A Rocinha, um campeão da vida e uma certeza
Por José Nilton Dalcim

Fabiano parece um tenista como qualquer outro no circuito juvenil. Dono de bons golpes de fundo de quadra, vive o sobe-desce do ranking de 18 anos com a esperança de um dia chegar ao circuito profissional. Bem apanhado, tira suspiros da platéia feminina.

Mas Fabiano não tem nada a ver com o tradicional mundo do tênis brasileiro. Ao contrário, é o exemplo mais recente de quanto talento se joga fora, noite e dia, pela falta de uma mínima organização e seriedade no quesito trabalho de base.

Ainda com 16 anos, Fabiano de Paula ganhou no domingo a etapa goiana do Circuito Banco do Brasil, um dos maiores eventos do calendário nacional, e vai ao Masters de São José dos Campos como um dos oito mais bem pontuados. O que quase ninguém sabe é que este carioca, que ainda vive na Favela da Rocinha, jamais disputou um campeonato nas categorias inferiores. Na verdade, tem pouco mais de dois anos de treinamento de alto nível. Quem conhece este duro esporte, sabe o tamanho da façanha.

Tímido em meio a um universo que ainda está aprendendo a conviver, Fabiano não tem vergonha de sua história. Começou a pegar bola num hotel luxuoso do Rio, aos 10 anos, para ajudar em casa, interrompendo o sonho de jogar futebol no Flamengo. Mas, muito franzino, logo foi mandado embora. Chorou. Não pelo tênis, mas pelo emprego perdido.

Voltou dois anos mais tarde e aí arriscou pegar na raquete. Ficava no paredão e procurava imitar os gestos que via os professores ensinarem. Até que, aos 14 anos, ganhou um torneio regional e foi chamado de "Guga da Rocinha" pelo jornal "O Dia".

Os empresários Luiz Cláudio e Júlio Maris viram que o garoto tinha jeito mesmo. Numa iniciativa mais social do que esportiva, decidiram pagar o salário que Fabiano recebia como pegador - que até hoje continua sendo valioso dentro de casa - e o colocaram para treinar na equipe de Alexandre Meirelles. Ele correspondeu rapidamente e em 2004 passou a jogar torneios nacionais. Ganhou o de Guarapari. O time agora está prestes a ter um patrocinador de uniforme, graças à ajuda de uma estrela global.

O pai de Fabiano estava desempregado até poucas semanas atrás, mas conseguiu uma vaga de copeiro. A mãe toma conta de crianças. "Eles ficam orgulhosos só de me ver viajando", conta Fabiano. E certamente ficariam ainda mais se vissem o comportamento exemplar do garoto na quadra, onde a comemoração silenciosa do título em Goiânia foi feita com dois sinais da cruz sobre o peito e um dedo erguido para o céu.

À medida que vai ganhando seu lugar no ranking e na galeria de campeões, Fabiano se enturma com o mundo do tênis. Admite na sua simplicidade que já sentiu o preconceito de perto. "Existem algumas pessoas que me olham de lado quando sabem que sou da Rocinha. Acho que eles pensam que vou roubar alguma coisa".

Num país onde a honestidade tem de ser provada, quem atesta ainda mais o valor de Fabiano é o árbitro do Circuito, Rúbio Ribeiro. "Achei uma bola fora da quadra e fiquei surpreso quando o próprio Fabiano me chamou lá para dizer que tinha sido ele quem havia feito isso, mesmo sabendo que isso lhe custaria uma advertência".

Admirador do jogo de Roger Federer e Pete Sampras e do vigor físico de Rafael Nadal, o tênis profissional é o objetivo de Fabiano, que mostra uma boa esquerda com uma mão, habilidade em golpes maliciosos e um saque que não é tão veloz, mas incomoda o adversário. O sonho? Muito simples."Tirar a família de lá".

Enquanto outros Fabianos vão se perdendo pelo país afora, o tênis brasileiro não terá sequer um top 100 no ranking masculino da próxima semana. Uma tristeza que não se via desde 1996, mas que continua fácil de se explicar.

 

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José Nilton Dalcim, paulista de 45 anos, é jornalista especializado em esporte há 24 anos. Acompanha o circuito do tênis desde 1980. É diretor editorial de tenisbr@sil.


Fale com José Nilton: joni1@uol.com.br