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Carta
do Arquiteto Paulo Bastos
São Paulo, 01 de novembro de 2000
Cara Prefeita:
Ainda não suficientemente refeito do choque positivo representado
pelas vitórias do PT – a sua em particular – sinto-me no
dever de solicitar a inclusão, no rol de suas múltiplas
preocupações, da questão do destino do Teatro
Oficina e seu entorno, ameaçados por mais um mega-empreendimento
de Sílvio Santos, secundado por Júlio Neves.
Como ex-conselheiro e ex-presidente do Condephaat acompanhei a trajetória
do tombamento do Oficina, tombamento de um símbolo de resistência
e coragem cultural, posto que, do prédio, concretamente só
restava a fachada e um terreno vazio.
O projeto de Lina Bo Bardi
e Edson Elito para José
Celso Martinez Correa, conferiu materialidade expressiva ao antigo
símbolo, recuperando-o não só como memória,
mas criando nova referência urbana.
O mega-empreendimento atualmente proposto para os terrenos que envolvem
o Oficina, padece dos mesmos e graves defeitos da horda de Shoppings
que se disseminou pela cidade, nenhuma articulação
com o entorno, posto que se volta apenas para o próprio umbigo,
auto afirmação pelo gigantismo com que volumetricamente
se sobrepõe ao tecido urbano e, no caso específico,
sufocamento completo do edifício do Teatro Oficina.
Decididamente este não é mais um processo de intervenção
urbana que possamos continuar aceitando em São Paulo, por
ser um dos grandes responsáveis pela desqualificação
da cidade, quer pela fragmentação e descontinuidade
que ocasiona nos espaços públicos, quer pela sobreposição
dos interesses privados em relação aos públicos
que propicia, quer pela contínua e crescente destruição
de nossa memória e identidade urbanas que promove. Sei que,
no momento, obviamente, com o cargo ainda não assumido, o
poder institucional não pode ser exercido.
O peso político de um expressivo mandato já conferido
pode, porém, influir no redirecionamento deste e de outros
empreendimentos, no sentido de um enfoque urbano mais equilibrado
entre aqueles interesses, sobretudo nos contactos que costumeiramente
os empresários procuram ter com os candidatos eleitos, buscando
a futura viabilização de seus projetos.
O Teatro Oficina é importante demais para tornar-se mero
e insignificante apêndice de um Shopping, mesmo que este seja
qualificado de "cultural".
Com a certeza de uma gestão renovadora da cidade,
Arquiteto Paulo Bastos
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