O primo pobre
Por José Nilton Dalcim

O novo complexo surgiu em 87O Nacional da Austrália, como quase tudo o que aconteceu na grande ilha até bem pouco tempo, foi uma idéia e uma imposição inglesas. O tênis, surgido na terra de Shakespeare antes da virada do século 20, era tão exclusivo dos súditos mais nobres da rainha como aquela maluca mão de direção em que se vai pela esquerda e se volta pela direita. Parte integrante da Comunidade Britânica, a Austrália recebeu, com o devido atraso e duvidosa gentileza, praticamente tudo o que se inventou no Reino Unido.

A quadra de grama abrigou o campeonato australiano em 1905, vinte anos antes de Roland Garros admitir estrangeiros e se tornar a quarta perna do Grand Slam. Mas o torneio nunca teve grande prestígio, nem nos tempos do tênis amador, muito menos no início da era profissional, já no final dos anos 60. Se ainda hoje é duro cruzar o planeta num Boeing a 950 km/h para aterrissar no templo dos cangurus e coalas, imagine então passar dias num transatlântico pelo Pacífico nos anos 30 ou a fortuna que custou uma passagem aérea cheia de escalas nos anos 50.

Apesar de um estrangeiro intercontinental ter ganho o torneio logo no terceiro ano de disputa, é fácil perceber no quadro de campeões o domínio monótono de inexpressivos amadores australianos a somar títulos de Grand Slam. Em plena década de 50, viu-se uma final entre Mervyn Rose e Rex Hartwig ou outra em que Ken McGregor derrotou Frank Sedgman. Houve um título americano de um tal de Dick Savitt.

Mesmo quando grandes nomes melhoraram superficialmente a imagem do torneio, fica evidente a ausência de aventureiros europeus e americanos. Entre 55 e 65, apenas um jogador não-australiano chegou à final, totalizando 10 decisões totalmente caseiras. Nos quatro anos seguintes, foram mais quatro conquistas só no masculino.

O início da era profissional, em 68, mudou pouco a aversão dos estrangeiros pelo calor sufocante, pelas incontáveis horas de viagem e pelo fuso desumano que esmaga corpos e mentes. É verdade que Jimmy Connors ganhou em 74, mas seu adversário foi o australiano Phil Dent. Aliás, o último jogador da casa a vencer diante de sua torcida foi, acreditem, Mark Edmondson, em 76, num jogo em que derrotou o veterano John Newcombe. O argentino Guillermo Vilas cometeu a impensável façanha de ganhar dois títulos em plena grama de Kooyong Park, graças certamente ao notável currículo dos vices John Marks (alguém já ouviu falar?) e do inexpressivo John Sadri.

A federação australiana precisou investir muito e trabalhar duro nos bastidores para o Aberto não perder seu status de Grand Slam. No início dos anos 80, promotores respeitáveis tentaram a todo custo convencer a Associação masculina e a Federação Internacional do fracasso técnico e financeiro do torneio australiano. Ele sempre pagara os piores prêmios entre os quatro grandes, muitas vezes menos da metade do que forneciam Wimbledon ou US Open.

Sem qualquer pena, a FIT mudou a seu bel prazer as datas e a forma de disputa do Aberto: a partir de 76, ele passou a fechar a temporada (por isso existem dois campeões naquele ano), mas isso só piorou as coisas. Com ranking e vagas para o Masters decididos, cansadas da longa temporada, as estrelas evitavam ainda mais a longíqua Austrália. A custa de muito conversa e um caminhão de dólares, a federação conseguiu trazer alguns dos melhores do ranking a partir de 83. O sucesso de público e a presença de grandes patrocinadores começaram a mudar a imagem. Apenas dois anos depois, a federação australiana enfim conseguiu reverter o quadro e, com a inauguração de Flinders Park, recuperou a tradição de realizar o torneio em janeiro (assim, não houve evento em 86) e se desfez de outro problema, as irregulares e odiadas quadras de grama, trocadas agora por um inteligente piso emborrachado, nem rápido, nem lento. Um estádio com inédita cobertura retrátil liquidou, por fim, o fantasma do imprevisível clima da Nova Gales do Sul. Deixou de ser uma cópia amarelada de Wimbledon. Nasceu um novo torneio.

O Aberto australiano tem agora outro prestígio, mas continua sendo o primo pobre dos Grand Slam. Sua realização logo na terceira semana de temporada é um pesadelo e só mesmo a força da premiação crescente e especialmente a imposição do novo ranking criado pela ATP e copiado pela Associação feminina impedem que a maioria das estrelas estique suas férias.

Durante 14 dias, vão se ouvir críticas ao sol impiedoso que provoca tantos abandonos, à chuva inesperada que quebra o ritmo e muda a história de vários jogos. O calendário vai ser atacado pelos derrotados, o fuso horário será a desculpa adequada dos maus perdedores. Provavelmente, os finalistas surgirão menos pelo talento do que pelo preparo físico. Nada que os US$ 500 mil, dados igualmente ao campeão e à vencedora ao exemplo do US Open, não possa resolver.

 

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José Nilton Dalcim, paulista de 45 anos, é jornalista especializado em esporte há 24 anos. Acompanha o circuito do tênis desde 1980. É diretor editorial de tenisbr@sil.


Fale com José Nilton: joni1@uol.com.br