Ata da Assembléia Geral
Teatro Oficina Uzyna Uzona - Brasil
O Arco Íris enraizado
Os Quatro Tempos dos 4O anos de Oficina
Dia 16 de agosto, 2001

O Arco Íris enraizado brilha no vão verde dos shoppings

16 de Agosto 1961

No dia quinze, na véspera,
dia do assassinato de Euclides da Cunha,
deitado no divã que estaria sempre em cena nos primeiros anos pequenos burgueses,
olhando os refletores gelatinados de azul, enluarando o cenário marron terra,
meu primeiro pesadelo pós ensaio geral:
sofria a impressão em dólar,
nos meus sonhos.
Parecia. Sem Chance.

Na noite do dia, forçando a barra da censura em desobediência civil, Renato Borghi, Fauzi Arap, Célia Helena, Etty Fraser, Eugênio Kusnet, Chico Martins, Jairo Arco e Flexa, atores, Sebastião Ribeiro, Elizabete, na produção Manuel, na contraregragem, Domingos Fiorini na luz, Çica Guarnieri no Som, e eu, Zé Celso na direção, chegado da polícia, discutindo os cortes da peça, atrasado, fazendo a barba com barbeador elétrico.

Fomos pro palco? Pista? Arena? Com platéias nos sanduichando dos dois lados. Dona Maria, atriz portuguesa de revista, primeira dama, mulher do prefeito Prestes Maia, madrinha para garantir a abertura do teatro, trazida por meu amigo Plínio Pimenta, da juventude trabalhista, cortou a fita atravessada no meio do do sanduíche, entre duas arquibancadas da Rhor, do Teatro inventado pelo arquiteto Joaquim Guedes. No lugar caveira de burro - Jaceguai 52O, estava inaugurado o Teatro Oficina com "A Vida Impressa em Dólar" (Awake and Sing) de Clifford Odetts, do Group Theatre, antecessor do Actor's studium. Nossa versão era inspirada no nosso Marlon Brandon, nosso Stanislavski: Isaurinha Garcia. A emoção represada dos 5O explodiu revolta no retângulo do Oficina 61. Minha irmã Lala surtou, começou a falar e não parou mais até encontrar suas artes índias de feiticeira arcaica-pop-latino americana: a tecelagem e a criação com crianças.


Dia seguinte.

Peça proibida pela censura policial.
Teatro fechado pela prefeitura.
Arquitetura cênica não prevista nos regulamentos do Departamento de Diversões Públicas.
Não era Arena nem Palco Italiano, não tinha condições de segurança, etc.
Nos muitos cortes, que a censura fez, um ascende à lembrança.
A fala era "Abaixo a Propriedade Privada!" proclamada em baixo profundo pela personagem do avô judeu profeta comunista incorporado em Eugenio Kusnet .
Soou como um sino no Bexiga
Corte duplo numa só fala.
DNA da burrice tabu destes últimos quarenta anos.
Um político: "Abaixo a propriedade" e outro moral: "Privada."

Enquanto lutávamos abertamente pela reabertura do Teatro , Jânio Quadros fazia o ensaio geral de sua renúncia para dar o golpe que só iria acontecer três anos depois. O golpe dele micou. Dia 25 de agosto entregou sua carta cover de Getúlio, e as forças "ocultas", que estavam nas ruas clamando explicitamente por reformas de base, emergiram e com elas, nós entramos em cena, para somente sair três anos depois, com o golpe militar pró geopolítica americana de 64 . Tenho vivo no coração os três anos de maravilhosas esperanças do Brasil para o mundo no tempo do nosso crescimento no ninho da democracia social, civilizatória e soberana do governo do belo João Goulart. O Brasil deslequilibraria a guerra fria, não fosse o golpe de 64. 4O anos, um, ciclo, um retorno concreto às possibilidades interrompidas do Brazil no mundo globalizado: o poder de desequilibrar o equilíbrio desestabilizado da Ordem Mundial como a completação das civilizações antropofágicas interrompidas, no mundo todo.


