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PREFIRO
A BARBÁRIE!
"A
TARDE", 07/06/2000
por Kátia Borges
José
Celso Martinez Corrêa é um "homem de teatro".
E age, pensa, reage e sente como tal. Visceralmente criativo e polêmico
por natureza, sempre foi uma figura de proa na vida teatral brasileira.
Nesta entrevista, exclusiva para A Tarde, feita via email, Zé
Celso fala sobre a briga (desigual) com o que classifica de "MegaGolias",
que é o grupo Silvio Santos.
"O homem do baú" – que também age, pensa,
reage sente como tal – está levando a melhor, pois já
conseguiu autorização (na verdade, apenas a planta
baixa foi aprovada pelo Condephaat – grifo nosso) para tocar as
obras de um shopping center que invade o entorno do lendário
Teatro Oficina, tombado
como patrimônio histórico.
Os
artistas e "amigos do Oficina" estão se organizando,
sob liderança do ator Sérgio Mamberti, para uma reação
pública, que deverá ser deflagrada nacionalmente,
em torno de uma fogueira acesa em plena "Noite de São
Pedro", quando será lançado o livro Teatro Oficina
Oficina Theatre, editado pela Fundação Lina
Bo e Pietro Maria Bardi. Confira!
P – Quais os danos que empreendimento do Silvio Santos irá
trazer ao teatro Oficina?
R – A asfixia do seu entorno. A perda do Sol invadindo a pista através
do janelão. Os primeiros desenhos de dona Lina Bo Bardi são
do Sol, invadindo o espaço teatral em glórias, revolucionando
o conceito do teatro como caixa de sapato fechada à natureza.
O pior, o sonho de 40 anos de o Oficina sair do beco sem saída
e virar rua ligando uma praça de cultura, no Minhocão,
a um teatro grego, no estacionamento do Baú da Felicidade;
o projeto Ágora, do arquiteto urbanista Paulo
Mendes da Rocha.
Um
lugar mítico da cultura brasileira num beco sem saída,
como é a situação urbana do Oficina, é
uma metáfora desanimadora pra tudo que se aventura fora das
marcas do mercado. O gigantesco "castelo dos Jetsons"
do Silvio santos, esmigalha, embausa, o Oficina, corta a utopia
realizável de uma rua, espaço público de arte,
e mantêm toda uma linha modernista, antropofágica,
tropicalista, aprisionada num beco sem saída.
P – Houve uma conversa anterior entre o pessoal do Oficina e
os assessores de Silvio Santos?
R – Escrevi para a "Porta da Esperança" quando
havia este programa, propondo para Silvio derrubar a parede que
nos separa e nos encontramos numa porta da Esperança. Convidei
Silvio para uma assembléia do Uzyna Uzona. A resposta foi
ele entrar como uma ação e fechar uma janela, que
existia desde o tempo em que o teatro foi tombado – portanto, já
tombada – fechar, com muros, os janelões abertos dos camarins
do segundo andar, que davam para o "teatro grego" seu
estacionamento.
Exatamente no momento em que caída o muro de Berlim. Mas,
Julio Neves, arquiteto do shopping, foi lá, propor nossa
integração na fachada do Bela Vista Center. Nos daria
uma passagem dos fundos, no beco sem saída, para uma praça
de alienação. Na reunião, gravada em vídeo,
estava Paulo Mendes da Rocha, colega de classe de Julio, na Faculdade
de Arquitetura do Mackenzie. Eu não topei. O Oficina perderia
a autonomia. Propus um projeto de contracenação urbana
entre as duas arquiteturas.
Oficina,
um "oásis" de fertilidade pública como um
vazio atravessando o shopping, teatralizando as duas formas em contradição
no nosso tempo: a cidade-mercado, consumo, e a cidade pública,
de vazios de terreiro eletrônico, na tradição
do modernismo. Paulo Mendes da Rocha é o renovador dessa
linha de ar, cimento, paisagem, céu aberto, trópico.
E Julio Neves, o pós-moderno, dos espaços aproveitados
em cada milímetro de metro quadrado, para o mercado. A Rocha
e as Neves. Pode ficar bonita a contracenação.
P – Como está sendo feita a mobilização
dos atores e quais as medidas que serão adotadas para evitar
danos ao Oficina?
R – Os artistas, não somente os atores, mas os cantores,
artistas plásticos, jornalistas, movimentaram a opinião
pública há vinte anos, em 1980, e impediram que o
teatro fosse comprado por Silvio Santos e portanto, desaparecesse.
Conquistaram o tombamento do Oficina e possibilitaram a construção
do teatro de dona Lina Bardi e Edson
Elito. Teatro anti-shopping por sua natureza.
Teto móvel com seu céu próprio, terra, fonte
para Oxum, terreiro eletrônico, sambódromo, lugar apontado
para um futuro diferente do exclusivismo do shopping. Um teatro
"pé na estrada", apostando numa rua que o levasse
para o encontro de sua popularização. Hoje, Silvio
Santos, além das novelas, vai ter quatro teatros de shoppings.
Fica mais difícil enfrentar o vice-rei do Brasil.
O
movimento de assinaturas, as reuniões, começam discretas,
com apoio do público que vai a nossos espetáculos,
dos estudantes de arquitetura e, me parece, do Ministério
Público, que está investigando a aprovação
do projeto pela Prefeitura de São Paulo e pelo Condephaat,
órgão estadual que cuida dos imóveis tombados.
