É preciso mais gente na quadra
Por José Nilton Dalcim

O tênis brasileiro dá sinais animadores de crescimento. Desde que Gustavo Kuerten recolocou a modalidade nas manchetes, a partir do histórico título de Roland Garros de 97, paulatinamente o mercado apostou novamente suas fichas no tênis e o que se tem visto é o retorno de investimento e confiança.

Passados quase três anos, todas as grandes marcas internacionais estão restabelecidas no país, ainda que nenhuma deles tenha se atrevido a sequer sonhar em montar fábricas, como antigamente. São representantes e revendedoras das marcas, que importam raquetes e bolas e enchem as prateleiras das lojas. O movimento praticamente dobrou depois de Guga, segundo avaliam alguns especialistas.

Outro sinal evidente do interesse pelo tênis está na briga que redes de TV abertas e a cabo travam hoje por campeonatos e por Kuerten. A ESPN International, que deu a sorte de acompanhar o título de 97 com absoluta exclusividade, passou a ter concorrência da SporTV desde o ano passado e hoje já chega também a PSN. Para felicidade do apaixonado por tênis, todos os grandes torneios internacionais estarão na telinha nesta temporada, inclusive os femininos. A Rede Record, associada à Koch Tavares, será quem vai mostrar os Grand Slam na rede aberta.

As promoções pegaram então a carona desse otimismo e recomeçam a colocar nas quadras brasileiras alguns torneios de importância no calendário internacional. Melhor ainda, muitas dessas empresas são novas no mercado, com grande chance de não trazer o vício das antigas promotoras. O mais importante foi ver que três novos circuitos juvenis estão programados para esta temporada, trazendo de volta algum trabalho de base mais sério e organizado.

Mas ainda faltam coisas fundamentais para que o tênis se torne um esporte atraente para o empresário e não apenas um objeto de oportunismo. É preciso colocar mais gente nas quadras, fomentar a chamada "indústria do tênis". Raquetes, bolas, academias, arquibancadas e o ibope só terão números expressivos se houver algum trabalho consciente que motive continuamente a entrada de praticantes. E esse tipo de trabalho ainda é amador e instável no Brasil.

Não se pode falar num esporte "popular", ainda que essa popularidade seja relativa como será sempre o caso do tênis, se não houver quadras e ensino públicos. O preço de uma raquete, que pode durar anos, e das bolinhas já não assusta, mas é imprescindível que o local de jogo e a aula sejam mais acessíveis. Confederação e federações deveriam criar projetos sérios e bem estruturados e, com ele nas mãos, buscar apoio junto a fornecedoras de material esportivo, construtoras de quadras, prefeituras e secretarias de esporte. A Federação Paulista deu o exemplo de que isso é possível e arrendou as três quadras do complexo do Ibirapuera junto ao governo do Estado, onde hoje dá aulas e pode promover torneios sem depender da boa vontade dos clubes.

Associado ao incentivo do lazer, é preciso também motivar o juvenil a gostar do tênis, a projetar uma carreira, a disputar o circuito nacional. O atual calendário juvenil é penoso para a família que paga as contas e traz pouco em troca, quase unicamente uma classificação no ranking. A Confederação, que acaba de criar o Departamento Infanto-juvenil, pode aproveitar a boa iniciativa e adotar um sistema que faça o ranking valer um pouco mais do que um sorriso e um aperto de mão. Afinal, de que serve hoje ser o número 3 do país, em qualquer categoria? Que garantias tem o líder do ranking de receber um apoio na hora de iniciar sua carreira? De que vale a carteirinha da CBT, se não dá nem desconto de encordoamento?

Se um movimento organizado for iniciado rapidamente, poderemos ter a fortificação da atual realidade e pensar num panorama estável dentro de cinco anos. Está na hora de profissionalizar a estrutura do esporte, ao invés de ficar sempre sonhando com as vitórias de Guga.

 

Clique aqui para ver as colunas anteriores

José Nilton Dalcim, paulista de 45 anos, é jornalista especializado em esporte há 24 anos. Acompanha o circuito do tênis desde 1980. É diretor editorial de tenisbr@sil.


Fale com José Nilton: joni1@uol.com.br