspiele em Recklinghausen. Naquela ocasião, esse teatro da desmedida conseguiu o feito de tirar da reserva o reservado público alemão. Vários espectadores, impelidos pela vivência teatral no próprio corpo, foram levados a seguir o exemplo da nudez dos atores. “Em São Paulo, nosso público compõe-se quase exclusivamente de jovens”, diz Zé Celso, “estou feliz pelo fato de aqui na Alemanha a platéia ser bem mais misturada”.
Que com Zé Celso muitas coisas são diferentes, isso os representantes da mídia perceberam logo, durante a conferência de imprensa da nova temporada do Volksbühne, no começo de setembro. Frank Castorf acaba de elogiar o teatro-maratona de Zé Celso – um teatro capaz de estimular todos os sentidos – definindo-o como “um trabalho emocionante, pleno de otimismo e vigor”, e o convidado do Brasil começa a cantar, entoando uma canção de agradecimento, de alegria de estar ali e de poder fazer a abertura do mundialmente famoso Volksbühne. Mais tarde, numa conversa informal, mostra-se surpreso com a “frieza” dos colegas jornalistas, que presenciavam a conferência sem demonstrar qualquer emoção ou reação. Trabalho e prazer, seriedade e diversão – por que é que deveríamos separar essas coisas de uma maneira tão obstinada? Afinal, somente a mistura, a união dos contrários e dos adversários é capaz de transcendência. A antropofagia, a “incorporação do inimigo sagrado” – nem tudo é ruim no canibalismo. Um brasileiro sabe disso.

[Legenda da foto de Zé Celso]: Defensor do êxtase, mago, discípulo de Eros: Zé Celso, uma lenda do teatro

Os Sertões, Parte 1: A Terra, 14. + 21.9., 19 h. Parte 2: O Homem 1, 15.+ 22.9., 19 h, Parte 3: O Homem 2, 16.+23.9., 18 h, Parte 4: A Luta 1, 17.+24.9., 18 h. Parte 5: A Luta 2, 25.9., 19 h, Leitura de Martin Wuttke em ensaio público. Direção: Zé Celso, com Adão Filho, Marcelo Drummond, Letícia Coura, Mariana de Moraes. Sertão global – Painel de discussões, dia 20.9., 19.30 h. Música Mestiça – Concerto da banda do Oficina com convidados, 20.9., 21 h. Volksbühne na praça Rosa-Luxemburg-Platz. Entrada € 20, com desconto: € 8
12.-19.8., Mostra de cinema no Babylon Mitte: O sertão no cinema brasileiro.

Publicado na ZITTY, revista quinzenal de Berlim, sob a rubrica “Palco”, em 20/09/2005, autor: Friedhelm Teicke
Traduzido por Angelika Köhnke

