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FRIEDHELM TEICKE e GERD HARTMANN NA REVISTA ZITTY, ANDRE SOKOLOWSKI NA KULTURA-EXTRA , + 1 ALBUM DE FOTOS, FUTEBOL ENTRE O OFICINA E O VOLKSBUHNE.


GERD HARTMANN

A preferida

Os Sertões do Teatro Oficina no Volksbühne

Por duas semanas o Teatro Oficina de São Paulo transformou o Volksbühne em sambódromo e os espectadores em co-dançarinos. Uma festa de encher os sentidos, desmedida, altamente política, dionísiaca e carnavalesca. Há tempos não vivenciei teatro de maneira tão intensa, tão à flor da pele.


P A L C O

[Legenda da foto]:

A favorita dos críticos: “Os Sertões”, peça que abriu a temporada do Volksbühne

Autor do texto: Friedhelm Teicke

OS BONS E OS MAUS - 2005

Os críticos teatrais da Zitty confessam o que amaram, o que odiaram e o que desejam para o teatro.

O dinheiro, tão odiado e amado - quando é pouco, vira tema. E briga. O teatro Schaubühne, que há anos vem recebendo menos recursos que necessário, ameaça falir, caso Sasha Waltz deixe o teatro e leve consigo os EUR 600.000,00 do orçamento da casa aos quais faz jus. Se a política não equilibrar a situação, o teatro deixará de funcionar no final da próxima temporada - é o que profecia, sombriamente, o diretor artístico Thomas Ostermeier. Já o Hackesches Hoftheater deverá encerrar as suas atividades em 31 de dezembro. O motivo é o aumento do aluguel, com o qual a associação sem fins lucrativos que dirige o teatro não mais consegue arcar. Também no teatro de Claus Peymann ainda há “muitas contas em aberto”. Ao menos foi assim que o mesmo justificou a prorrogação do seu contrato com o Berliner Ensemble até 2009. E Frank Castorf, do Volksbühne, que teve o seu ano mais difícil dos últimos tempos, com muitas estréias que não saíram ou malograram, somente continuará lá até 2010. No entanto, com a apresentação do grupo brasileiro Teatro Oficina Uzyna Uzona, na abertura da temporada, a casa obteve um sucesso fulminante. E o mesmo aconteceu na primavera, com a sessão de niilismo de Dimiter Gotscheff, Iwanow, de duas horas de duração, que conseguiu convencer, já pelo seu grandioso início. O Deutsches Theater, em contrapartida, teve o seu ano mais bem sucedido dos últimos tempos. Evidentemente o Senador Cultural quis mostrar o cartão vermelho para Bernd Wilms cedo demais, e o vexame agora recai sobre Flierl.

A dança continua tendo seu boom em Berlim e brindou a cidade com versões de festival bastante interessantes, como Tanztage, Move Berlim e Tanz im August [“Dias de Dança”, “Mova Berlim” e “Dança em Agosto”]. Na dança, o acontecimento do ano foi sem dúvida o espetáculo carismático de Akram Khan/Sidi L. Cherkaouis Zero Degrees, apresentado no HAU, bem como Solo, uma coreografia que Jérôme Bels produziu especialmente para a dançarina Véronique Doisneau. De resto, a cena livre – que passa ao largo do HAU e do Sophiensaele – teve um ano muito difícil. É verdade que houve muito Schiller, neste ano dedicado ao autor. E também muito Hans Christian Andersen. Agora, temos que nos preparar para o ano Brecht, em 2006. Então vamos lá, mestre: “O mundo é pobre, o homem, um vilão / Infelizmente, estou com a razão!”  A Ópera de Três Vinténs abrirá a temporada no Admiralspalast, depois da Copa Mundial, após o verão.

Texto do magazine online “KULTURA-Extra”, Alemanha

Autor: Andre Sokolowski, 23/09/2005

Apresentação do Teatro Oficina em Berlim, no Teatro Volksbühne

(14 a 17.09.2005 e 21 a 25.09.2005)

OS SERTÕES

de Zé Celso

Adaptação da obra literária de Euclides da Cunha - Teatro Oficina Uzyna Uzona

Uma completa obra de arte dionisíaca

Com manchetes do tipo “orgia pornográfica” e “grande enlambuzamento do público”, diversos jornais burgueses da imprensa marrom exaltaram-se há algumas semanas sobre a apresentação do grupo brasileiro Teatro Oficina no Volksbühneem Berlim - um espetáculo que sem dúvida chamou muita atenção. Na verdade, não estavam fazendo mais que um alarde histérico sobre uma espécie de “instituição para melhorar a civilização” eternamente frágil e de eficácia duvidosa: o teatro – que sem dúvida desempenha melhor essa função quando, ao invés de se apresentar ao público com “botões fechados”, prefere “abrir os botões”, e assim agir não apenas no sentido de “melhorar”, mas também, digamos, de “distrair”, com o fim de mudar alguma coisa.

Felizmente nossos colegas da imprensa marrom – quer por falta de interesse, quer por falta de força física – não acompanharam até o fim esse teatro total, cujas 24 horas de duração foram divididas em 4 dias de apresentações. Pois do contrário eles teriam ainda muito mais sobre o que escrever e reclamar - por exemplo do jovem que se masturbou ao vivo até gozar de verdade (!), o jorro parecendo um chafariz, ou das sete mulheres que, deitadas no chão em forma de uma estrela, mantinham suas coxas abertas de modo que suas rosadas flores íntimas apareciam ...

