Espírito Olímpico
Por José Nilton Dalcim
Não
existe espetáculo mais grandioso na Terra do que as
Olimpíadas. Superação de limites, desafios,
lágrimas da glória ou de desespero se misturam
em quadras, tatames e ginásios, numa profusão
tão grande e contínua que se perde rapidamente
a noção de qual imagem foi mais importante logo
no dia seguinte. É o momento em que o esporte mostra
a sua real dimensão e todo o poder que possui, ainda
que algumas modalidades e campeões manchem o brilho
das medalhas com a lama do doping.
Dentre tantas coisas deslumbrantes que Atenas proporcionou,
certas passagens merecem ser relembradas e, observem, não
falam apenas de vencedores e recordes. A reação
do público da ginástica diante da nota dada
a Alexei Nemov foi de arrepiar. Diante da exibição
vistosa, ainda que talvez imperfeita, a platéia discordou
e exigiu mais. O incrível é que os 10 minutos
de vaia não eram em favor de um grego, mas para um
russo. O mesmo se viu à meia-noite e meia de uma terça-feira,
quando o estádio olímpico parou para torcer
pela busca do recorde mundial no salto com vara feminino.
Novamente, não valia medalha de ouro para a Grécia.
Era uma russa, Yelena Isinbayeva.
A isso a gente pode chamar de cultura esportiva. Não
se deva jamais deixar de torcer ou escolher seus favoritos
e ídolos, mas igualmente é preciso reconhecer
a superioridade do adversário, aplaudir a qualidade
dos gênios e o esforço dos heróis.
Também merece ser lembrada a crise de choro que invadiu
a romena Maria Cioncan na cerimônia de premiação
dos 1.500 metros. Ela havia acabado de colocar no pescoço
a medalha... de bronze. E não foi a única. A
Nigéria deu volta olímpica por chegar em terceiro
nos 4x100m e o maratonista italiano Alberico Di Cecco erguia
freneticamente os braços, como se comemorasse um gol,
ao cruzar a linha de chegada na frente do queniano Paul Tergat,
ou seja, num 9º lugar que nem de longe valia o pódio.
A isso a gente também deve chamar de cultura esportiva,
ou seja saber medir o valor do esforço e do próprio
limite. Deixar o ringue ou a piscina com a certeza de que
cumpriu o seu papel, lutou com a máxima dignidade e
foi superado por alguém que naquele dia e naquele momento
estava em melhor forma ou exibiu a técnica mais correta.
E aí eu me deparo com gente dizendo que Gustavo Kuerten
está decadente e deve até abandonar a carreira.
Ao ver isso num programa de segunda categoria da Rede TV,
que achou ter alguma graça mostrar Guga sendo superado
por um cego e um saci, estampando ao final do quadro um "Aposenta
Guga", até que é compreensível.
Provavelmente os redatores nunca empunharam uma raquete, nem
sabem direito o que é ace, sintoma mais evidente da
famosa falta de cultura esportiva. Mas duro mesmo é
ouvir isso de quem vive o dia-a-dia do tênis.
Esse tão criticado Guga é o mesmo que perdeu
para o campeão olímpico de simples e duplas
por 6/4 no terceiro set. É o mesmo que, há três
meses, foi quadrifinalista de Roland Garros dando uma aula
no quase imbatível número 1 do mundo. Ao que
me conste, Guga não está em 200 do ranking.
Na verdade, em todo o planeta, existem momentaneamente apenas
20 tenistas com mais pontos do que ele.
O que precisamos aprender a ter, antes que venham os Jogos
Pan-americanos de 2007, é bom senso olímpico.
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José Nilton Dalcim,
paulista de 45 anos, é jornalista especializado em esporte
há 24 anos. Acompanha o circuito do tênis desde 1980.
É diretor editorial de tenisbr@sil.
Fale com José Nilton: joni1@uol.com.br
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