Para Bellucci, família vem antes de tudo

Thomaz BellucciApós títulos, entrada no top 70 e vitórias em Grand Slam e ATP, Bellucci se tornou Divisão 1 na ATP e foi convidado pela entidade a participar de curso na Euro Disney, nos arredores de Paris. Nos dias em que esteve na França, o paulista teve palestras, conheceu mais sobre a relação entre ATP e jogadores e teve dicas de como se portar em entrevistas e com os fãs.

O “primeiro teste” após o curso foi feito com Tenisbrasil, em entrevista concedida no luxuoso Hotel Disneyland, onde esteve hospedado. Além do balanço do ano, das metas para 2009 e da recente troca de técnico, ele falou sobre o passado, sobre as duras lesões ainda no juvenil e sobre a experiência que ganhou praticamente sozinho na passagem para o profissional.

No lado pessoal, admitiu ser um cara tímido, que não gosta de exposição e que preza a relação familiar acima de tudo. Palmeirense e morador de Alphaville, Bellucci reconheceu ainda que o ritmo do longo calendário é bastante cansativo e que em poucas oportunidades pode ter uma vida “normal como qualquer cara de 20 anos”.

Confira abaixo a 2ª parte da entrevista. Clique aqui para ver a 1ª parte.

Por Elói Silveira, de Paris.

Tenisbrasil - Como foi esse curso da ATP aqui na Disney?
Bellucci - Foi interessante, eles mostram como é a ATP enquanto entidade, como é a relação com os jogadores, com diretores de torneios, fazem intercâmbio e te ensinam bastante coisa. Tem palestras, curso financeiro, curso de entrevista e eles apontam o que você está fazendo bem ou mal, dão toques de como lidar com a imprensa, com os fãs.

E quem tem direito a fazer esse curso?
Quem é divisão 1 da ATP, abaixo de 200 (do ranking). Tem um período de dois anos para fazer e você precisa fazer uma vez só.

Quem mais estava aqui?
Que eu conheço só o Leonardo Mayer, mais quatro alemães, dois italianos e alguns europeus que jogam torneios diferentes, então não conheço muito bem.

A experiência valeu?
Valeu. Deu para mesclar cursos com passeios, deu para conhecer a Disney. O hotel é bacana e foi bom para aprender coisas com alguns palestrantes.

Estes dias aqui em Paris foram de folga mesmo ou você chegou a bater bola com alguém, treinou?
Não, não, de folga total. Larguei a raquete, deixei tudo no Brasil. É a única época do ano em que a gente pode desligar totalmente, por isso nem entro muito na internet para ver rankings, resultados.

Como foi teu início no tênis, com quantos anos e graças a quem?
Foram meus pais que me incentivaram e me colocaram para jogar. Eles sempre gostaram de esporte, meu pai tem quase 70 anos e joga tênis quase todos os dias com a minha mãe. No começo jogava com minha irmã, eu tinha 10 e ela 12 anos e a gente fazia aula juntos. E sempre fui um cara esportista, fora o tênis jogava futebol, fazia natação. Mas vi logo que gostava mais do tênis, gostava de estar dentro da quadra e até hoje é assim.

Qual foi sua primeira lembrança de torneio?
Acho que foi com 10, 11 anos, quando comecei a jogar o Circuito Paulista. Jogava pouco, não é bom apertar tanto quando você é pequeno. Já com 12 passei a ir mais nos torneios, em Paulistas, eu gostava bastante.

Você passou desapercebido pelo juvenil. Mas esta foi uma fase complicada, cheia de lesões. Como foi este período? Você chegou a temer pelo futuro e pela transição para o profissional?
Não é fácil para ninguém e não foi fácil para mim. Com 15 anos eu já estava jogando alguns profissionais e tive a primeira lesão no joelho esquerdo, fiquei seis meses parado. Era uma época importante, porque ia começar a ir mais para o profissional. Parei e tive que compensar depois, fui jogar longe do país para buscar ritmo e foi duro. Depois veio a outra lesão, no joelho esquerdo de novo, com 17 anos. Perdi muito tempo dos 15 aos 18, que é justamente uma época importante para se desenvolver.