Mas, voltemos ao objeto que desencadeou essa onda de excitação naquela parcela da população mais aferrada aos valores estúpidos e pouco sofisticados da burguesia alemã. O que se viu foi a adaptação teatral sensacional, abrangente, acima de qualquer crítica, que Zé Celso fez da obra “Os Sertões”, um ensaio de 700 páginas, cujo autor, o correspondente de guerra Euclides da Cunha, é pouco conhecido na Alemanha, mas no Brasil tem um status quase sagrado. Viajantes interessados, se desejarem, podem conhecer os lugares da vida e trajetória desse escritor.

Do que se trata?

Na metade do século 19, algumas dezenas de milhares de escravos fugidos, pretos, indígenas e pobres estabeleceram-se no sertão espinhoso, numa região de savana excessivamente seca, e foram expandindo suas casas de barro até formar uma pequena cidade. Decidiram escolher como líder Conselheiro, um profeta peregrino quase louco que perambulava pela região. O povoado adquiriu a forma correspondente e passou da autonomia para a anarquia. Surgiu assim um estado renitente dentro do Estado - o que o poder estabelecido, em sua concepção de nação (nesta época, o Brasil era considerado uma jovem república em ascensão) não podia tolerar. E aconteceu o que tinha que acontecer. Em 1897 – na lendária Guerra dos Canudos - esses “selvagens” indomáveis foram massacrados pela arrasadora superioridade de doze mil soldados. Não sobrou homem nem ratinho, e acabou o sonho do reino do Céu dos pobres sobre a terra!

Mas as lendas, como se sabe, sobrevivem.

O espaço do teatro Volksbühne – onde mais em Berlim, senão neste teatro seria possível uma apresentação dessas ? – foi totalmente reestruturado para servir à peça. Uma pista, que parecia perder-se no infinito, formada por tijolos de barro e argila, seguia da platéia para o fundo do palco, e era ladeada por quatro tribunas provisórias destinadas ao público. Desse modo, os mais de cinqüenta “atores fixos” do Teatro Oficina (crianças, adolescentes, adultos, e uma famosa anciã [cujo nome infelizmente não foi possível descobrir a partir do programa da peça]) estavam sempre no meio do público, movimentando-se continuamente de um lado para o outro, fazendo música, dançando e atuando. A proximidade com o público era tal que a todo momento havia intensos intercâmbios corporais. Eles deixavam-se tocar “por nós” e ao mesmo tempo, em troca, “nos” tocavam. Eram aromas e condutas eróticas desejosas (voluntários) que tomavam o coração de assalto. E, quem olhasse para cima, podia ver tudo isso – inclusive a si mesmo - numa das quatro telas de vídeo localizadas acima dos assentos... porque sempre, e a todo momento o mais belo dentre os belos cinegrafistas de vídeo deste grupo de teatro - composto de vigorosos jovens e eternamente jovens – capturava de maneira hábil e discreta os rostos e gestos das “vítimas” projetadas. Como um todo, essa animada e animalesca movimentação parecia uma verdadeira festa de oferenda a Dionísio – se não levarmos em conta as cenas destinadas à compreensão básica do enredo, ou seja, as várias cenas longas e desmedidas de falas e coros, as cenas em que se cantava maravilhosamente, e as em que os atores tocavam instrumentos, de maneira ainda mais maravilhosa.

Zé Celso realizou a façanha única de produzir uma adaptação “um-por-um” deste texto original escolhido por ele mesmo. Sim, e antes que tenha início a ação principal que dá nome a essa grande obra GUERRA NO SERTÃO [em alemão, tanto o livro quanto a peça Os Sertões receberam o título Guerra no Sertão], cujo auge é justamente a lendária batalha de Canudos, desdobram-se as características da natureza, da história e do ser brasileiro, num cosmos repleto de imagens, sons e impressões como nunca antes se viu, ouviu ou vivenciou (o público portanto era constantemente animado a participar da atuação – e isso funcionou!).

E, no fim desta que foi a vivência original “clown” mais poderosa e duradoura que o autor dessas linhas já experimentou, a coisa toda talvez possa ser resumida assim: Não há como negar que o teatro, de fato, teve e tem a capacidade de desfazer as distâncias entre “você” e “eu”! Sim, o tempo, ali, tornou-se espaço!!



Esse foi o rachão entre a equipe técnica do Volksbuhne e uma seleção do Teatro Oficina. A partida terminou com o generoso placar de 13 a 10 para os brasileiros tendo o tempo regulamentar se esgotado quando os marcadores indicavam 10 gols para cada lado. Na foto da esquerda Ricardo Moranez, iluminador, defende heroicamente a zaga brasileira. Parar os alemães não foi fácil e o esbelto zagueiro iluminador foi arremessado inúmeras vezes ao chão à longa distância. Na foto da direita, sem camisa, Cícero, o atacante técnico de cena nascido em Minas Gerais mas que joga atualmente no time do Volksbuhne recebeu as honras de melhor jogador da partida juntamente com Stan, atacante camisa 10 contra-regra do Brasil, de laranja ao seu lado, responsável por um dos lances mais bonitos do jogo em que ele recebeu a bola do zagueiro Ricardinho, deu um chapéu de primeira no alemão de quase dois metros, matou a bola no peito e deu um lindo chute de primeira no travessão. O gol não saiu mas a jogada foi linda e os alemães quedaram-se batendo palmas.. Em breve veja aqui os nomes dos jogadores. Se algum dos envolvidos na partida tiver memória ou criatividade suficiente para fazer aqui um relato lance a lance mande para o site.