Esta Masters Cup era nossa, lembram-se?
Por José Nilton Dalcim

André SáTodos os ingressos se esgotaram rapidamente, filas fenomenais se formaram à entrada do ginásio, especialmente erguido para este evento. A TV aberta se empolgou tanto que resolveu comprar os direitos e transmitir os principais jogos ao vivo. Há uma centena de jornalistas credenciados e os treinos de cada uma das oito feras, que estão na cidade há alguns dias, se transformaram no programa mais concorrido da última semana.

Muito disto está acontecendo em Sydney, Austrália, país que tem o tênis como o esporte mais popular do momento. Mas o cenário imaginado no parágrafo acima era São Paulo, esta agitada e complicada metrópole de terceiro mundo, que há pouco mais de um ano perdeu o direito de organizar a segunda edição da Masters Cup.

No dia em que a João Lagos Sports abriu mão da sede paulistana, direito que havia adquirido junto à ATP, Gustavo Kuerten ainda não era o número 1 do mundo. Certamente, todos os personagens envolvidos nessa negociação frustrada e mal-explicada sequer imaginaram que ele seria o campeão de Lisboa e o melhor tenista da atualidade. Muito menos apostaram que Guga estaria hoje a um passo de repetir uma façanha reservada aos gênios da raquete.

É difícil até prever o que estaria acontecendo neste momento ao esporte e ao tênis brasileiros se a Masters Cup estivesse a um passo de começar num ginásio montado na Cidade Universitária, para uma platéia de 10 mil pessoas, e cobertura nacional e internacional da mídia. Duelos espetaculares recheariam um campeonato tão emocionante e espetacular como a Copa do Mundo de 50 ou os tempos inesquecíveis de Ayrton Senna em Interlagos.

Exagero? Talvez. Jamais saberemos. Pior é ter a convicção de que Guga teria ainda dificuldade menor de estar defendendo seu título e sua liderança no piso de saibro, onde nenhum Hewitt ou qualquer Agassi assusta. Seria quase natural que ele levantasse o troféu no próximo domingo.

De nada adianta lamentar. Ganância, falta de visão, pouco jogo de cintura foram ingredientes que nos tiraram a Masters Cup. O português João Lagos, acostumado a ótimo relacionamento com o poder, tropeçou na terra de Cabral ao escolher o caminho errado para concretizar seu projeto em São Paulo. Buscou ajuda onde não era aconselhável, não fez as parcerias necessárias e naufragou.

O fato é que o tênis brasileiro perdeu mais uma excepcional oportunidade. O já motivado mercado nacional teria um empurrão definitivo com a disputa de um campeonato dessa magnitude e da muito provável permanência de Guga como número 1, ao lado da torcida, fazendo as pazes com a imprensa.

Isso me faz lembrar de um caso contado pelo vice-presidente técnico da CBT, Carlos Alberto Martelotte. Segundo ele, o então presidente da entidade, Paulo da Silva Costa, "vendeu" a sede da final interzonal da Copa Davis de 66 para nossos adversários, a Índia. O vencedor jogaria a final da competição contra a Austrália. Com o dinheiro que obteve, Costa comprou a sede da CBT no Rio de Janeiro. Perdemos para os indianos sobre a grama, por 3 a 2, no último set do último jogo. O que teria acontecido no saibro de Porto Alegre? Jamais saberemos.

Que bom seria se nossos governantes, dirigentes, promotores e boa parte dos empresários tivessem a metade da competência e da vergonha na cara que Guga possui numa quadra de tênis.

 

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José Nilton Dalcim, paulista de 45 anos, é jornalista especializado em esporte há 24 anos. Acompanha o circuito do tênis desde 1980. É diretor editorial de tenisbr@sil.


Fale com José Nilton: joni1@uol.com.br