Um resultado para salvar o tênis
Por José Nilton Dalcim

Não importa para quem você torça ou de quem goste, o importante é comemorar. A decisão do US Open caiu como uma luva para o tênis internacional. De um lado, o espanhol Juan Carlos Ferrero, carinha de bom menino, fez o bastante para se tornar o novo número 1 do mundo e encerrar um incômodo, ainda que justo, reinado de um jogador de 33 anos. De outro, o garotão norte-americano Andy Roddick, com ar de arrogante, cumpriu seu destino justamente num momento crítico que o tênis atravessa nos Estados Unidos.

Ferrero pode não ser necessariamente um dos tenistas mais carismáticos do circuito, mas seu excelente jogo já vinha fazendo jus ao cargo de melhor do mundo. Primeiro, garantiu a coroa de “rei do saibro” com um domínio incontestável e agora provou sua capacidade também sobre o piso duro. O espanhol, de 21 anos, é o exemplo perfeito do tênis moderno: bom saque, golpes sólidos dos dois lados que permitem muitas vezes a definição do ponto na rede e um incrível trabalho de pernas.

Roddick não fica devendo em nada. Apesar do bombástico saque a mais de 200 km/h, está longe de ser um tenista limitado. É capaz de enfrentar qualquer um no fundo de quadra - e isso ficou claro na histórica virada sobre David Nalbandian nas semifinais - e tem agilidade quase felina para seu 1,87m. Aliás, que fique registrado, Nalbandian é seríssimo candidato a entrar para o rol dos primeiros colocados.

Neste momento, não é difícil imaginar Roddick como novo líder do ranking, ainda mais se considerarmos a pequena distância para Ferrero e o fato de que o final de temporada será praticamente todo sobre piso muito veloz. Mas o que importa mesmo na ascensão meteórica de Roddick é a necessidade de o tênis voltar a chamar atenção nos Estados Unidos, o lugar que representa pelo menos 70% de todo o dinheiro que circula direta ou indiretamente nas quadras de todo o mundo.

O interesse pelo tênis por lá tem caído a passos largos. A Tennis Industry Associaton (TIA) contabiliza perdas anuais constantes nas vendas e credita parte desse retrocesso ao alto custo do material esportivo. A tendência atual do mercado é produzir raquetes mais baratas. A isso acrescenta-se a falta de ídolos para a nova geração - Agassi e Sampras têm mais de 30 anos - e a concorrência acirrada com outras modalidades em franca ascensão, como o golfe, cujo praticante tem perfil muito parecido.

Há seis anos, a TIA tem gastado mais de US$ 100 milhões por temporada em publicidade e em programas de popularização. O Smash Tennis chegou a 20 cidades e 55 mil crianças no ano passado, enquanto o Play Tennis arregimentou professores para dar aulas gratuitas por todo o país. Nem assim a queda foi interrompida. Estimativa de um alto executivo da Babolat francesa diz que um tenista em transição para o profissional, mesmo nos Estados Unidos, precisa gastar pelo menos US$ 150 mil em três anos para sonhar com seu lugar ao sol.

Assim, Roddick representa a volta ao Eldorado. Sua natureza rude do meio-oeste americano - é natural de Nebraska - e o jeito entre rebelde e ousado representam um perfil ideal para conquistar crianças e adolescentes, algo que as irmãs Williams estão longe de possuir. A partir de hoje, os americanos contam com um ingrediente a mais na árdua luta por manter o tênis em evidência. E o resto do mundo tem de torcer muito para isso.

 

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José Nilton Dalcim, paulista de 45 anos, é jornalista especializado em esporte há 24 anos. Acompanha o circuito do tênis desde 1980. É diretor editorial de tenisbr@sil.


Fale com José Nilton: joni1@uol.com.br