O tênis brasileiro começa
a trabalhar em equipe
Por José Nilton Dalcim
Uma conversa com o amigo e técnico Osvaldo Maraucci,
que tem uma longa trajetória nas quadras, principalmente
na orientação de juvenis, gerou uma surpreendente
e alegre notícia: com décadas de atraso, o tênis
brasileiro parece enfim ter colocado na cabeça que
trabalhar em equipe é mais inteligente e produtivo.
Segundo Maraucci, essa era uma antiga reivindicação
dos treinadores brasileiros e a experiência aconteceu
durante o Circuito Sul-americano desta temporada. Financiados
pela Confederação Brasileira, três profissionais
gabaritados foram designados para acompanhar o grupo de juvenis
que viajou pelas dez etapas do Circuito. Maraucci acompanhou
os 18 anos, enquanto Roberta Burzagli e Leandro Elias estiveram
junto com os garotos
e meninas de 14 e 16 anos.
"A função do chefe da delegação
é cuidar dos problemas extra-quadra do grupo, como
passagens, hotéis, além de assumir o suporte
técnico daqueles tenistas que eventualmente viajam
sem seu treinador pessoal", conta Maraucci. A experiência
não poderia ter sido melhor e ele próprio admite
sua surpresa com a colaboração e companheirismo
que norteou o trabalho ao longo de quase três meses
de intensas e desgastantes viagens. "O pessoal vestiu
a
camisa e participou. Muitos cuidaram até dos jogadores
que não eram seus", comemora Maraucci, que em
média teve a companhia de 18 jogadores e sete treinadores
em cada etapa. "Todo domingo anterior ao torneio nos
reuníamos para tratar de detalhes como horários,
estrutura do evento. Todo mundo comparecia e contribuía
com suas experiências particulares, falando sobre como
jogar na altitude ou no calor. Foi importante ter no grupo
gente
como Rodrigo Ferreiro ou Marcelo Rebelo, que foram profissionais
e tiveram carreiras ativas no juvenil".
Na quinta-feira, quando normalmente alguma parte do grupo
tinha de se deslocar para outra etapa do circuito, sempre
havia um voluntário para acompanhar os jogadores que
iam viajar. "Foi importante para os garotos, que puderam
se preocupar exclusivamente com o tênis". Esse
trabalho chamou a atenção dos organizadores
do Circuito, que passaram a mostrar o trabalho brasileiro
como exemplo. "Os jogadores também assimilaram
esse espírito de coletividade. Saíam juntos,
torciam um pelo outro. Até o aquecimento muitas vezes
era feito coletivamente pelo Ricardo Pimentel. Chegamos a
fazer reuniões só com as meninas, que puderam
falar de seus
problemas e de suas ansiedades".
Como diz Maraucci, esta experiência pode ter sido
um marco: "Acho que iniciamos um novo capítulo
no trabalho de base e o mais importante é que ele tem
o aval e a participação da CBT. Na minha opinião,
será recomendável que os chefes de delegação
sejam pessoas sem vínculo com os tenistas envolvidos
no grupo, porque isso cria maior liberdade, ninguém
se sente ameaçado. Também deve ser um cargo
unicamente técnico e nunca político".
O Conselho de Treinadores vai tentar agora convencer a CBT
de adotar o "chefe de delegação" para
as 10 semanas do giro europeu, a série de três
torneios que antecede o US Open, os Sul-americanos e os eventos
que fecham a temporada na Flórida. Os três delegados
do Cosat prometem agora finalizar um amplo relatório,
que se transformará num autêntico roteiro para
os que forem disputar o Circuito em 2003: "Iremos listar
todas as dificuldades e dúvidas mais comuns, descrever
cada lugar, a condição das quadras, falar do
clima, listar os consulados, enfim facilitar ainda mais a
agenda para que o juvenil brasileiro tenha condição
de repetir os ótimos resultados técnicos obtidos
neste ano".
Antes tarde do que nunca.
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José Nilton Dalcim,
paulista de 45 anos, é jornalista especializado em esporte
há 24 anos. Acompanha o circuito do tênis desde 1980.
É diretor editorial de tenisbr@sil.
Fale com José Nilton: joni1@uol.com.br
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