Dia 16 de agosto de 2OO1 - 2O:3O hs.

Os piquetes dos coros de "Os Sertões", saem de dentro do teatro, cantando a chegada de Dionisios Verde Sim no quarteirão do Bexiga onde se batem de encontro duas concepções de civilização e cidade: a do Shopping Sílvio Santos e Corporações, Broadway Brasileira, e a de Bexiga Oficina de Florestas.

Cantam um ponto frevo de "Bacantes" de Euripedes distribuindo a letra para o público que está na porta para entrar depois de ter pego seu bilhete de entrada grátis para o


Ensaio Aberto de um trecho de "A Luta" de "Os Sertões" de Euclides da Cunha.

"IO!
Bexiga!
Terreira !
Mama de Cacilda!
Coroa tua Cabeça de Héra.
Pra brotar,
Pra sangrar,
A vinha verde
Os novos frutos.
Te Fantasia
Pra gingar nas Bacanais
Com ramos de pinheiro
E Palmares
Com péle de veadinho
Plumas e Brilhos ...
Pega com Fé
a vara libertina
que a Terra toda
vai
dançar.
Todos pro morro ô ô ô
Onde está o mulherio
Que trocou corte e costura,
na picada de Baco,
na Pica de Baco.
Bexiga!"

Os artistas do Oficina e os Oficineiros dos " Os Sertões" trazem nas mãos uma fita verde enrolada em dois Bastões Bacantes: Tyrsos. Um dos Bastões, levados por um Corifeu, desenrola a fita, enquanto o outro marcará o ponto de reencontro do abraço, em frente ao Oficina na Calçada em frente onde se vê Teatro Oficina e ao lado, enorme : Grupo Sílvio Santos. A fita é passada também para as mãos do público, como a Corda do Círio de Nazaré do Pará, para abraçarmos o quarteirão de verde, a partir da descida da - Jaceguay ("Os que comem a cabeça", em tupy) direção oeste, virando a direita para para a Rua-Abolição, onde está o prédio da Caixa Econômica ocupado pelos sem teto que se juntam ao abraço, viramos a direita na ruazinha Comendador José Gouveia Natividade, mais uma vez a direita entramos na Rua Japurá, vamos até o teatro muito bonito na última casa do Beco da Japurá junto aos muros farpados do Estacionamento Sílvio Santos. Subimos a esquerda a Rua do Bexiga entramos a direita na rua Santo Amaro, atravessamos a Jaceguay, e descemos depois da Praça Pérola Bighton a direita onde estão os terrenos remanescentes da desapropriação do Minhocão, futuras torres da Praça Ágora que o arquiteto Paulo Mendes da Rocha riscou, passando em frente a Rua-quasquasquasquacã: Adoniram Barbosa penetrando pela direita os baixos do Minhocão na Rua-Abolição, com seus índios urbanos, moradores de rua da Selva das Cidades, subimos a direita a Jacceguay e nos encontramos na frente do Oficina, na calçada do Minhoção onde os Tyrsos Bastões Gêmese encontram, se beijam, são os minutos do abraço, ÁGORA HUMANA, o coracão verde do Bexiga é salvado sagrado com rojões verdes, explodindo os desejos de folhas, flores, água, céu, terra, fogo, fogueira, humanos, comprimidos de São Paulo virada, São Pã. Acordados no Anhangabaú da Felicidade do sonho de Leonardo da Vinci. Libertados nos Trópicos de Capricórnio por Lina Bardi. Uma das artérias verdes penetra na Rua Oficina, com semáforo aceso verde, até o Buraco do Beco centro do São Pã do Oficina, que dá para o Estacionamento Sílvio Santos, Estádio de Teatro Pau Brasil, onde amorosamente penetra. O outro bastão do abraço, envolve as galerias em rua aérea.

