Guga e Maria Esther fazem do Brasil uma potência
Por José Nilton Dalcim

Foto de Maria Esther Bueno com seus troféus. Crédito: Luiz DoroQuantos países conseguiram até hoje o notável feito de ter pelo menos três títulos nos três mais importantes torneios de tênis do calendário internacional? Não é preciso recorrer ao livro de história ou ao banco de dados da Federação Internacional para se ter certeza de que foram poucos, muito poucos. Na verdade, a lista inclui apenas as superpotências do tênis. Algumas multivencedoras, como Estados Unidos, Austrália, França e Inglaterra (dos velhos tempos); outras mais modernas, como a Suécia; e duas calcadas em heróis isolados, casos da Alemanha de Graf e Becker ou da República Tcheca de Lendl e Navratilova.

Pois o tricampeonato de Guga em Roland Garros, neste final de semana, colocou o Brasil neste seletíssimo grupo. Afinal, Maria Esther Bueno foi tri de Wimbledon e tetra nos Estados Unidos. Ao tênis brasileiro, falta agora apenas a conquista do Aberto australiano, onde Estherzinha aliás foi finalista em 65.

É claro que o Brasil está estruturalmente muito longe de seus companheiros de Grand Slam. Não há como se comparar o trabalho de base desenvolvido em qualquer um desses países, exceto a República Tcheca, que sofre dos mesmos problemas sócio-econômicos. Americanos, australianos, franceses, ingleses, alemães e suecos têm incentivo à prática esportiva, locais públicos para ensino do tênis, ajuda material e financeira às novas gerações, instalações etc. etc.

Guga e Maria Esther são mais que heróis, são fenômenos. Viveram épocas completamente diferentes e por isso comparações serão levianas. Se é verdade que Maria Esther viveu um tênis menos competitivo e exigente do que Guga, é fácil se imaginar as dificuldades que uma mulher brasileira sofreu para praticar esporte no final da década de 50. Quando ganhou seu primeiro título de Wimbledon, nas duplas de 58, Estherzinha nunca havia visto uma quadra de grama. Viajara sozinha à Europa, com dinheiro contado e duas raquetes debaixo do braço.

Nossos dois maiores nomes tiveram origem parecida, de mera classe média, precisando de favores e sacrifícios para vingar nas quadras. Fizeram tudo por conta própria, onde economizar conforto e trabalhar dobrado sempre foi a palavra de ordem. O sucesso foi o resultado de esforço e extraordinário talento.

O tênis, esse esporte tão elitizado no Brasil, conseguiu um feito extraordinário. Deu ao país o maior atleta em atividade dos últimos três anos, algo espetacular quando se vive na terra do milionário futebol. Guga já está no pedestal das estrelas máximas, com lugar reservado ao lado de Pelé, Ayrton Senna ou Adhemar Ferreira da Silva. O que não devemos esquecer é que o tênis nacional também formou a maior atleta brasileira da história. Ninguém, no nosso desamparado esporte feminino, tem tantas glórias. Maria Esther foi a única a ser designada como a melhor do mundo - encerrou as temporadas de 59, 60 e 64 como número 1 - e até hoje está na lista das mais conceituadas jogadoras de todos os tempos.

 

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José Nilton Dalcim, paulista de 45 anos, é jornalista especializado em esporte há 24 anos. Acompanha o circuito do tênis desde 1980. É diretor editorial de tenisbr@sil.


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