São 36 anos de idade e 20 de carreira. Bastaria o talento incontestável para ser considerado um jogador especial. O carisma, todavia, torna-o ainda mais diferenciado. Acostumado a comemorar grandes vitórias e a ser reverenciado pelo público, Andre Agassi se despede em 2006 do profissionalismo. O palco de sua apresentação derradeira não poderia ser outro: o US Open, em Nova York, seu torneio preferido e que jamais na carreira deixou de disputar.
No ano passado, a má condição física levantou suspeitas de que o ex-líder do ranking deixaria as quadras após o Grand Slam norte-americano. Àquela altura, já sofria bastante com as dores nas costas provocadas por uma inflamação no nervo ciático, mas ainda conseguia jogar com desenvoltura. Tanto é que fez jogos épicos, como o inesquecível duelo contra James Blake nas quartas-de-final, e só perdeu na decisão para Roger Federer, o melhor do mundo.
Andre Kirk Agassi nasceu em Las Vegas, a 29 de abril de 1970, e é filho de Elizabeth e Mike, um ex-pugilista que lutou nos Jogos Olímpicos de 1952. Em 1986, Andre apareceu como o mais novo garoto prodígio de Nick Bolletieri, com quem trabalhou até 1993. Aos 16, no segundo torneio profissional da carreira, já era vice-campeão do challenger de Schenectady.
No ano seguinte, veio ao Brasil para jogar em Itaparica, Bahia. Nas quartas-de-final, encontrou seu futuro técnico Brad Gilbert e não deu chances: 6/1 e 6/3; na seqüência, pegou o argentino Martin Jaite, 15º do mundo naquele momento, e venceu novamente. Na decisão, acabou com a festa da torcida brasileira e bateu Luiz Mattar para conquistar seu primeiro ATP, ainda como juvenil.
Mas foi em 1992 que Agassi começou a entrar para o hall dos maiores de todos os tempos. Na grama de Wimbledon, contrariou a lógica e derrubou as grandes estrelas, mesmo jogando do fundo da quadra. Derrotou Boris Becker e John McEnroe, até alcançar a final e superar o saque-canhão de Goran Ivanisevic em cinco sets.
As conquistas de Grand Slam não pararam por ali. Foram oito, no total. Também faturou o Aberto da Austrália quatro vezes, o dos EUA duas e Roland Garros, uma. Ainda que não seja considerado um jogador absolutamente completo, o marido de Steffi Graf é o único em atividade a ter vencido os quatro eventos da série mais importante do calendário.
Em 4 de outubro de 1995, Agassi estreou na liderança do ranking da ATP. Por lá ficou 101 semanas (não ininterruptas). Poderia ter ficado mais se não tivesse dividido seus tempos áureos com Pete Sampras, ainda considerado por muitos o maior de todos os tempos. Os dois protagonizaram uma das rivalidades mais importantes do tênis. Foram 34 embates, 20 vitórias de Sampras - que, aliás, se aposentou batendo seu par na final do Aberto dos EUA, em 2002.
Os feitos do tenista de Las Vegas vão além dos títulos. A começar porque foi capaz de superar ícones de gerações tão distantes. Se na década de 80 enfrentava jogadores como o explosivo McEnroe, no século XXI anotou vitórias sobre o "gentleman" Roger Federer, grande candidato a se tornar o maior jogador de todos os tempos. Nesse período, as raquetes mudaram, as roupas mudaram, o tênis mudou. Uma coisa, entretanto, permaneceu igual: Agassi sempre esteve entre os melhores do mundo e os mais queridos do circuito.
A bem da verdade, esteve na elite quase sempre. O ídolo passou por um mau momento, mas foi capaz de algo desafiador mesmo para as grandes lendas do esporte. Sem o devido foco no tênis, caiu no ranking em 1997 e em novembro chegou a ser o 141°. Algo quase inimaginável, teve de disputar challengers. Perdeu o primeiro - foi vice na cidade natal - e ganhou o segundo, em Burbank.
A reação estava por vir. O ano seguinte foi o do ressurgimento. Marcou o maior salto de um jogador para o top 10 em um único ano. Escalou nada menos que 116 posições e chegou ao sexto posto. Para isso, faturou cinco títulos e cinco vice-campeonatos. Em Wimbledon, ao bater Alex Calatrava, chegou a 500 vitórias na carreira.
Andre Agassi deixou várias imagens marcantes para a história
do tênis. Há de ser lembrado o atleta irreverente,
de longos cabelos e bermudões, golpes invariavelmente agressivos;
ou o jogador careca, mais experiente e apurado taticamente; e
por que não este de agora?, o veterano, longe de ser favorito
ao título, mas ainda capaz de atrair multidões,
que retribuem com gritos e aplausos as direitas e esquerdas com
que foram presenteados ao longo de três diferentes décadas.
Quando encerrou sua campanha no Aberto dos EUA 2006 e cumpriu
o velho ritual de cumprimentar com beijos ao ar os quatro cantos
da arquibancada, ele colocou fim a um ciclo, na sua vida pessoal
e na história deste fascinante esporte. Todos que participam
de algum jeito do mundo do tênis por certo se sentem agradecidos.
Muito Obrigado. |
|