Os artistas e públicos presentes das várias luas do ciclo cumprido, dos quarenta anos do Oficina e a Infantaria que está nas Oficinas de os Sertões, no centro da pista erguem taças de vinho tinto, para uma Libação, mudanças, inauguração da Rua Oficina de Teatro de Passagem outra espécie de ação e de vida, Rua Oficina de ligação de Áreas verdes com ramificacões verdes, para todos os os pontos de vida vivida viva do Bexiga, Teatro Ágora (ex Bexiga), Vai Vai, Teatros Todos, Cantinas, Pensões, revitalizadas em seiva Burle Marx, com o valor econômico-financeiro de Ar, Ardor e Verde Sim.

Brinde orgiástico coletivo, juntos, olhos nos muitos olhos, tocando os sinos dos copos, Evoé ! Três sinais são dados, tomara que com os sinos de Canudos ecoando em todo quateirão. Os coros puxam as 9 batidas do teatro com o público.


Começa o ensaio de A LUTA

A do fim do século XIX, em Canudos, com a encenação do Incidente inicial determinante da guerra de Canudos e do Incidente do Oficina no início do do século XXI, a cena Mote de Psicodrama entre a Prefeita Marta Suplicy, vivida pela atriz Sylvia Prado, e o Grupo Oficina Uzyna Uzona, no dia 16 de Maio no Paleacio das Indústrias onde a prefeita declara-se favorável ao Projeto do Shopping Sílvio Santos e contra o Projeto de expansão urbana ecológica do Oficina em rua.

No século XIX, o Prelúdio da Guerra Sertaneja. "Explodiu revolta monarquista PT, forçoso impedir luta intestina PT, aguardamos reforços PT."


Ato de Amor

Cena entre a administradora regional da região Centro e Bexiga, arquiteta Clara Ant, vivida pela atriz Malu Rocha e o grupo Oficina Uzina Uzona, na Regional da Sé, dia 17 de junho sobre as lutas pela revitalização, pelo Centro Vivo.

"O atentado era público. Conhecia-o o principal representante do governo e silenciara, sob a pressão de dificuldades exigindo solução imediata e segura, não havia lugar para estas visões longínquas do futuro..."

Estas duas cenas de "teatro verdade" foram escritas pelo ator poeta Marco Piantã presentes nos atos que dramatizou como um ato de amor à prefeita Marta Suplicy, conforme sugestão de Clara Ant .

-Querem um conselho: Vocês deviam fazer um ator de amor para a prefeita.

Amor de Verdade: teatralizar publicamente para se ver, mesmo nos momentos de cegueira do poder, e poder mudar. Tradição da prática teatral universal.


A Segunda Expedição do Major Febrônio

A do Cambaio, com a desistência da invasão de Canudos por falta de munição, seguida da carta de Sílvio Santos em 198O, desistindo da compra do Oficina, em virtude do movimento dos artistas. No papel de Sílvio Santos, Marcelo Drummond Boca de Ouro.


O Crescimento de Canudos

"No arraial estruge a orquestra estridente das bigornas, à cadência dos malhos e marrões." Os sinos os ferros do Orgão das Estrutras do Oficina Cantam.


A Prédica de Antônio Conselheiro
,

Tal o texto integral de Euclides sobre a personagem revivido por José Celso Martinez Correa.


A Terceira Expedição: Moreira César

Chegada de Dionisios Brasileiro

Chega Marcelo Drummond Dionisos, tocando no Ponto Tabú, o ponto de resistência brasileira na Rocha Viva de Canudos. Trazendo a festa de entrada no ano O1 Coroação de Héra. Teatro Rua Ágora, aberta para a expressão e comunhão de todos os presentes, artistas ou não, do Oficina ou não, de todos os teatros e todas as artes, presentes e vindouras. Luciana Domschke, na vanguarda, que venha fazer com o pianista Danilo Tomic sua primeira experiência de arte médica holística. Omulú.

E tomara que Zé Miguel venha a cantar até o sol do dia 17 raiar. Celso Sim e Jorge Mautner, também. Roberto Piva dizer Poemas. E Eduardo Suplicy, amigos de todas as horas, tomarem conta da festa. "Quem dança, dança, dança, Vira Baco, rei da festa "

E Dionisos não barra ninguém, sintam-se todos convidados.


