O Brasil e o sonho do ATP Tour
Por José Nilton Dalcim
A Associação masculina de tênis (ATP)
fechou seu calendário há alguns anos. A temporada
2001 terá 68 torneios, sendo 45 da categoria International
Series, 11 dos chamados Gold Series, mais os nove Masters
Series, os dois tradicionais Masters (simples e duplas) e
a Copa das Nações de Dusseldorf. Nada menos
que US$ 65,5 milhões serão colocados em disputa.
É curioso notar ainda que 31 diferentes países
sediam esses torneios tão valiosos e charmosos. Os
Estados Unidos realizam 14, a Alemanha faz seis, quatro acontecem
na França, três estão na Austrália,
Áustria, Grã-bretanha, Itália e Holanda.
O que chama a atenção é que países
de pouca tradição ou resultados menos expressivos
no esporte, como a China e a Índia, possuem os mesmos
dois eventos de potências como Espanha, Suécia,
Suíça e Rússia. Não fica nisso.
Marrocos, Portugal, México e Colômbia, que há
anos não possuem tenistas de relevância no ranking,
fazem seu ATP Tour.
Aí vem a pergunta mais do que óbvia: por que
o Brasil está fora dessa elite?
A resposta é histórica. O tênis brasileiro
já teve sua vez no calendário internacional,
no final da década de 80, quando chegamos a organizar
quatro ATP Tour numa mesma temporada. Era muito torneio para
pouco jogador. O evento de Itaparica, por exemplo, deu premiação
de US$ 600 mil no seu auge, o que era algo de muito respeito
na época. Mas, devido à crise econômica
e a incompetência dos promotores, fomos perdendo terreno.
Os organizadores se endividaram de tal forma principalmente
para pagar o simples prêmio dos jogadores que
não houve saída senão vender a data para
outro país para quitar a conta com a ATP, que punha
dinheiro de seu bolso. Caímos no total descrédito.
Uma vez perdida a data, ficou impossível recuperá-la.
Esta porém é apenas uma parte da verdade. Há
algumas outras coisas que pouca gente percebe. Por exemplo,
por que achar que Índia, Chile, Portugal ou Suíça
são menos importantes do que o Brasil? Por que não
tem o número 1 do mundo? Isso seria minimizar demais
um esporte tão complexo quanto o tênis.
Vejamos alguns dados muito interessantes. O calendário
indiano para começar. Você faz idéia de
quantos torneios aconteceram na Índia entre janeiro
e março deste ano? Pois foram dois challengers de US$
25 mil, três futures masculinos de US$ 10 mil, um satélite
masculino de US$ 25 mil e outro satélite feminino de
US$ 20 mil, sem falar no ATP Tour de Chennai, de US$ 375 mil.
Aliás, vale mencionar que isso não se limita
à quadra de grama, mas há eventos também
no saibro e no piso sintético. Não é
à toa que a Índia tem 25 jogadores classificados
no ranking masculino (contra 41 do Brasil) e, pasmem, 34 no
feminino (temos 21).
Mudando de continente, vamos até o Chile e descobre-se
que a Federação local tem um programa chamado
Carte (Centro de Alto Rendimento), que abriga tenistas de
12 e 14 anos. A entidade tem sede própria com alojamento
para 45 pessoas, restaurante, sete quadras de saibro e um
ginásio. Fez nove futures em 2000.
E Portugal, que tem tão poucos jogadores de expressão
no tênis profissional? Pois seu circuito interno juvenil
tem programado 361 torneios para esta temporada e classifica
nada menos que 1.300 garotos no seu ranking nacional. Num
trabalho de fôlego, a Federação local
aumentou em 50% o número de filiados e 70% a quantidade
de clubes nos últimos cinco anos.
Por fim, a minúscula Suíça tem um curso
permanente para formar e orientar técnicos e professores,
que precisam ter 16 anos, três de prática e estar
necessariamente filiado a um clube. De seus nove patrocinadores,
nada menos que cinco bancam o circuito nacional juvenil.
Enfim, são mostras de quanto o Brasil está
atrasado no trabalho de base, na formação de
gerações. Esses "pequenos" países
não possuem o número 1, mas o mérito
de pensar no praticante, no futuro e no mercado. Será
que merecemos mesmo ter um ATP Tour? A resposta, como se vê,
dá um nó na garganta.
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José Nilton Dalcim,
paulista de 45 anos, é jornalista especializado em esporte
há 24 anos. Acompanha o circuito do tênis desde 1980.
É diretor editorial de tenisbr@sil.
Fale com José Nilton: joni1@uol.com.br
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