Antes tarde do que nunca
Por José Nilton Dalcim

Foto: João PiresNão se pode ficar feliz com a decisão de Gustavo Kuerten de abandonar a equipe brasileira da Copa Davis. Em primeiro lugar, porque ele sempre foi pelo menos 70% do time, tanto no aspecto técnico como no moral. Em segundo, porque sem Guga é de se presumir que o Brasil, qualquer que sejam os convocados, terá dificuldades reais para derrotar o Paraguai mesmo no saibro e, pior ainda, de conseguir seu retorno ao grupo mundial na repescagem de setembro.

O único ponto positivo é que, enfim, deixou-se de se sussurrar nos bastidores e alguém decidiu tomar uma posição concreta. Há muito se espera de Guga uma postura mais firme em relação aos desmandos do tênis brasileiro. Como ele mesmo disse, com razão, seu primeiro título em Roland Garros está para comemorar sete aniversários e o número 1 do mundo, outros quatro, sem que nada efetivamente tenha sido feito pela Confederação para que o tênis embarcasse numa nova era.

É lamentável, no entanto, que tenham sido necessários o rebaixamento para a segunda divisão e o pretexto da troca de capitão do time para que vozes se levantassem. Vozes, vamos deixar claro, que têm estado escondidas invariavelmente no "off the records" (jargão jornalístico para informação prestada por fonte que não se identifica) e na maioria das vezes trabalhando em benefício próprio, aliás um dos cânceres do tênis nacional.

Este mesmo grupo, que hoje se indigna com as atitudes arbitrárias da Confederação, aceitou um acordo com Nastás para desmentir que a tal reunião do Canadá tivesse acontecido no ano passado, conforme informou esta coluna pouco depois. Hoje enfim se verifica que o encontro motivou, entre outras coisas, a demissão de Ricardo Acioly.

Esse conveniente silêncio tem sido o pecado dos jogadores. Que a Confederação está estagnada, todo mundo sabe. Ou algum pai de tenista tem dúvida de que a realidade nacional não mudou na última década? Se a contabilidade da CBT é um mistério, os presidentes das federações regionais deveriam ser severamente questionados. Eles aprovam as contas, ano após ano, em Assembléias que mais parecem festas.

O grupo de oposição pergunta de onde vem o dinheiro que sustenta a vida pessoal do presidente Nélson Nastás, insinuando desvio de verba, mas será que isso só veio à cabeça deles em 2003? Onde estiveram estes senhores desde que Nastás assumiu o cargo, dez anos atrás, ou antes dele tantos outros com passado considerado duvidoso?

A presidência da CBT deveria mesmo ser um cargo remunerado, para que não pairassem dúvidas sobre suas intenções ou, mais importante ainda, o dirigente pudesse ser cobrado por má administração e destituído pelo bem do esporte. A impressão que fica é que, encerrada a "Era Nastás", será iniciada uma outra, sem que mudem os conceitos básicos da administração esportiva e se impeça que balanços imprecisos reguem aqueles banquetes de fim de ano.

Mas, como diz o ditado, antes tarde do que nunca. A decisão de Guga de boicotar a Davis, a insistência da oposição em checar a contabilidade da CBT, os ex-profissionais que continuam a trabalhar incansavelmente no vão da porta resgatam um pouco da nossa dignidade. O basta, pelo menos para mais esta desastrada gestão da CBT, está muito perto.

 

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José Nilton Dalcim, paulista de 45 anos, é jornalista especializado em esporte há 24 anos. Acompanha o circuito do tênis desde 1980. É diretor editorial de tenisbr@sil.


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