E essas lesões ainda te preocupam hoje? O joelho está bem?
Meu joelho está 95%. Lógico que as operações são delicadas e o joelho esquerdo nunca está igual ao outro. Mas não me impossibilita de jogar. É uma lesão normal até.

Qual foi exatamente o grau dessas lesões?
Foi na cartilagem. Ela soltou do osso e tiveram que recolocá-la no lugar.

Depois dessas lesões você nem voltou mais para o juvenil?
Eu tinha conseguido antes uns bons resultados no Cosat e na Europa, então quando voltei tinha perdido tudo, zerado. E sabia que não valia a pena jogar seis meses no juvenil e depois perder tudo de novo no final do ano, porque os pontos do juvenil não vão para o profissional. Não adiantava, aí fui para os futures, comecei lá embaixo, 1.000 e pouco do ranking e fui subindo.

Nestes momentos de operações você chegou a pensar em parar?
Não passou muito na minha cabeça, mas é claro que mexe um pouco. Sabia que era temporário. E teve um lado bom, porque você cresce também, foi uma lição. Passei a valorizar mais o físico e cuido bem disso hoje, acho que amadureci bastante. Perdi um ano, mas posso ter ganhado mais para o futuro. Sempre faço exercícios de prevenção, não só do joelho, mas de tudo. E isso não é todo mundo que gosta de fazer. Eu aprendi desde cedo e foi importante.

Você é um cara que não gosta muito de aparecer, não tem o gênio do Saretta, não é um cara descontraído como o Guga. O Bellucci é um cara tímido, fechado?
Não sou parecido com o Saretta nem com o Guga. Não sou de falar muito e às vezes as pessoas até acham que sou arrogante. Sou mais tímido sim, mas com o tempo eu vou aprendendo a ter contato com as pessoas, a lidar com elas. Dentro da quadra também não gosto de aparecer, não grito tanto...

Mas você explode de vez em quando e quem paga são as raquetes...
(Risos) De vez em quando precisa, é uma válvula de escape.

Desde que você saiu do número 500 e virou top 70, número 1 do Brasil, mudou alguma coisa na tua vida? Você mudou?
Acho que não. Sempre fui o mesmo cara, sempre tive os mesmos amigos de quando jogava os futures, como o Caio (Zampieri), o Eric Gomes, o Vitor Manzini. Sigo falando com eles. Você não pode mudar só porque subiu ou está ganhando mais dinheiro. Meu caráter vai seguir sempre o mesmo.

Ao se aposentar, o Guga disse que não sentiria falta da magia do circuito, da correria e das viagens. Já o Bjorkman, semanas atrás, falou que ia sentir falta do clima nos vestiários, das amizades com os jogadores. Você já conseguiu viver isso que eles citam? O circuito é o que você esperava?
Com certeza não é tudo maravilhoso. O bom é poder fazer o que você gosta, viajar, conhecer cidades lindas, como aqui em Paris, poder se divertir e ter coisas que você nunca imaginou que poderia ter. É legal também estar nos melhores torneios, ter gente torcendo por você, é gratificante. O lado ruim é viajar 8, 9 meses. Na maioria das vezes a gente nem vê a cidade, vai do hotel para o clube, do clube para o hotel. E é cansativo ficar longe da família, longe dos amigos, você deixa de fazer muitas coisas que um cara normal de 20 anos faz. E tem o fato de acabar a carreira com 30 anos, enquanto a maioria segue até os 60.

Nesse tempo em que você pega suas coisas e vai viajar um, dois meses até, qual é a rotina? O que você faz no tempo livre?
A rotina é mais ou menos a mesma. Só quando a gente perde é que dá para visitar um pouco, conhecer a história do lugar. Mas no resto quase nunca tem oportunidade: é treino de manhã e à tarde, jogo, depois chega cansado no hotel, janta ali mesmo e nem tem vontade de sair. É cansativo, trabalhamos com nosso corpo e às vezes ficamos sem força. Se você perde, aí sim tem um, dois dias para recuperar o físico, para poder relaxar e sair daquele ritmo de concentração total.

