O futuro de Guga
Por José Nilton Dalcim

Foto: João PiresGustavo Kuerten deu mais uma lição ao tênis brasileiro, ao mostrar como é possível jogar com o coração, técnica e felicidade, apesar da dor, da derrota iminente, do adversário em melhor fase. Contundido desde o primeiro game que disputou, na escondida quadra 3, ele jamais se entregou nas cinco rodadas que participou. Fora da lista dos favoritos, a exemplo do que aconteceu em 2002, sempre por conta do quadril, encheu os olhos do torcedor com muitas passagens de seu mais exuberante repertório.

Ninguém duvida das qualidades de Guga. Ele não apenas destruiu o número 1 do mundo como também fez um jogo de igual para igual com o argentino David Nalbandian, uma das feras do momento. Voltou a ter o saque como aliado, recuperou a precisão na deixadinha - arma quase esquecida no tênis profissional que ele reinventou em 97 - e principalmente abusou dos golpes profundos e pesados. Só quem já empunhou a raquete algumas vezes na vida sabe como é incrivelmente difícil disparar um tiro de esquerda, de uma só mão, numa bola que vem alta e cheia de efeito. Coisa de gênio.

Mas a dificuldade gerada pelo crescente desconforto com o quadril nos faz perguntar se Guga merece o castigo da dor para continuar nas quadras de tênis, um local onde não tem mais nada a provar. Ao brilhar em seu torneio predileto com tamanha precariedade física, fica claro que Kuerten ainda curte muito o tênis. Mas por quanto tempo vai agüentar o sacrifício?

Foi um alívio ouvir dele que duas providências urgentes serão tomadas: escolha mais apurada do calendário e redução drástica no ritmo de treinamento. Sequer passa por sua cabeça uma nova cirurgia, o que provavelmente significaria o fim da carreira. Assim a única maneira de se manter em forma é com cuidado, fisioterapia constante e menor esforço.

A lógica diz que Guga não deve pisar na grama de Wimbledon daqui a duas semanas, superfície que sempre machucou seu corpo. Também seria ideal aproveitar o embalo do boicote e anunciar de vez sua aposentadoria da Copa Davis, deixando a tarefa de levar o Brasil de volta à elite para a nova geração, encabeçada por Flávio Saretta. Isso não seria qualquer novidade para uma estrela de sua magnitude. Agassi, Sampras, Becker, McEnroe, Connors, Borg e tantos outros abriram mão da Davis muito antes de pensar na aposentadoria. No caso de Kuerten, o motivo é ainda mais justo: a saúde.

Tal qual Agassi e Sampras entenderam quando se aproximaram dos 30 anos, é preciso guardar energia para os torneios que importam, disputar no máximo um torneio de preparação para os Masters Series ou os Grand Slam. Assim, Guga poderá esticar as férias de dezembro e não ir mais para a Austrália. Claro que não era isso o que nós todos sonhávamos para ele, que sempre teve potencial enorme para ganhar na terra dos cangurus, mas é o que tem de ter feito.

Guga ainda ama o tênis, o tênis ainda precisa muito de Guga. E não é só o tênis brasileiro. Em meio a tantos jogadores emergentes e carismáticos, a imprensa internacional o elegeu como a personalidade mais simpática e querida do circuito, o famoso "troféu laranja". Vida longa ao rei!

 

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José Nilton Dalcim, paulista de 45 anos, é jornalista especializado em esporte há 24 anos. Acompanha o circuito do tênis desde 1980. É diretor editorial de tenisbr@sil.


Fale com José Nilton: joni1@uol.com.br