Quem manda no tênis masculino
Por José Nilton Dalcim

O número 1 do mundo ainda é australiano, o poder econômico permanece nos Estados Unidos e o campeonato mais importante está na Inglaterra. Mas o tênis profissional, de veia anglo-saxônica, está mudando de mãos a cada semana e começa a falar com um carregado e inconfundível sotaque latino.

Espanha, país e escola de primeiro mundo, e Argentina, tradicional no tênis mas país mergulhado em crise financeira há anos, mantêm uma incômoda presença em rodadas finais de grandes campeonatos e enchem os melhores lugares do ranking masculino de nomes, cada vez mais jovens, cada vez mais ousados.

A recente final de Monte Carlo é um retrato da nova era. A Espanha tinha 13 jogadores e os dois maiores favoritos da chave, porém a Argentina ameaçou duas vezes roubar dos espanhóis a hegemonia no saibro. Juan Carlos Ferrero, sem dúvida o principal favorito a Roland Garros, levou o troféu, mas esteve a dois pontos da derrota para Gastón Gaudio, o que poderia ter levado o torneio a uma incrível final platina. Afinal, o vice Guillermo Coria atestou sua contínua ascensão em cima do poderoso Carlos Moyá.

Não por acaso, os dois países estão na semifinal da Copa Davis e vão duelar por uma vaga na decisão. Se for no saibro, agora ficou claro, não há favoritos, mesmo que a Espanha leve a vantagem da torcida. Na verdade, o desempenho na Davis é fruto direto de dois requisitos básicos do tênis atual: alternativas para escalar o time (simples, duplas, estilo de jogo) e consequente versatilidade na escolha do piso (rápido, lento, coberto), o que permite vencer fora de casa. Foi assim que a França brilhou na última década, a Espanha chegou ao título e agora a Argentina entra no rol dos candidatos.

Os números do ranking masculino desta semana são assustadores. A Argentina tem metade da quantidade de jogadores classificados (75) em relação a Estados Unidos (156) e Espanha (130), mas possui mesmo número de tenistas top 25 do que americanos e espanhóis (quatro cada um). Entre os 50 primeiros, são oito argentinos, mesmo número dos EUA e um a mais do que a própria Armada Espanhola.

Considere-se o fato de que a Argentina há muito tempo não tem dinheiro para organizar campeonatos (exceção ao ameaçado Aberto de Buenos Aires e raros futures) nem para patrocinar atletas. Seu segredo é formar jogadores com um trabalho mais organizado, menos egoísta e estilo quase nacionalizado de ensinar tênis. Difere da Espanha no aspecto calendário, já que dezenas de futures, challengers e ATPs facilitam a vida dos tenistas locais, sem falar na proximidade com outros centros avançados e a fartura de patrocinadores e centros de treinamento. Somente nas duas últimas semanas, quatro novos espanhóis entraram para o ranking masculino.

O Brasil não está mal situado nesse quadro. Com 62 nomes, é o sétimo país em quantidade de tenistas com pontos no ranking masculino, num universo de 103 nações. Mais curioso ainda, está à frente de potências como Austrália, Rússia e Suécia neste quesito. Fica evidente, no entanto, que a qualidade ainda é baixa. Temos apenas um top 50 (Gustavo Kuerten) e outros dois no final da lista dos 100 (Flávio Saretta e André Sá).

Realizar torneios dentro de casa, como faz a Espanha. é um dos fatores que permitem o crescimento do número de nomes no ranking. O Brasil viveu duas temporadas com bons torneios de base (futures e challengers), mas o calendário encurtou em 2003 e esse número tende a cair perigosamente. É importante observar que esse mecanismo muitas vezes dá uma idéia de falso poderio. A Itália, com seus inúmeros campeonatos, possui 89 ranqueados e apenas dois top 100 e a Índia, num exemplo extremo, rainha dos futures, chega a 26 jogadores, cujo melhor nome é mero 336º do mundo.

Confira e compare a força do tênis atual:

Jogadores no ranking
Top 20
Top 50
Top 100
Estados Unidos - 156
Espanha - 130
França - 108
Alemanha - 106
Itália - 89
Argentina - 75
Brasil - 62
República Tcheca - 59
Austrália - 55
Rússia - 53
Áustria - 40
Suécia - 39
Grã-Bretanha - 39

Espanha - 4
Argentina - 3
Estados Unidos - 2

Argentina - 8
Estados Unidos - 8
Espanha - 7
Espanha - 13
Estados Unidos - 11
França - 9
Argentina - 9

 

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José Nilton Dalcim, paulista de 45 anos, é jornalista especializado em esporte há 24 anos. Acompanha o circuito do tênis desde 1980. É diretor editorial de tenisbr@sil.


Fale com José Nilton: joni1@uol.com.br