Todo mundo sabe que a fase de futures, challengers é mais dura, você tem que fazer praticamente tudo sozinho, montar calendário, viajar, treinar, comprar passagem...Nesta nova fase de torneios maiores, você consegue aproveitar melhor outras coisas da vida?
É outro estilo mesmo, você vai chegando mais perto dos teus sonhos. Lá atrás era difícil, eu tinha pouco dinheiro, meu pai me sustentava, mas agora já consigo fazer tudo sozinho, comprar o que quero, tenho meu dinheiro. São fases diferentes, até do juvenil, quando tinha tudo pago, viajava e ia para bons hotéis. Quando entra no profissional, muda o estágio e você vê que não é aquilo que pensava. São hotéis horríveis, torneios péssimos, quadras ruins e você fica muito tempo longe de casa, por isso muitos desistem. Mas faz parte, não dá para subir tão rápido. É um ciclo, tem que ir melhorando aos poucos e não pode pensar a curto prazo.

E quais são seus hobbies? Me falaram que você era o rei dos video games, é verdade?
(Risos) Não, não. Eu gostava muito, jogava bastante, mas agora não passo muito mais tempo não. Claro, se tem um jogo novo e legal eu compro, mas dei uma parada. Quando estou em São Paulo gosto de ir aos jogos do Palmeiras, vou com a minha família, amigos, mesmo que o time tenha perdido uns jogos que não poderia, deu uma “pipocada” contra o Grêmio. E no resto do tempo fico mais em casa com a família. Não sou de sair muito, nunca gostei.

Qual é a importância da família na tua carreira e nesta fase nova?
Eles são muito importantes. Para qualquer pessoa que tem uma família estruturada as coisas ficam mais fáceis. É difícil você ver alguém com sucesso que tenha por trás uma família ruim. Comigo é a mesma coisa. Eles me deram suporte, me apoiaram de todas as maneiras, financeiramente, moralmente. Se não fossem meus pais eu não estaria aqui hoje.

Você fala bastante com eles durante os torneios, eles seguem cuidando das tuas coisas quando você não tem tempo?
Antes eles cuidavam mais. Hoje tenho uma equipe. Mas como eles jogam tênis também, sempre ficam me dando dicas, falam onde eu tenho que melhorar...Todo pai é assim (risos). Aí eu escuto, mas nem sempre faço, né? (mais risos) Mas no geral eles me motivam muito.

No tempo livre, você ouve que tipo de música, lê que tipo de livro?
De música eu gosto de bastante coisa, de pagode, de techno, de rock, de rap...De ler, gosto de história, tenho alguns livros assim. Gosto de suspense também, de romances. Quando tenho tempo livre eu tento mesclar e uso internet para falar com as pessoas e também ler um pouco, é importante.

No Masters aconteceu um caso engraçado com o Radek Stepanek, que foi convocado meio às pressas e acabou se esquecendo das raquetes, das meias, da lente de contato e teve que emprestar tudo. Já aconteceu algo parecido com você?
Não, mas já aconteceu de extraviar mala com tudo dentro. Até sou um cara esquecido, mas não a esse ponto (risos). Não lembro qual torneio, mas foi neste ano a última vez que perderam minha mala com tudo dentro.

Você vê o Guga como um ídolo? Você cresceu vendo quem jogar?
Ídolo não chego a ter. Gosto do Guga, claro, mas porque ele é brasileiro e conseguiu muitas coisas. Mas gostava de ver o (Pete) Sampras jogando, a postura que ele tinha dentro da quadra, da coragem.

Se você tivesse que decidir entre o Guga e o Federer, ambos no auge, quem você escolheria?
Depende do piso (risos). Se fosse o saibro sem dúvida o Guga. Ele jogava mais que o Federer, daria até para complicar para o Nadal. Mas no geral, na rápida, o Federer era superior.

Aliás, o Guga está prestando vestibular para teatro. O que você acha disso? Você teria alguma idéia de carreira após o tênis, algo que gostaria de fazer se não tivesse virado tenista?
Não sabia do Guga. Até achei que era para música que ele ia prestar. Particularmente eu não faria teatro (risos). Mas não, nunca pensei direito nisso. Talvez depois, lá pelos 30, 32 anos eu pare e veja. Acho que poderia fazer algo do tipo administração, mas sinceramente nunca pensei seriamente.

28/11/2008

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