Nossa
realidade
Por Henrique Terroni Filho
Normalmente
meus assuntos são para tenistas amadores, que têm no tênis
uma atividade saudável e prazerosa. Procuro, fruto de longa experiência,
dar "dicas" sobre o aprendizado, evolução, comportamentos
etc.
Todavia, freqüentemente sou instado, por e-mails ou pessoalmente,
a dar minha opinião sobre como vejo o tênis no nosso país.
A questão mais freqüente é por que não temos um tênis
de primeiro mundo. Minha resposta é objetiva e óbvia: porque não
somos um país de primeiro mundo.
Em um rápido olhar nos 50
melhores ranqueados da ATP, veremos a predominância de europeus, americanos
e alguns do Leste europeu. Mas e a Argentina? Um país com tradição
tenística, com 6 jogadores entre os 50 melhores, é um "primeiro
mundo" do tênis. E algumas exceções, como cipriota ou
tailandês, com certeza foram formados e treinados nos grandes centros.
E o Brasil? Iniciei esta matéria dizendo que escrevo predominantemente
para amadores. Sem ironia, sou obrigado a continuar falando de amadorismo. Pois
o tênis no Brasil é amador. Na sua estrutura, organização,
nos dirigentes de alguns anos a esta data, na qualidade técnica da grande
maioria dos professores, na gestão de grande parte de Clubes e Academias,
no planejamento para popularizar e alavancar o esporte, na ausência de incentivos
públicos e privados na formação de novos jogadores, etc.
Finda
a "era Guga", um fato isolado fruto de seu talento, obstinação
e de seu técnico, jamais de uma estrutura organizada e planejada, o que
temos?
Posição subalterna na Davis, nenhum jogador entre
os 100 primeiros do mundo (até a feitura desta coluna, qualquer alteração
não mudaria muita coisa), desempenho pífio dos nossos profissionais
pelo mundo e principalmente nenhuma expectativa de surgimento de valores reais,
não "promessas" meteóricas fadadas a permanecer, com sorte,
entre os 200 e 300 do mundo.
Não, não serei repetitivo aqui,
transcrevendo e reiterando queixas, reclamações, cobranças,
comparações, soluções imediatistas, etc., que povoam
há longa data artigos, entrevistas, matérias, murais e correspondências
a revistas e sites tenísticos.
Vejo o assunto de uma forma mais
abrangente. Acredito que a situação do nosso tênis é
reflexo direto da situação do país.
Um país
que trata de forma amadora questões fundamentais como saúde, educação,
segurança pública, etc., tem representantes envolvidos em escândalos
e corrupção e ficam impunes, vai importar-se com o esporte? Principalmente
o tênis, individual, que não tem apelo político e não
rende dividendos eleitorais?
Um
país que, segundo a ONU, possui uma das piores distribuições
de renda do mundo, uma péssima colocação no IDH (Índice
de Desenvolvimento Humano), além de outras "primeiras colocações
negativas", terá um tênis de primeiro mundo?
Ouço
que grandes empresas multinacionais, algumas do segmento esportivo, pouco ou nada
investem no tênis brasileiro. Não é esta postura que adotam
em países onde o tênis é levado a sério, onde os dirigentes
não estão envolvidos em desmandos, luta pelo poder, auditoria para
comprovação de desvios de verbas e batalhas judiciais, como recentemente
ocorrido.
Um grande sábio da Antiguidade disse: "Assim como
é em cima, é em baixo." Acho que esta frase resume tudo.
Diante deste cenário, não me surpreendo ao saber que tal torneio
foi mal organizado, não há incentivos nem investimentos em jovens
promissores, pesam desconfianças sobre a competência e honestidade
deste ou daquele dirigente, inexiste planejamento para um trabalho de base, crianças
são lançadas em competição sem nenhum preparo, o profissional
A ou B caiu na primeira ou segunda rodada de um torneio secundário e por
aí afora.
Creio que é momento de encarar o assunto com realismo,
com os pés no chão, sem falsas ilusões.
O nosso tênis
será sério, competitivo a nível internacional, de primeiro
mundo, quando o país for sério, competente, ética e moralmente
responsável.
Quando as notícias, diárias, deixarem
de mostrar as mazelas na saúde pública, na educação,
na distribuição de renda e na segurança. Que não tenhamos
de "engulir" a cada dia o novo escândalo envolvendo corrupção
daqueles que foram eleitos para nos representar. Quando a ética e a moralidade
não forem lembradas apenas nos palanques, por ocasião das eleições.
Quando isto ocorrer, com certeza teremos um Esporte e conseqüentemente um
tênis de primeiro mundo.
Enquanto
isto não ocorre, e acho que vai demorar, vamos valorizar o amador que tem
no tênis uma atividade prazerosa e saudável, a criança que
está dando os primeiros passos num esporte completo como é o tênis
e comemorar, sem falsas ilusões, quando um profissional brasileiro obtiver
um desempenho razoável, fruto unicamente de seu esforço, num torneio
secundário ou conseguir a façanha de entrar num Grand Slam, mesmo
sabendo que dificilmente passará da primeira rodada.
E, principalmente,
vamos cada um continuar dando sua contribuição. Fazer a sua parte
com seriedade, respeito e profissionalismo. Dirigentes, responsáveis por
Clubes e Academias, profissionais da mídia, professores e treinadores.
Para que o tênis continue sendo um esporte apaixonante e saudável.
Mas com os pés no chão. Conscientes de nossa realidade. Sem a ilusão
que alguém, de repente e saído do nada, será um novo Guga.
13/09/2006
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Henrique Terroni Filho, 1ª classe da Federação Paulista,
participou de competições oficiais nacionais e internacionais até
meados de 1970. Professor de tênis para adultos e crianças há
25 anos. Autor do Programa "Tênis: terapia para crianças",
em conjunto com psicólogos. Consultor para clubes e academias nas áreas
administrativa, financeira e técnica. Formação em Administração
de Empresas, pós-graduação em Administração
Financeira e Marketing, curso em Psicologia do Esporte.
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