Entre o 1 e o 100
Por José Nilton Dalcim
A temporada
2000 do tênis masculino terminou com uma curiosa
situação para o tênis brasileiro. Temos o número
1 do mundo, Gustavo Kuerten, mas nenhum outro
jogador classificado entre os outros 99 lugares.
O centésimo da lista é justamente Fernando Meligeni.
A lacuna
preocupa. Nem era necessário, mas isso ratifica
o fato de não existir qualquer trabalho organizado
no país. O desempenho de cada jogador depende
exclusivamente de seu próprio esforço, de sua
equipe particular, do seu bolso. E o que é pior
de tudo, isso não vale apenas para Guga ou Meligeni,
mas para o garoto que está disputando o circuito
juvenil ou aquele que começa sua vida profissional.
A triste
verdade é que a realidade brasileira está mais
para o 100 de Fininho do que para o 1 de Guga.
Afinal, sem qualquer programa nacional que aumente
a base de praticantes ou se preocupe com os talentos
que aparecem, o Brasil não poderia mesmo sonhar
em ser uma Argentina, onde não existe qualquer
top 10, mas uma dezena de jogadores entre os 150
do ranking e uma legião de promissores juvenis
pipocando por todos os lados. Entre os 500 melhores,
40 são argentinos e apenas 10 são brasileiros.
Quem dirá então uma Espanha, com 14 entre os 100
melhores do mundo, só para falar do masculino.
Vivemos
um paradoxo sem tamanho. No final dos anos 80
e início de 90, com 38 semanas de torneios oficiais
e uma montanha de pontos e dólares à disposição,
tudo o que se pedia era um ídolo. Agora, temos
um herói, nenhum torneio de expressão e pouquíssimos
eventos de pequeno porte. Dá para entender?
O problema
é que Guga não surgiu no Masters de Lisboa, mas
sim em junho de 97, portanto há mais de três anos.
E quase nada de prático se criou desde então,
seja por parte da iniciativa privada ou dos dirigentes.
A rigor, isso é até compreensível. Afinal, a Confederação
Brasileira nunca teve um projeto guardado na gaveta,
por falta de confiança ou de visão ou dos dois.
Mas três anos deveriam ser suficientes para acordar
essa gente.
Em
termos de estrutura, o tênis brasileiro entra
no século 21 praticamente na estaca zero. A geração
pós-Guga continua a contar apenas com seu próprio
desejo de repetir as façanhas do mestre. O 100
do mundo está de bom tamanho e qualquer um que
faça mais do que isso já merece uma medalha da
Confederação. Será que ao menos isso eles têm
para dar?
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José Nilton Dalcim,
paulista de 45 anos, é jornalista especializado em esporte
há 24 anos. Acompanha o circuito do tênis desde 1980.
É diretor editorial de tenisbr@sil.
Fale com José Nilton: joni1@uol.com.br
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