Não é hora de renovar
Por José Nilton Dalcim

Encerrado o triste capítulo do rebaixamento da Copa Davis, é preciso chorar menos pelos erros administrativos cometidos até agora e pensar um pouquinho no duro futuro que teremos pela frente. A primeira palavra que se escuta é renovação, como se a humilhante queda para a Terceira Divisão fosse um problema técnico.

Ora, senhores, estamos no fundo do poço por incompetência política, rixas pessoais e interesses eleitoreiros, não por falta de qualidade. A única renovação admissível é a saída de Gustavo Kuerten do time pelos próximos dois anos, primeiro porque ele precisa reunir toda sua força para a carreira individual, segundo porque o grupo teoricamente não necessita de seu tênis para enfrentar adversários tão acanhados.

Ricardo Mello, Flávio Saretta e André Sá, ao lado de um quarto nome que pode ser um garoto promissor como Diego Cubas ou Franco Ferreiro, está de bom tamanho para o zonal 2 americano e mesmo para o grupo 1, em 2006. Os três são experientes, versáteis no piso lento e na quadra dura, com muitos Grand Slam no currículo. Ninguém duvida que têm nível de top 100, algo que nenhum dos países adversários de 2005 possui. Além do mais, cabe a eles certa responsabilidade moral no desastre do rebaixamento, então nada mais justo que agora contribuam com a árdua caminhada de volta.

Técnico do time? Ah, escolham qualquer um, entre tantos bons profissionais que existem no mercado. Talvez o ideal seja mesmo Fernando Meligeni, que tanto já contribuiu para o tênis brasileiro e que tanto trabalhou nos bastidores pelo boicote. Fininho tem o apoio incondicional de Saretta e Sá. Mais importante ainda, possui o espírito ideal de Davis, algo que o grupo vai precisar quando tiver de ir até a Bolívia ou as Antilhas Holandesas, trocando a nobreza do saibro europeu por uma torcida ameaçadora, juízes pouco confiáveis e a obrigação de vencer.

A conclusão final deste episódio é uma das máximas mais antigas que se conhece: esporte e política não combinam, principalmente se quem se dispõe a fazer política não esteja preparado para tal. O único resultado prático que se viu desta batalha de meses entre a atual diretoria da Confederação Brasileira e o grupo opositor foi o rebaixamento. O presidente Nelson Nastás continua lá, perigosamente pronto para eleger um sucessor. A oposição, apesar de sua indubitável boa intenção, conseguiu dividir mais do que agrupar, resultado do estilo um tanto truculento que adotou.

A única coisa que se espera agora é que a tradicional falta de memória nacional não volte à quadra e que o tênis brasileiro consiga rapidamente banir tantos dirigentes irresponsáveis. Isso inclui não apenas Nastás e sua diretoria, mas a maciça maioria dos presidentes regionais de federação, a quem é dado o poder de representar o tenista e únicos que poderiam ter evitado todo esse desgaste. Ao contrário, mantiveram atitude amadora, individualista, evasiva e politiqueira, dispostos a aproveitar mordomias dadas pela CBT e pela oposição, em viagens e reuniões inúteis, porém incapazes de honrar o cargo que possuem. Se existe alguma renovação urgentíssima, é na cadeira onde sentam esses homens sem consciência e pudor.

 

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José Nilton Dalcim, paulista de 45 anos, é jornalista especializado em esporte há 24 anos. Acompanha o circuito do tênis desde 1980. É diretor editorial de tenisbr@sil.


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