CONVOCAÇÃO GERAL

Outra Vez, depois dos quarenta:

Quinto Tempo

"Os Sertões" marca a transição para a fase próxima em que entramos dia 16. A do cumprimento do desejo do Poeta de "A Morta" de Oswald: a chegada do teatro na Ágora, no espaço urbano, teatralizado, e principalmente devolvendo ao Bexiga tudo que recebeu dele: um espaço público absolutamente original , de informação criada aqui, onde deu até o ditirambo do samba em São Paulo.

No clímax de uma luta difícil mas belíssima, com a responsabilidade de ser o coração de um poderoso embrião de outro conceito de revitalização do Bairro

e das cidades ameaçadas pela mercantilização da cultura urbana, Oficina se despede de seus quarenta anos e passa por outfra revolução. A consciência de quarenta anos de vida, com vários Oficinas Oficinas Uzynas Uzonas, dos quais eu sou um elo original, assegurando que se trata de um movimento que me transcende, já compartilhado com o Conselho da Associação Teatro Oficina Uzyna Uzona, com grande parte deste elo, 15 anos, tecido por Marcelo Drummond.

O fato de atuar como Conselheiro me fez perceber que esse terreiro do anarquista coroado, resistiu, expandiu-se e quer crescer ainda mais, porque corresponde a um desejo social. Há lugar no Brasil para a loucura da criação de vida própria, de informação não comprada em padrão nenhum. Uma pequena multidão no tempo e no espaço garantiu chegar aonde chegamos, e é uma multidão sempre jovem trazendo o movimento do dinamismo que este terreiro tem que por sua vez sintomatiza o crescimento do teatro e do povo brasileiro com a arte pública, atual e virtual, o desejo de completar em plena globalização dominada pelo know how do Império Americano, uma civilização outra, a que Euclides, anunciou nos "Sertões"

Praticada há 4O anos atrás no Governo de Goulart. Um sertões passado já por Chico Science e toda a revolução brasileira que continua. Nós somos uma das plantas, um dos Ibirapueras. Nosso território é mesmo o da Paixão e do Carnaval o ano inteiro. Esses quarenta anos foram movidos a libido; ao inconformismo com as idéias escravizadoras de "homem"; a condenação do teatro de poder humano a um papel coadjuvante. Oficina aposta no poder do teatro, na sua possibilidade de tornar-se como a Paixão, o segredo explosivo da cultura da vida. O Teatro nos seus grandes momentos foi e será mais uma vez uma invenção pública do encontro humano fora do "papai mamãe, pederasta inato" como dizia Artaud. Neste fim de quarenta anos, acho que o Oficina Uzyna Uzona prepara-se para o desconhecido, que está no seu ventre, no dilema dos "Sertões": dilema Centro Vivo e Viva O Centro, dilema do Brasil, dos brasileiros, povos dionisíacos do mundo inteiro, que já está maduro de podre para começar a inventar outras formas de amor misterioso e exercer o poder da invenção da criação, inverterndo plenamente a submissão à vida impressa em dólar.

É o que me revela toda esta imensa máquina de desejo da Nova Infantaria que entra na guerra e na anarquia agora na máquina Sertaneja de guerra do Oficina. Não dá pra dizer os nomes porque são mais de cinquenta tesões. Meu pedido neste aniversário e minha mais importante descoberta: É chegado o momento do Bexiga enfrentar a Broadwayzação, com a coragem de um Pomar no meio dela se tiver de ser fatal.

Será? Francamente.

Em vez de Shopings, Parques e Praças sem cerca, com os sem teto tomando conta: uma coroa de Hera em torno da Ágora do Oficina. Arco Íris entranhado entre guetos volumétricos de Miami, Arco Iris Vão no Verde Sim.


Paraíso, 11 de Agosto de 2OO1
Aniversário dos 39 anos de Marcelo Drummond

Merda

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