Os dez casos mais extraordinários do tênis
Por José Nilton Dalcim

Vasculhar a internet é um passatempo incrível e, por vezes, encontra-se coisas valiosas por absoluto mero acaso. Foi o caso de um artigo, escrito no ano passado pelo jornalista Jon Henderson para o jornal inglês "The Observer". Ele listou os dez casos mais "extraordinários" do tênis e, independente de concordar com isso, o artigo em si já traz um panorama histórico imperdível. Vamos aos fatos, na exata ordem em que Henderson os classificou:

JOÃO OU MARIA?
US Open de 77, primeira rodada do torneio feminino. Entra em quadra uma tenista desconhecida, de nome Reneé Richards. O que poucos sabiam é que, 17 anos antes, a tenista havia disputado a chave masculina. Richards, que se submeteu a uma cirurgia de mudança de sexo quando era o respeitável oftalmologista Richard Raskind, em 75, precisou de uma ação na Suprema Corte de Nova York para garantir seu direito de disputar o US Open. A única coisa que não mudou foi o resultado: como em 1960, derrota na primeira rodada.
Minha observação: a incrível história de Reneé Richards, que foi treinadora de Martina Navratilova nos anos 80, está registrada no bom filme "Jogo Perigoso" (Second Serve), estrelado por Vanessa Redgrave. Vale conferir.

BRIGA DE MULHER
O norte-americano Jeff Tarango sempre foi um criador de casos no circuito, mas em Wimbledon de 95 ele extrapolou todas as expectativas. Na partida diante de Alexander Mronz. Na discussão sobre um saque, Tarango mandou o público calar a boca. Advertido pelo árbitro Bruno Rebeuh, causou enorme confusão e abandonou a quadra depois de um "Você é o juiz mais corrupto do circuito". Quando Rebeuh se dirigiu ao vestiário, encontrou a esposa de Tarango, Benedicte, que o esbofeteou. "Se Jeff tivesse feito isso, seria expulso do tênis, então eu bati no juiz em seu lugar".

YOU CANNOT BE SERIOUS
Certamente, o maior criador de confusões do tênis foi o norte-americano John McEnroe, que proferiu a inesquecível frase "you cannot be serious" em Wimbledon. O ápice de seu destempero aconteceu no Aberto da Austrália de 90, quando ele enfrentava o sueco Mikael Pernfors. Big Mac já havia sido advertido por discutir com uma juíza de linha e em seguida por arremessar a raquete. Achava que ainda podia cometer mais um desatino - que custaria a perda de um game -, mas na verdade já estava no limite da eliminação total. Aí escapou um "Just go fuck your mother" (melhor nem traduzir) para o árbitro de cadeira Gerry Armstroung, que anunciou então o fim do jogo. McEnroe nem discutiu: "Não estou surpreso, um dia iria acontecer".
Minha observação: McEnroe recebeu sua maior punição em 87, quando atingiu o limite de US$ 10 mil em multas (regulamento da época, abolido em 89) por mau comportamento e foi suspenso dois meses pela ATP.

UM POUQUINHO FORA
Um erro notável em Amelia Island de 2002 pode ter mudado a história de uma partida. Depois de cometerem 29 duplas faltas ao longo do jogo, Anne Kremer e Jennifer Hopkins acharam que havia alguma coisa estranha e então os organizadores descobriram que a quadra central havia sido construída com a área de saque 93 centímetros menor do que o correto. O culpado foi Bert Evatt, funcionário que cuida das quadras do clube há 22 anos.

ADMIRADOR QUE VIROU MARIDO
Esta aconteceu na Riviera francesa, em 1926. Uma grande legião de torcedores deixou Paris para assistir a diva Suzanne Lenglen disputar a final contra a norte-americana Helen Wills. Depois de um jogo tenso, com direito até a uma discussão sobre bola fora, Lenglen venceu e deixou a quadra carregada pelo público. Helen ficou sozinha na quadra até surgir um torcedor francês: "Você jogou muito bem", teria dito Frederick Moody. Três anos mais tarde, os dois se casaram e Helen mudou seu sobrenome para Wills-Moody, que afinal a tornou famosa.

