Pequena ajuda aos candidatos à presidência*
Por José Nilton Dalcim

Foto: João PiresEm tempos eleitorais, é hora de parar de tanta briga e perguntar aos candidatos à presidência da Confederação Brasileira como pretendem colocar ordem na casa.

O tênis brasileiro tem problemas crônicos: é preciso urgentemente aumentar a base de praticantes, não só competitiva como social, que no fundo é quem movimenta para valer o mercado, além de dar incentivo real à aquela legião que perde a adolescência na quadra.

O tênis cresceu muito menos do que poderia na última década. A base, estimada otimistamente em 1,5 milhão de praticantes, ainda está longe de ser significativa. O universo é pequeno demais para movimentar tantas marcas e serviços. Aliás, note-se que quase ninguém fabrica no tênis nacional.

O bom jornalismo ensina que criticar sem dar soluções é pura leviandade. Então, com calculadora na mão, é possível dar sugestões práticas para o grupo que irá dirigir o esporte a partir de 15 de maio.

O balanço de 2003 da Confederação diz que houve receita bruta de R$ 5 milhões. O empresário que pensa em crescimento gradativo precisa investir, nem que seja necessário cortar despesas, e parece correto determinar 20% do faturamento para isso. São portanto R$ 1 milhão, ou seja US$ 350 mil dólares. O que dá para fazer com isso?

1. A base - A contratação de um profissional gabaritado a US$ 3 mil mensais permitiria que ele gastasse US$ 7.200 em 24 viagens pelo Brasil, onde sentaria com cada federação para dar dicas essenciais de como trabalhar o marketing, como elaborar um ranking justo, como padronizar o ensino.
Ao lado das federações, contataria prefeituras e iniciativa privada para a construção de quadras públicas e levaria em baixo do braço o "Programa de Incentivo ao Tênis nas Escolas", previamente elaborado por uma comissão.
No campo prática e imediato, pode-se "alugar" o espaço ocioso das academias para ensino gratuito. O custo seria de US$ 72 mil para 400 horas semanais, ou seja US$ 15 por hora de aula, simultaneamente em 40 academias por todo o país. As aulas seriam dadas por professores em formação, o que dá emprego e garante padrão de ensino. Marcas de raquete podem trazer equipamentos mais baratos aos iniciantes.
Um congresso nacional anual em Brasília, por três dias, custaria US$ 50 mil, verba para subvencionar 200 técnicos de todo o país. É um investimento de apenas US$ 250 por treinador.

2. Juvenil - Um "olheiro" de enorme competência ganharia US$ 48 mil anuais para ser o homem-chave do tênis nacional e consumiria mais US$ 4 mil para realizar uma viagem por mês.
O tenista de talento vai para um centro de treinamento regional (entidades particulares competentes que existem em vários pontos do Brasil) e o "olheiro" acompanharia de perto seu desenvolvimento. Quatro garotos ao custo mensal de US$ 700 são investimento de US$ 33.600.
Já os melhores juvenis podem fazer intercâmbio de três meses na América do Sul, com base permanente em Buenos Aires. Há mil acordos que podem ser feitos com a Argentina. O custo médio de US$ 1.000 por atleta permitiria levar até 10 jogadores.
Um ranking mais coerente premiará os dois líderes dos 18 anos e os dois primeiros dos 16 anos com convite em cada future realizado no país. Um convite para cada chave de challenger também é viável.

3. Semiprofissional - O caminho pode ser Portugal, onde o custo de vida é acessível, não há barreira de língua e o deslocamento para Espanha (15 futures em 2004), Itália (14), França (15) e Alemanha (12) são baratos. Seis atletas seriam subvencionados com US$ 1.000 mensais por três meses. Portugal tem um tênis extremamente bem organizado.

4. Feminino - Premiação garantida para cinco futures femininos de US$ 10 mil, terceirizando a organização.

5. Taxas e cadastramento - Seria feito um estudo para determinar a imediata redução de todas as taxas pagas pelos tenistas amadores, em nível regional e nacional. Ao mesmo tempo, seria feito o cadastramento global dos tenistas. Todos ganhariam automaticamente uma carteira de identificação, que lhe daria regalias junto a um grupo de empresas e serviços pré-selecionados. Tudo este tem custo perto de zero.

Feitas as contas, vem o susto: ainda sobraram US$ 1.200...

Este exercício ainda não considera o óbvio: que a Confederação monte um departamento comercial decente e tenha projetos permanentes, que atrairão patrocinadores de peso e dezenas de apoiadores. Neste caso, o que foi sugerido aqui pode triplicar de tamanho e aí o tênis terá chance de recuperar o tempo perdido.

*Artigo originalmente publicado na Revista "Tênis", edição de abril.

 

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José Nilton Dalcim, paulista de 45 anos, é jornalista especializado em esporte há 24 anos. Acompanha o circuito do tênis desde 1980. É diretor editorial de tenisbr@sil.


Fale com José Nilton: joni1@uol.com.br