Um mundo de corpos liberados

Samba, Kitsch e Poesia: O grupo Teatro Oficina apresenta-se no Volksbühne com “Os Sertões”
A montagem brasileira "Os Sertões" provoca agitação antes mesmo de estrear. Não por causa da duração total de quase 24 horas, mas devido a algumas cenas muito ousadas mesmo para padrões berlinenses.
Peter Hans Göpfert
Atenção: Espectadores que não gostam de ser convidados a interagir no palco podem sentir-se um pouco constrangidos. Mas os atores do Teatro Oficina de São Paulo fazem o convite com gentileza e um largo sorriso, e incitam o público a participar das rodas de samba e das mais diversas ações no palco.
Todas as entranhas foram retiradas da platéia e do palco. Uma larga pista revestida de tijolos de barro se estende desde o balcão, percorrendo todo o espaço. O público senta-se em degraus. E, após 3 horas e 45 minutos – tempo que dura a primeira parte de “Os Sertões” – perguntamo-nos se os movimentos de relaxamento e os acenos, comuns no início de uma apresentação, não seriam mais necessários no final, para relaxar o pescoço e as costas. Note-se que “A Terra” é, de longe, a noite mais curta. As Partes 2, 3 e 4 duram mais. E, já que a montagem sem limites do diretor teatral Zé Celso, de quase 70 anos, ainda não está completa, haverá um ensaio público no final, com uma leitura de Martin Wuttke, dia 25 de setembro.
A companhia de teatro compõe-se de muitos integrantes, que, em espaços fechados, cantam, dançam e declamam seu teatro de rua, com muita música. Ela transforma em drama o ensaio do jornalista Euclides da Cunha “Os Sertões”, de centenas de páginas. O texto, publicado em 1902, é uma espécie de épico nacional do Brasil. A abordagem do autor é muito ampla, indo até as raízes históricas, geográficas e sociológicas do cruel massacre praticado pelo Exército em 1897 em Canudos, depois de três expedições mal sucedidas. Nesse vilarejo, localizado numa região extremamente árida e hostil do Estado da Bahia, viviam pessoas pobres e sem terra, trabalhadores, bóias-frias, ex-escravos. Essa gente recusava-se a pagar impostos à recém-fundada República; estava contra o governo e rejeitava o matrimônio oficial.
"A Terra" é como uma série de poéticas aulas escolares, com lições em Geologia, Geografia, Botânica e outras matérias. Os atores, através do canto e da atuação, mostram como o continente se formou a partir da rocha e da terra. Usando fitas, tecem as latitudes e longitudes através do espaço. Deixam passarinhos trilando e gralhando ruidosamente. O Amazonas e outros rios fluem em bandas de tecido e mangueiras, na direção do mar agitado. Nus e seminus, os atores lançam-se no turbulento brincar carnavalesco. Grandes telas de projeção multiplicam a ação através de vídeos, ou mostram seqüências de filmes. E os espectadores são continuamente instigados a dançar e a mostrar o gingado.
A vitalidade do grupo surpreende e contagia. Zé Celso gosta de mostrar os corpos de seus atores, de colocá-los em contato corporal direto com voluntários co-participantes da platéia. O modo ingênuo da narração e a musicalidade folclórica de alguns trechos extensos fazem lembrar programas da Bolsa Internacional de Turismo. Onde já se viu mandacarus tomando a palavra ou juazeiros conversando sobre seus problemas com as próprias raízes?!
Conforme vai se estendendo, a noite começa a ficar exaustiva em alguns aspectos. O espectador acaba se perguntando se quer mesmo ficar sentado nas quase 20 horas das outras partes dessa montagem de “Os Sertões”. Aqui o espetáculo torna-se fundamental, começa a defender princípios, com o dedo em riste. Trata-se da exploração abusiva à qual a natureza brasileira tem sido submetida, indo até as queimadas de hoje em dia. Sobre o solo duro, uma mulher é violentada repetidamente. Ela personifica a terra natal.
Essa foi a cena que causou tanta agitação inicial. Alguns jornais da imprensa marrom falaram em “teatro pornô”, e levantaram ainda a acusação de desperdício de impostos. Ontem, tanto o Volksbühne quanto o Teatro Oficina protestaram contra essa difamação, e declararam que a montagem foi possível graças ao apoio de dois ministérios e duas empresas brasileiras.

Volksbühne. Rosa-Luxemburg-Platz, Mitte.

Tel.: 240 65 631. Parte 3 hoje, Parte 4 amanhã, Partes 1 a 4 de 21.9.-24.9. Ensaio público da Parte 5 e leitura, 25.9. Os Sertões: Avaliação 4.

Artigo publicado no jornal Berliner Morgenpost em 16/09/2005, autor: Peter Hans Göpfert

Traduzido por Angelika Köhnke

Vejam uma seleção dos Fotos de Thomas Aurin no site dele: www.thomas-aurin.de. Clicar em “Archiv”, e em 2005 estão os álbuns “1”, “2”, “3” e “4” de “Krieg im Sertão”.