COISAS DO CORAÇÃO
O costureiro e historiador Ted Tinling é quem contou esta passagem de Wimbledon, no ano de 1921. O sul-africano Brian Norton simplesmente não quis ganhar a partida contra o norte-americano Bill Tilden (foto ao lado). Ele venceu os dois primeiros sets, depois perdeu os dois seguintes e, no quinto, teria vencido o jogo. "Tilden já ia para a rede cumprimentar o adversário, quando Norton, para surpresa geral, informou que a bola havia sido boa e o jogo deveria continuar", narra Tinling. Segundo ele, foi um resultado decidido pela relação amorosa entre os dois jogadores.
Minha observação: Tilden, tricampeão de Wimbledon e sete vezes vencedor no Nacional norte-americano, era reconhecidamente homossexual, único caso assumido entre os jogadores mais famosos até hoje.

IMPARCIALIDADE RELATIVA
O falecido Arthur Ashe contou esta história, ocorrida em Bucareste, durante a Copa Davis de 1972, em que teria havido diversos problemas com a arbitragem. Segundo ele, o jogo mais incrível foi entre Stan Smith e o ídolo local Ion Tiriac. Quando obtinha um ace, Smith geralmente era surpreendido com um "foot fault", enquanto Tiriac dirigia a torcida para fazer barulho durante os momentos decisivos do jogo. O lance mais incrível, no entanto, aconteceu quando Tiriac sofreu cãimbras já no quinto set. Ele foi massageado por um dos juízes de linha.

SEXY DEMAIS
Seu nome era White e, como manda o figurino em Wimbledon, foi para a quadra totalmente de branco. Mas, segundo os organizadores do torneio de 1985, Anne White exagerou um pouquinho.

Para delírio do público e dos fotógrafos, a norte-americana entrou para o jogo diante de Pam Shriver num traje inédito, sensualmente colado à pele, do calcanhar até o pulso, enaltecendo suas formas. Repreendida pela ousadia, Anne completou a partida - que foi suspensa pela chuva no terceiro set - num traje mais tradicional.

A GUERRA DOS SEXOS
Defensora dos direitos femininos, Billie Jean King ficou chateada quando viu Margaret Court, então 30 anos, perder para o ex-campeão de Wimbledon e do US Open Bobby Riggs, então com 55 anos, num duelo amistoso. King pediu revanche e proclamou a "Batalha dos Sexos". No dia 20 de setembro de 73, o ginásio Astrodome, em Houston, recebeu 30.472 pessoas e o jogo foi transmitido ao vivo para outras 48 milhões nos Estados Unidos. Billie Jean venceu por 6/4, 6/3 e 6/3 e se tornou o símbolo da luta contra o machismo no esporte.
Minha observação: Mesmo 30 anos depois, este continua sendo o maior público do tênis para uma única partida em todos os tempos, o que mostra o nível de projeção que Billie Jean conseguiu para as mulheres. Riggs faleceu em 95.

ALGUÉM QUER SORVETE?
Esta só poderia acontecer mesmo em Roma, onde o tênis não é levado tão a sério como em Wimbledon. O britânico Tony Pickard é quem conta a situação, vivida durante a partida contra o neozelandês Ian Crookenden. "Era um ponto vital. Ele sacou e a bola saiu muito. O árbitro se virou então para o juiz de linha e percebeu que ele estava virado de costas, comprando um sorvete de um vendedor ambulante". Crookenden ganhou assim o ponto e o jogo.

O QUE FALTOU
A lista certamente poderia ser acrescida de alguns outros fatos notáveis, como a cena da final de 99 de Roland Garros, quando Martina Hingis foi conduzida de volta à quadra por sua mãe, aos prantos. Ou pela inesperada decisão do diretor de torneio do US Open de 79, que desconsiderou a desqualificação de Ilie Nastase pelo juiz de cadeira e fez o romeno voltar à quadra para terminar o jogo contra John McEnroe.

Do lado trágico, há certamente a facada que Monica Seles levou de um fã de Steffi Graf em Hamburgo, durante o torneio de 93, e a final de US Open de 81, em que o sueco Bjorn Borg jogou contra McEnroe sobre ameaça de morte, feita por supostos terroristas.

 

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José Nilton Dalcim, paulista de 45 anos, é jornalista especializado em esporte há 24 anos. Acompanha o circuito do tênis desde 1980. É diretor editorial de tenisbr@sil.


Fale com José Nilton: joni1@uol.com.br