A derrota de todos nós
Por José Nilton Dalcim
Perdemos.
E perdemos feio. Não do Paraguai, mas da nossa própria
incompetência, da absoluta falta de visão. A
derrota na Costa do Sauípe não tem nada a ver
com os quatro jogos que determinaram a vergonha de um país,
pretensa potência esportiva, ter agora de lutar para
ao menos permanecer na segunda divisão da Copa Davis.
Tem a ver sim é com a incapacidade de quem dirige o
esporte, de quem vive do esporte, de quem divulga e analisa
o esporte.
A menor culpada do desastre é a equipe, costurada
de última hora e de qualquer jeito, que já se
sabia tinha qualidade técnica duvidosa para enfrentar
o pouco expressivo Paraguai. Mas os garotos, o capitão,
o auxiliar, o fisioterapeuta foram todos heróis. Superaram
a descrença e a torcida descaradamente contra, passaram
por cima daqueles terríveis abutres que se escondem
por trás do celular, do e-mail ou do microfone, hienas
à espera do cadáver que nem se dão ao
trabalho de abater. O tênis brasileiro, acreditem, está
cheio delas.
A inabilidade política é evidente num esporte
profissional forrado de comportamentos amadores. Por isso,
a derrota também é do grupo liderado por Larri
Passos e das federações que formam a oposição,
que não souberam e não quiseram negociar. Política
é antes de tudo a equação certa entre
exigir e ceder. O radicalismo não leva a lugar algum
e basta olhar o mundo em que vivemos hoje para saber disso.
Gustavo Kuerten e Flávio Saretta não conseguiram
perceber qual era a hora de ganhar ou o que se queria efetivamente
ganhar.
O boicote foi justo até certo ponto. O que ainda precisa
ser dito é que o grupo só pareceu sentir as
dores quando a água bateu na bunda deles. Durante sete
anos de grupo mundial, ótimos prêmios na mão,
ninguém se levantou da cadeira para protestar contra
a CBT. Se o técnico Ricardo Acioly tivesse permanecido
no cargo - e ninguém fala que havia gente importante
na equipe que trabalhava por sua saída - o Brasil teria
jogado, vencido e comemorado em farta mesa a sua ida à
repescagem de setembro. Nastás continuaria atravessado
na garganta do Larri, do Guga, do Acioly, mas e daí?
O resultado deste fim de semana na Costa do Sauípe
é o retrato fiel do tênis que dez anos de desastrosa
administração na Confederação
Brasileira conseguiu produzir. Nosso time número 2
é formado por tenistas nada estreantes, alguns com
currículos extensos, que lutam como podem para sobreviver
no circuito, com patrocínio meia-boca, ganhando numa
semana para viajar na outra. Alguns sem técnico, outros
sem estrutura. É doloroso, mas perder do frágil
Paraguai em casa, no piso de saibro e com calor de 35 graus,
com menos de 500 pessoas nas arquibancadas e seis jornalistas
na imensa sala de imprensa, se torna a recompensa justa para
os últimos dias desta gestão.
Esse mesmo grupo de notáveis personalidades que correu
em socorro da Koch Tavares para arrumar um time e salvar o
que ainda restava da promoção no Sauípe;
os grandes órgãos de imprensa que têm
corrido atrás da deliciosa notícia pós-boicote
e da crise instalada; tantos ex-profissionais e técnicos
que preenchem colunas de jornais e mesas-redondas na TV; os
presidentes de federações que agora posam como
salvadores da pátria poderiam ter acordado e criado
vergonha na cara pelo menos cinco anos atrás, buscando
alternativas, exigindo soluções, tomando providências.
Agora é um tanto tarde, e cada vez parece estar ficando
mais e mais tarde.
Desculpe Marcos Daniel, Júlio Silva, Alexandre Simoni
e Josh Goffi. Obrigado pelas noites mal-dormidas Carlos Chabalgoity
e Edvaldo Oliveira, algumas das poucas pessoas decididamente
honestas e decentes no tênis nacional. A culpa deste
vexame é toda nossa.
Clique aqui para ver as colunas anteriores
 |
José Nilton Dalcim,
paulista de 45 anos, é jornalista especializado em esporte
há 24 anos. Acompanha o circuito do tênis desde 1980.
É diretor editorial de tenisbr@sil.
Fale com José Nilton: joni1@uol.com.br
|
|