Este último não levou em conta a lei do entorno do
imóvel tombado, que diz que nada, em 300 metros, pode atrapalhar
sua visibilidade ou estética. Mas vai chegar o momento de
os atores entrarem em cena.
Primeiro,
os independentes, que já nos apoiam; depois, os globais e
os corajosos, que amam o teatro. O público que ama o teatro,
em todo Brasil, e no mundo. Este problema não é só
do Oficina, que está só espelhando o conflito maior
entre a ditadura econômico-financeira das grandes corporações
e a democracia. Vamos passar esclarecimentos pela internet e, depois,
um manifesto. Dia 29, noite de São Pedro, vamos lançar
o livro Teatro Oficina Oficina Theatre, editado pela Fundação
Lina Bo e PM Bardi, num "Fogo de Conselho". Uma conversa,
ao pé de uma fogueira, com pessoas que possam estudar juntas,
as estratégias para esta luta difícil. Acho que, neste
dia, a luta começa a ficar pública.
P – Fale um pouco sobre a história
do Oficina, que se confunde com a história das artes
cênicas do País.
R – A história do Oficina é a da valorização
do teatro como poder mágico na potencialização
do corpo individual, social, do espaço cênico. Retomou,
com o Rei da Vela, o elo interrompido pelo modernizador TBC com
o teatro popular de revistas, chanchadas dos grandes atores carismáticos
tragicômicos, com o circo e as origens pré-Anchieta
nos rituais antropofágicos dos índios. Tudo plugado
na tecnologia. O bárbaro tecnizado como queria Oswald. Roda
Viva, de Chico Buarque marca a retomada do Coro Dionisíaco
ditirambista. Espetáculo invadido e massacrado pelo Exército
e pelo CCC, que, depois, teve a sua linha retomada em As Bacantes,
no qual refizemos o rito de origem do teatro carnavalesco de Dionísios.
Deus
que dá no Brasil. Cacilda! tirou do coma de 30 anos de teatro
a invocação da força da atriz, nos potencializou
pro "tudo a fazer". Três teatro diferentes foram
construídos no mesmo lugar, buscando mexer na estrutura dominante
do palco italiano, sala de aula, missa, buscando a comunicação
orgiástica com o público, o teatro, o tato, o "te
atuo, me atuas", a divindade do teatro que, também,
é filho de Zeus, o espaço teatral como terreiro. O
do Oficina, lugar, foi único que restou renovado dos teatros
da era de ouro dos anos 60. Hoje, é uma pista apontada pro
futuro, para abrir em praça pública abcesso fechado
e travada por esse MegaGolias".
P – Quais são os novos projetos do Oficina?
R – Esse shopping atravessa nosso futuro, por isso, vamos lutar
para não ver destruído nosso sonho de Ágora
(praça pública). Estamos fazendo Boca
de Ouro, que adoraríamos levar para a Bahia, junto
com Cacilda!, no "teatro-irmão",
o Vila Velha. Quero continuar com as outras Cacildas!, mas não
descobrimos como ter o investimento da produção. Reestudamos,
mais uma vez, OS Sertões,
que sempre nos dão força nesses momentos, em que temos
de lutar pela terra de que somos posseiros e cultivadores. Gostaríamos
de criar uma peça que começasse e explodisse com este
impasse, com o vodu da ditadura econômica, que está
sacrificando a vida e a cultura brasileiras. Estamos sentindo isso
como muita gente no mundo, no nosso corpo e no corpo do nosso teatro.
Está quente.
P – Qual a sua expectativa em relação ao futuro
do Oficina?
R – Que tenha força para se curar da doença da cultura
dominada e recolonizada (que produz baixa-estima no teatro) com
outros teatros, que, agora, se juntam em São Paulo num movimento
maravilhoso mas de nome estranho: "Cultura contra Barbárie".
Prefiro a barbárie à forma que cultura chegou, de
ser aceita, de ser decidida pelos banqueiros e pelas grandes corporações,
uma vez que foi repassada para eles, no atual Ministério
da Cultura. Dinheiro levantado em nosso nome, para teatro, é
usurpado e vira especulação e concentração
de capital pelas chamadas leis de incentivo.
Quero
que as pessoas de teatro, mesmo rebaixadas, descapitalizadas, apanhem
como nós nos anos 60 a causa que têm em mãos:
a luta pela liberdade de produção artística
e o combate à ditadura financeira. Assim, como combateu a
ditadura militar, há razões muito fortes agora para
se fazer teatro ligado à revolução político-social
que a revolução tecnológica da comunicação
propicia.
Que
o Oficina consiga expor na Ágora, o abcesso fechado do nosso
tempo. Que consiga, pelo menos, contracenar com este shopping, consiga
sair, com todo Brasil, deste "beco sem saída",
em que está o teatro. Que faça a TV chegar ao teatro
para transmitir direto "chacrinianamente (de Chacrinha)",
o acontecimento, com público presente e participante. Que
alie-se a todas as tecnologias de comunicação instantâneas.
Dionísios, Xangô, justiça e adoração
são as perspectivas desses deuses que me fazem lutar pelo
futuro e querer me ultrapassar, e que o Oficina me ultrapasse e
continue. Eternamente.
Merda!
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