O rei do saibro está de volta
Por José Nilton Dalcim

O tênis é definitivamente um esporte incrível. Há quatro dias, Gustavo Kuerten lutava com forças sobrenaturais contra a lesão no quadril direito, a dois pontos de ser eliminado por um juvenil espanhol saído do quali, colocando em xeque a continuidade da própria carreira. Hoje, voltou a ser a grande estrela de Roland Garros, ao superar o melhor tenista da atualidade com uma soberania assustadora.

Golpes impecáveis, tática obediente, força e sutileza, cabeça fria, concentração absoluta. Guga mostrou um arsenal espetacular diante de um adversário acuado, desorientado, falível. Quem olhasse aquele segundo set acharia que o número 1 do mundo se vestia de preto e vermelho, como se o reencontro com a quadra central de Roland Garros trouxesse de volta a magia dos tempos em que era o dono absoluto do saibro.

Guga continua fora do rol dos favoritos, o que é excelente para ele. Afinal, ainda estão lá os argentinos Guillermo Coria e David Nalbandian, os espanhóis Carlos Moyá e Albert Costa e o russo Marat Safin. Todos no auge de sua forma física, cheios de confiança, com desempenho convincente na pré-temporada européia, que o catarinense foi obrigado a abandonar por conta da contusão. Por isso mesmo, não pode existir cobrança nem pressão. Guga só tem de curtir cada jogo e comemorar muito a vitória.

É evidente que o resultado sobre Federer remete imediatamente à lembrança do Masters de Lisboa, em 2000. Contundido logo na estréia contra Andre Agassi, ele esteve a um passo do abandono do torneio. Quarenta minutos antes da segunda partida, nem sabia se entraria na quadra para o duelo contra Magnus Norman. Foi a primeira prova de sua enorme determinação e garra, que acabaria por levá-lo a seu mais espetacular título e à liderança do ranking mundial.

Independente do que possa acontecer na segunda semana de Paris, Guga já ergueu seu troféu particular e dá um alívio para o desalentado tênis brasileiro. Desde que jogou dois sets quase numa perna só, o que seria justificativa mais do que óbvia para qualquer outro mortal colocar a mala nas costas, o tricampeão de Roland Garros respondeu à dúvida mais importante sobre seu futuro, ao mostrar que ainda está com muita vontade de brigar numa quadra de tênis para ficar entre os grandes. Federer que o diga.

 

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José Nilton Dalcim, paulista de 45 anos, é jornalista especializado em esporte há 24 anos. Acompanha o circuito do tênis desde 1980. É diretor editorial de tenisbr@sil.


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