O primo pobre
Por José Nilton Dalcim
O
Nacional da Austrália, como quase tudo o que aconteceu
na grande ilha até bem pouco tempo, foi uma idéia
e uma imposição inglesas. O tênis, surgido
na terra de Shakespeare antes da virada do século 20,
era tão exclusivo dos súditos mais nobres da
rainha como aquela maluca mão de direção
em que se vai pela esquerda e se volta pela direita. Parte
integrante da Comunidade Britânica, a Austrália
recebeu, com o devido atraso e duvidosa gentileza, praticamente
tudo o que se inventou no Reino Unido.
A quadra de grama abrigou o campeonato australiano em 1905,
vinte anos antes de Roland Garros admitir estrangeiros e se
tornar a quarta perna do Grand Slam. Mas o torneio nunca teve
grande prestígio, nem nos tempos do tênis amador,
muito menos no início da era profissional, já
no final dos anos 60. Se ainda hoje é duro cruzar o
planeta num Boeing a 950 km/h para aterrissar no templo dos
cangurus e coalas, imagine então passar dias num transatlântico
pelo Pacífico nos anos 30 ou a fortuna que custou uma
passagem aérea cheia de escalas nos anos 50.
Apesar de um estrangeiro intercontinental ter ganho o torneio
logo no terceiro ano de disputa, é fácil perceber
no quadro de campeões o domínio monótono
de inexpressivos amadores australianos a somar títulos
de Grand Slam. Em plena década de 50, viu-se uma final
entre Mervyn Rose e Rex Hartwig ou outra em que Ken McGregor
derrotou Frank Sedgman. Houve um título americano de
um tal de Dick Savitt.
Mesmo quando grandes nomes melhoraram superficialmente a
imagem do torneio, fica evidente a ausência de aventureiros
europeus e americanos. Entre 55 e 65, apenas um jogador não-australiano
chegou à final, totalizando 10 decisões totalmente
caseiras. Nos quatro anos seguintes, foram mais quatro conquistas
só no masculino.
O início da era profissional, em 68, mudou pouco a
aversão dos estrangeiros pelo calor sufocante, pelas
incontáveis horas de viagem e pelo fuso desumano que
esmaga corpos e mentes. É verdade que Jimmy Connors
ganhou em 74, mas seu adversário foi o australiano
Phil Dent. Aliás, o último jogador da casa a
vencer diante de sua torcida foi, acreditem, Mark Edmondson,
em 76, num jogo em que derrotou o veterano John Newcombe.
O argentino Guillermo Vilas cometeu a impensável façanha
de ganhar dois títulos em plena grama de Kooyong Park,
graças certamente ao notável currículo
dos vices John Marks (alguém já ouviu falar?)
e do inexpressivo John Sadri.
A federação australiana precisou investir muito
e trabalhar duro nos bastidores para o Aberto não perder
seu status de Grand Slam. No início dos anos 80, promotores
respeitáveis tentaram a todo custo convencer a Associação
masculina e a Federação Internacional do fracasso
técnico e financeiro do torneio australiano. Ele sempre
pagara os piores prêmios entre os quatro grandes, muitas
vezes menos da metade do que forneciam Wimbledon ou US Open.
Sem qualquer pena, a FIT mudou a seu bel prazer as datas
e a forma de disputa do Aberto: a partir de 76, ele passou
a fechar a temporada (por isso existem dois campeões
naquele ano), mas isso só piorou as coisas. Com ranking
e vagas para o Masters decididos, cansadas da longa temporada,
as estrelas evitavam ainda mais a longíqua Austrália.
A custa de muito conversa e um caminhão de dólares,
a federação conseguiu trazer alguns dos melhores
do ranking a partir de 83. O sucesso de público e a
presença de grandes patrocinadores começaram
a mudar a imagem. Apenas dois anos depois, a federação
australiana enfim conseguiu reverter o quadro e, com a inauguração
de Flinders Park, recuperou a tradição de realizar
o torneio em janeiro (assim, não houve evento em 86)
e se desfez de outro problema, as irregulares e odiadas quadras
de grama, trocadas agora por um inteligente piso emborrachado,
nem rápido, nem lento. Um estádio com inédita
cobertura retrátil liquidou, por fim, o fantasma do
imprevisível clima da Nova Gales do Sul. Deixou de
ser uma cópia amarelada de Wimbledon. Nasceu um novo
torneio.
O Aberto australiano tem agora outro prestígio, mas
continua sendo o primo pobre dos Grand Slam. Sua realização
logo na terceira semana de temporada é um pesadelo
e só mesmo a força da premiação
crescente e especialmente a imposição do novo
ranking criado pela ATP e copiado pela Associação
feminina impedem que a maioria das estrelas estique suas férias.
Durante 14 dias, vão se ouvir críticas ao sol
impiedoso que provoca tantos abandonos, à chuva inesperada
que quebra o ritmo e muda a história de vários
jogos. O calendário vai ser atacado pelos derrotados,
o fuso horário será a desculpa adequada dos
maus perdedores. Provavelmente, os finalistas surgirão
menos pelo talento do que pelo preparo físico. Nada
que os US$ 500 mil, dados igualmente ao campeão e à
vencedora ao exemplo do US Open, não possa resolver.
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José Nilton Dalcim,
paulista de 45 anos, é jornalista especializado em esporte
há 24 anos. Acompanha o circuito do tênis desde 1980.
É diretor editorial de tenisbr@sil.
Fale com José Nilton: joni1@uol.com.br
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