Traduzindo Gustavo Kuerten
Por José Nilton Dalcim
Ao
reunir toda sua nova equipe em São Paulo para alguns
dias de treino na quadra rápida, adicionando uma esperada
entrevista, ainda que curta demais, Gustavo Kuerten permitiu
enfim que se entendesse bem melhor o que se passa na sua vida
e na sua cabeça.
Juntando-se todos os pedaços desse quebra-cabeças,
é possível concluir:
A volta
Guga retornou ao circuito em abril sem qualquer expectativa
de jogar bem ou ganhar partidas. Por recomendação
médica, tem feito um autêntico laboratório
a cada semana, para que seja feita uma avaliação
constante da nova cirurgia no quadril. Por isso mesmo, ele
joga duas semanas (houve uma série de três, mas
como exceção) e volta para casa para uma bateria
de exames. A volta, ainda que pareça precipitada, também
teve o objetivo de manter a motivação de Guga
e não afastá-lo demasiadamente do circuito.
Recuperação lenta
Guga confirmou que ainda sente muita dor e que tem dificuldade
de deslocamento, como o primeiro passo na direção
da bola, principalmente para o lado direito. Além disso,
está fisicamente longe do ideal, a ponto de se dizer
feliz por conseguir treinar duas horas seguidas. Ao final
de um desses treinos em São Paulo, era evidente a exaustão.
Por isso, é fácil explicar por que ele começou
vencendo alguns jogos e depois desabou e levou até
6/0.
A
opção por Gumy
O treino de Guga mudou completamente, até por orientação
médica. Ele agora faz drills curtos, alguns de cinco
ou dez minutos de duração, algo tão diferente
dos tempos de Larri Passos que ele brincou, afirmando que
ainda não se acostumou a isso. O argentino Hernán
Gumy sabe bem o que está fazendo, porque também
sofreu uma cirurgia durante a carreira. Técnica e taticamente,
pouca coisa deve mudar no estilo do catarinense. Guga diz
apenas que está fazendo uma direita mais solta e tenta
pegar a bola um pouco mais à frente.
O calendário
Ciente de todas essas limitações físicas,
Guga jogou no lixo o ano de 2005. Prefere treinar mais do
que competir, porque o processo de recuperação
da cirurgia ainda não está completo e não
dá para sonhar mesmo com muita chance nos torneios.
Está jogando por jogar, sem pensar no ranking. Afinal,
ele iria despencar de um jeito ou de outro. A única
possível falha nessa opção de calendário
é com relação ao "ranking protegido",
que poderia ter sido usado somente em 2006.
Fim de temporada
Jogar na quadra dura não é o ideal para Guga
nesta altura de sua recuperação física.
Assim, ele só deve mesmo disputar New Haven e US Open.
Aí treinará no saibro para a Copa Davis do Uruguai,
no final de setembro, e encerrará então as tentativas
de competição. Existe a possibilidade de jogar
um ou dois challengers de saibro pela América do Sul,
mas a temporada de quadra coberta na Europa está descartada.
O
futuro
Todas as fichas de Guga estão depositadas em 2006.
Sem "ranking protegido" a partir do Aberto da Austrália
e muito provavelmente com classificação inferior
ao 250º posto, ele sabe que estará reiniciando
sua carreira. Graças ao prestígio, contará
com alguns convites, principalmente para os ATPs latino-americanos
de saibro, mas existe a séria possibilidade de ser
obrigado a disputar challengers e até se arriscar em
qualificatórios se o ranking não evoluir. Ele
diz estar disposto a isso.
A aposentadoria
Desistir não passa pela cabeça a curto
ou médio prazos. Em suas próprias palavras,
ele não encararia a nova cirurgia e todo este esforço
de volta se não tivesse certeza de que poderá
jogar um bom tênis novamente. A aposentadoria precoce
só acontecerá se voltar a sentir o quadril.
Guga espera retornar a Roland Garros no ano que vem. E diz
claramente, em tom de brincadeira: "Se eu estiver como
agora, em 300 do mundo, no final de 2006, aí sim será
a hora de pegar a prancha".
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José Nilton Dalcim,
paulista de 45 anos, é jornalista especializado em esporte
há 24 anos. Acompanha o circuito do tênis desde 1980.
É diretor editorial de tenisbr@sil.
Fale com José Nilton: joni1@uol.com.br
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