Estranhas
decisões
Por José Nilton Dalcim
Algumas coisas são difíceis de explicar no
tênis brasileiro. A mais recente delas foi a incrível
disposição que Gustavo Kuerten e Flávio
Saretta demonstraram a uma rodada da Copa Davis que significava
zero à esquerda, em detrimento de seus importantes
compromissos frente aos torneios de grande peso e a seus frágeis
rankings.
Guga, é claro, tinha um compromisso moral com a nova
diretoria da Confederação Brasileira e sua presença
no duelo contra aquele horrível time das Antilhas Holandesas
era muito mais uma questão de marketing do que técnica.
Até aí, nenhum grande problema. Mas foi triste
ver o tricampeão de Roland Garros perder tempo no domingo
diante do reserva antilhense, que não tem ranking nem
categoria.
Nas palavras de Guga, "estava com vontade de jogar".
Deve ser mesmo verdade. Afinal, no espaço de 65 dias,
ele fez apenas uma partida, na primeira rodada de Roland Garros.
Para quem precisa pegar ritmo e confiança, não
parece lógico treinar mais do que jogar. Pois foi isso
o que ele fez. Ninguém até agora compreendeu
por que ele não disputou um ou dois dos fortíssimos
challengers no saibro europeu, que acontecem simultaneamente
com a curta temporada de grama. David Sanchez, que ganhou
dele em Paris, estava num deles. Aliás, onde perdeu
para Ricardo Mello, número 51 mas com humildade para
jogar torneios menores quando não está ganhando
nada.
Aí vem a entrevista de Guga em Stuttgart, tão
infeliz quando a sua própria atuação
contra o inexpressivo Hugo Armando, que no dia seguinte não
ganharia mais do três games de Rafael Nadal. "Esta
semana eu já sabia que, jogando a Copa Davis até
domingo, chegando em cima da hora para jogar, ficaria com
o rendimento um pouco comprometido". Dá para entender?
Num dia, ele quer jogar uma partida mais do que inútil.
No outro, diz que isso o prejudicou.
O Manezinho felizmente está na posição
de quem pode errar à vontade. Afinal, tem currículo,
história, gabarito e vive uma louvável tentativa
de voltar a jogar um tênis de alto nível. Muitos,
no seu lugar, talvez tivessem optado pela confortabilíssima
aposentadoria.
Não é o caso de Saretta. Um tenista de potencial
que não mostra a seriedade necessária para ser
novamente um jogador de ponta. Sua ausência no torneio
de Indianápolis, único ATP que ainda teria condições
de jogar neste início de segundo semestre com seu parco
ranking, tem contornos de tragicomédia. Ele não
tinha motivo para ficar em Joinville no domingo, depois de
seu sonolento compromisso de duplas, se havia realmente interesse
em ir aos EUA. Aí fala de um curioso vôo Joinville-Curitiba,
com direito a atraso, e depois do sumiço de mala. Se
fosse de carro a São Paulo, teria chegado mais rápido.
Jogador de quem se espera uma volta triunfal ao grupo do
top 100, ele trocou o clima úmido, a quadra rápida
e o adversário perigoso de Indianápolis pelo
favoritismo em dois challengers, estrategicamente situados
em paraísos do inverno nacional. Mera coincidência?
Nada disso deveria surpreender. O tenista brasileiro tem
a notável capacidade de errar ao montar um calendário.
Só alguns exemplos. Thiago Alves vai jogar future na
Colômbia, quando poderia estar num challenger de US$
100 mil em Bermudas. Nanda Alves, eliminada em sucessivos
eventos de US$ 25 mil, volta para casa justamente na semana
em que seu ranking daria de sobra para disputar um US$ 75
mil nos EUA.
Só falta mesmo contratar um Delúbio para assessor
de imprensa. Ele parece ter a (cada vez mais necessária)
capacidade de explicar o inexplicável.
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José Nilton Dalcim,
paulista de 45 anos, é jornalista especializado em esporte
há 24 anos. Acompanha o circuito do tênis desde 1980.
É diretor editorial de tenisbr@sil.
Fale com José Nilton: joni1@uol.com.br
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