O adeus de Guga, Saretta e Meligeni
Por José Nilton Dalcim
A semana do tênis brasileiro não poderia
ter começado de forma mais triste. Dentro e fora das
quadras, perdemos qualidade, esperança e bons exemplos.
Gustavo Kuerten acaba de se despedir, de forma indubitavelmente
dolorosa, de seu torneio predileto, aquele Roland Garros que
aprendemos a esperar de forma tão ansiosa nos últimos
cinco anos. Antes dele, Flávio Saretta deu um provável
"até breve" ao saibro francês, mas
poderia ter evitado o jeito imaturo e desajeitado com que
brigou com o treinador, aos melhores moldes do bom e velho
futebol. Por fim, Fernando Meligeni, de tantas alegrias, prepara
o discurso que vai encerrar a terceira mais bem sucedida carreira
profissional que os brasileiros já tiveram.
Guga, precisamos encarar o fato, não é mais
o dono do saibro, menos por sua culpa, mais pelo crescimento
técnico e esplendor físico de seus adversários.
Ele, que nunca teve um deslocamento exemplar pela quadra,
está mais lento depois da cirurgia e isso o prejudica
principalmente no outrora amado piso lento. Seus oponentes
descobriram isso já faz algum tempo. Diante da agilidade
felina de espanhóis e argentinos - Juan Carlos Ferrero
e Guillermo Coria são o ápice disso - ele precisa
cada vez mais compensar essa diferença com a força
dos golpes e a profundidade da bola, o que significa risco
constante. Num momento em que sua confiança está
instável, o poderoso saque falha, a maravilhosa esquerda
fica na rede e o voleio sobe. As derrotas parecem inevitáveis.
Qual a saída? Guga e Larri Passos têm de rever
alguns pontos da estratégia habitual para neutralizar
esses pontos mais negativos, porque cada vez mais os adversários
estão vencendo o catarinense na base da deixadinha,
o que vem desde Radek Stepanek e incluiu até o veterano
Wayne Ferreira. Todo mundo que joga tênis sabe que confiança
não é algo que se compra na farmácia
nem se adquire no treino. Só mesmo boas vitórias
recuperam a autoestima. Ninguém duvida da capacidade
técnica, resistência mental e da força
de vontade de Kuerten. Assim, resta ter um pouco mais de paciência
e torcida.
Saretta foi a melhor notícia de Roland Garros. Encerrou
definitivamente a discussão sobre seu futuro, mostrando
que pode encarar alguns dos melhores jogadores do mundo sem
ser a eterna zebra. Fez um jogo magnífico contra o
russo Yevgeny Kafelnikov e sentiu o quanto ainda precisa trabalhar
o saque e a profundidade dos golpes diante do ídolo
Andre Agassi. O lado negativo foi o mau exemplo dado na forma
pouco respeitosa com que se encerrou o relacionamento - certamente
já desgastado e conflitante - com o técnico
João Zwetsch. A conduta não parece ter tido
o tom profissional que se espera de um potencial top 50, que
possui uma ampla equipe para cuidar de seus problemas fora
da quadra.
Bom exemplo tem sido Fininho. O "Meli-génue"
que os franceses batizaram em 99 antecipou, para nosso azar,
o final de sua longa carreira. Mesmo caindo para além
do 100º posto do ranking, seu jogo ainda possui virtudes
suficientes para mantê-lo no grupo de elite e assim
participar de eventos do porte de um ATP. É compreensível
que sua motivação não seja mais a mesma,
depois de 14 anos de circuito profissional e outros oito de
campeonatos juvenis, sem falar das incontáveis horas
de treino e viagens. Se Meligeni realmente mantiver a decisão
de pendurar a raquete, será mais do que compreensível.
Número 1 do mundo juvenil; semifinalista de Roland
Garros, da Copa Davis e dos Jogos Olímpicos; diversas
vitórias sobre os 10 melhores do mundo e o respeitável
ranking de 25º do mundo permitiram que ele seja um ídolo.
Seu papel está mais do que cumprido.
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José Nilton Dalcim,
paulista de 45 anos, é jornalista especializado em esporte
há 24 anos. Acompanha o circuito do tênis desde 1980.
É diretor editorial de tenisbr@sil.
Fale com José Nilton: joni1@uol.com.br
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