Não precisa exagerar
Por José Nilton Dalcim
Guga
é uma paixão. Carismático, guerreiro,
excepcional jogador de tênis, atrai a simpatia de multidões
em qualquer lugar que passe, seja na fria Alemanha, na requintada
França ou na vizinha Argentina. É quase natural
torcer para ele.
Sua conturbada trajetória dos últimos dois
anos certamente reforçou o desejo nacional de vê-lo
novamente com a taça na mão. A delicada cirurgia,
o retorno em tempo recorde e a volta por cima com títulos
importantes ainda em 2002 aumentaram o carinho que o brasileiro,
fanático por tênis ou não, dedica a Guga,
que se tornou também exemplo de determinação.
Quem acompanha e analisa seus resultados mais recentes sofre
a angústia de ver que ele ainda não recuperou
o nível técnico e a soberania do número
1 do mundo de 2000. Atuações irregulares e derrotas
precoces incomodam aqueles que sabem do enorme potencial de
seu tênis. Guga passa ainda por momentos psicologicamente
instáveis na quadra, mesmo com a vitória nas
mãos.
Tudo isso deve ser colocado na balança quando se avalia
o comportamento quase vergonhoso de boa parte do público
que esteve na Costa do Sauípe durante a semana passada.
Talvez só mesmo o desespero de salvar Guga de situações
críticas e da derrota iminente possa explicar o festival
de atitudes mal-educadas e pouco esportivas que se viu de
torcedores teoricamente selecionados e acostumados ao tênis.
Foi triste acompanhar pais e mães dando um selvagem
exemplo de mau comportamento a seus filhos, que obviamente
não perderam tempo em se levantar da cadeira e despejar
insultos sobre os adversários. E não pensem
que foram apenas os argentinos que sofreram com tal ira desmedida:
o espanhol Oscar Hernandez, que ameaçou despachar Guga
na primeira rodada, era vítima de agressões
verbais e de gestos acintosos e truculentos a cada virada
de game por um grupo sentado imediatamente atrás de
sua cadeira.
O espanhol Benito Perez-Barbadillo, que trabalha junto à
ATP na área de comunicação, não
relutou em classificar o que viu como "a pior torcida
do mundo". Todos sabem do sangue latino que ferve nas
veias espanholas, chilenas, argentinas, italianas, mas este
Brasil Open fez a Copa Davis parecer divertida. E olhe que
a maciça maioria dos assistentes era de convidados
da organização ou pagou um preço alto
pelo ingresso.
O sentimento de indignação era generalizado
entre os jogadores argentinos, que viram a coisa ficar feia
já na partida contra Franco Squillari e se estender
depois para Jose Acasuso e Agustín Calleri. "O
Guga é um ídolo na Argentina, o que fizeram
conosco foi vergonhoso", queixava-se Calleri, com razão.
Afinal, o sentimento bélico que os brasileiros nutrem
pelo país vizinho não é recíproco,
muito menos no tênis. Infelizmente, essa cultura do
futebol foi passada aos demais esportes, literalmente de pai
para filho.
Não há dúvida que a torcida ajudou Guga
a erguer o bicampeonato do Brasil Open. Fez seu papel quando
gritou seu nome, agitou bandeira, fez coro, brincou de "ola".
Forçou a barra ao tentar atrapalhar o saque adversário
e foi indelicada ao aplaudir erros não-forçados.
Mas até aí tudo bem, não se pode mesmo
querer mais que o público do tênis tenha a enervante
fleuma suíça. Mas insultar um tenista profissional
com palavrões e fazer ameaças ultrapassam o
limite do bom senso e cai naquele estigma nacional de que
vale tudo, é preciso vencer a qualquer custo, tem de
se levar vantagem em tudo, certo? Errado. O esporte precisa
ser um instrumento de sociabilidade e de educação.
Em termos promocionais, o Brasil Open também pode
sair perdendo, logo agora que conseguiu mudar a data e se
encaixar num Circuito Latino-americano que tem tudo para crescer.
O assunto certamente chegará à cúpula
da ATP e vai ser comentado nos bastidores dos outros torneios
entre os jogadores, o que pode provocar uma debandada para
outras praias. É bom lembrar que o calendário
permite boas alternativas.
Como apregoaram os magoados argentinos, com certa propriedade,
o Brasil Open é feito para Guga. É mesmo. A
gente só não precisa exagerar.
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José Nilton Dalcim,
paulista de 45 anos, é jornalista especializado em esporte
há 24 anos. Acompanha o circuito do tênis desde 1980.
É diretor editorial de tenisbr@sil.
Fale com José Nilton: joni1@uol.com.br
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