A brasiliense que ataca e voleia
Por José Nilton Dalcim

Larissa Carvalho. Foto: João Pires / fotojumpSeu jogo é surpreendente para quem se acostumou a ver as meninas brasileiras disputar um tênis de paciência, de regularidade. Ao contrário das intermináveis e infrutíferas trocas de bola, há um saque forte, golpes poderosos dos dois lados e, acreditem, voleios!

A brasiliense Larissa Carvalho, 17 anos, é a primeira impressão real de que existe uma esperança no nosso tênis feminino. Não se trata de menosprezar o esforço de outras guerreiras, como Carla Tiene e Maria Fernanda Alves, mas é evidente que Larissa pratica um tênis efetivamente moderno, capaz de recolocar o Brasil no mapa da WTA.

Em seus dois jogos pelo quali do Brasil Open, Larissa só pecou mesmo pela imaturidade. Ainda assim, não teve medo de disparar paralelas, arriscar winners de devolução, jogar dois passos dentro da quadra, subir à rede atrás de uma perfeita bola longa. É o que há de mais atual na forma de jogar das meninas que pensam um pouco mais além, que sonham com um lugar entre as 100 melhores do mundo.

Esse é exatamente o objetivo do técnico Santos Dumont Guimarães na sua teimosa luta para dar um futuro ao tênis feminino. “Para estar entre as top do ranking, não basta ter um jogo defensivo, como é a norma na América do Sul. Consegui convencer a Larissa de que é preciso ser agressiva, ir atrás dos pontos. Não é permitido ter medo”.

Por isso, ele quer evitar que sua pupila dispute muitos torneios futures (aqueles de US$ 10 mil ou US$ 15 mil) e tente a sorte nos de US$ 25 mil, nem que seja nos qualificatórios. “Os eventos menores infelizmente não têm ajudado muito. Larissa muitas vezes volta atrofiada. Além do mais, as garotas estão mais preocupadas em ir ao shopping ou à piscina, é um exemplo ruim”.

Se a filosofia está correta, a prática ainda necessita de mudanças e ajuda. Santos Dumont reconhece que, para praticar um tênis de tal risco, é fundamental ter pernas. Depois, vem o sempre escasso e custoso intercâmbio com centros evoluídos. “Neste ano, só pudemos ir uma vez à Europa e viajamos uma outra pela América do Sul”, queixa-se ele, lembrando que Larissa tem uma origem simples. O pai é dono de bar e o apoio financeiro acaba vindo da CEB. O Iate Clube ajuda nas viagens e o treinamento sai todo de graça. Dumont acredita que o custo mensal ideal beira os US$ 5 mil, que está longe de ser uma fortuna, mas não tem sido nada fácil de se obter no esporte nacional.

O outro sonho de Dumont é sensibilizar os demais treinadores para que as meninas façam uma pré-temporada conjunta. Não é segredo para ninguém a excessiva individualidade com que o tênis feminino trabalha, ao contrário dos homens, que estão muito mais unidos. Em Brasília, por exemplo, Larissa praticamente só treina com garotos, o que não é tão produtivo como se imagina porque o estilo masculino é totalmente diferente do feminino.

Como bem diz Dumont, não é possível saber se o sacrifício de se treinar nas tardes de sábado ou domingo vai ser recompensado. Mas resta a certeza de que os talentos continuam à solta e de que há sempre alguém disposto a se arriscar por um futuro melhor.

 

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José Nilton Dalcim, paulista de 45 anos, é jornalista especializado em esporte há 24 anos. Acompanha o circuito do tênis desde 1980. É diretor editorial de tenisbr@sil.


Fale com José Nilton: joni1@uol.com.br