Toninho Farinas, um apaixonado pelo tênis
Por Suzana Silva
O
apego, principalmente a pessoas e ao passado pode ser limitante.
Mas conhecer a história de um grande ser humano, de
uma geração, ou de uma comunidade pode nos inspirar
a ser um pouco melhores a cada dia e também apontar
caminhos que não havíamos imaginado para nossas
vidas.
Toninho Farinas começou a jogar tênis seguindo
os passos de seu pai, no Esporte Clube Pinheiros, aos 11 anos
de idade. Logo pegou gosto pela coisa. Naquela época,
final dos anos 60 e início dos 70, as crianças
usavam seu tempo livre da escola na rua, brincando, e os mais
privilegiados - que podiam ser sócios de um clube -
lá passavam eternas tardes dedicando-se ao seu esporte
favorito.
Toninho passou muitas e muitas tardes no Pinheiros. Quando
não encontrava alguém para jogar, ou mesmo depois
de muito jogar, ia ao paredão aperfeiçoar seus
golpes. Ele era daqueles tenistas que possuíam muito
talento com as mãos: seus golpes sempre foram fluidos,
com efeitos incríveis.
As memórias que ele compartilhou comigo desta época
foram muitas. Da vida esportiva no Pinheiros, o que ficou
registrado para mim foram as lindas partidas de Davis que
ele assistiu, com os geniais Koch, Mandarino, Manolo Santana,
Illie Nastase; a humildade do Professor Eduardo Zucheto; as
mãos cheias de giz do amigo Collin Scott; a direita
"over the back fence" do amigo Cláudio Gosson;
as pancadas do Ricardo "Torinho" Maynard, como ele
trouxe para o tênis os amigos Eduardo "Taturana"
Homsi e Eduardo "Brandi" Brandileone, as horas passadas
na quadra e fora dela com o amigo Carlos Eduardo "Joe"
Cossermelli, as risadas no sítio do amigo Paulo Cleto,
os filmes super 8 assistidos com Paulo Cleto e Carlos Kyrmair,
as horas e horas de treino com a amiga Cláudia Monteiro.
Paralelamente ao seu envolvimento com o tênis, durante
a adolescência, Toninho desenvolveu mais duas paixões:
fotografia e música. Chegou a montar um estúdio
completo de revelação fotográfica em
casa, onde não raro varava a noite, descobrindo químicas
e imagens dos amigos do Colégio Santa Cruz e do tênis.
Aos 17 anos já era muito bom, tendo, inclusive, vendido
fotos de tiradas no WCT (ah, quem se lembra?) para a extinta
revista Tênis, da também extinta Editora Guatapará.
Da fotografia para o filme super 8, deste para o vídeo,
deste para o filme publicitário: de qualquer maneira,
muita sensibilidade para imagens, para o belo. Foi um dos
primeiros - se não o primeiro - professor de tênis
a gravar seus alunos em vídeo no Brasil.
A música foi uma estória à parte. Seu
gosto musical era bem apurado, passando por clássicos,
jazz, blues e música indiana. Mas a preferência
por uma boa guitarra acabou levando-o a ouvir sem parar Carlos
Santana, B.B. King, Mark Knofler, Eric Clapton, Keith Richards,
Martin Barr, Bob Dylan, Joe Satriani, David Bowie e - o favorito,
pela simplicidade e poesia - Lou Reed. Foi ter aulas de guitarra
depois dos trinta anos de idade, tendo aprendido escalas pentatônicas
e tudo o mais.
Autodidata para a fotografia, para o vídeo, para o
tênis, para o Inglês. Toninho sempre estudou muito.
Eram vários livros abertos na cabeceira da cama: sobre
biomecânica do tênis, sobre Frederico Fellini,
sobre espiritualidade, sobre fotografia no cinema, sobre saúde,
a maioria em Inglês. Era impressionante, para mim, sua
capacidade de armazenar e comunicar uma quantidade tão
grande e variada de informações.
A grandiosidade do Toninho, para mim, vem da generosidade
em compartilhar o que sabia. Tinha ciúme dos seus livros
e fitas de vídeo, sim, mas ensinou, gravou em vídeo,
deu palestras, escreveu, tantas e tantas vezes de graça,
pelo prazer de ensinar. Que o digam Eduardo Azevedo, Marcelo
Meyer, Eloy de Souza, Wilton Carvalho, José Nilton
Dalcim, Odir Cunha, Lito Cavalcanti, Marcelo Saliola, Roberto
Elizabetsky, Patrícia Medrado, Marcos Vasconcellos,
Paulo Jimenez, Beto Carnevale, Fabio Brandt, David Roquetti,
Kiko Avancini, Helena Carvalho, André Osser, Sérgio
Vezzani, entre tantos professores, jornalistas, amigos e alunos
que Toninho ajudou durante sua carreira.
Nossa geração jogou tênis por prazer.
A comunidade do tênis não era tão profissionalizada
como hoje: tivemos oportunidade de participar de uma irmandaderepleta
de personalidades complexas, apaixonantes e apaixonadas pelo
esporte. Arrisco dizer que Toninho fez parte da geração
romântica do tênis. E nos deixou um legado impressionante
de conhecimento, fotografias, vídeos e memórias.
Seu conhecimento sobre tênis também me instigou
à volta ao esporte, à paixão pelo ensino,
por compartilhar. Abriu um caminho possível que eu
não tinha pensado para a minha vida. Se escrevo estas
linhas hoje, com a humilde intenção de homenagear
uma pessoa tão importante e querida para o tênis
brasileiro, o faço porque ele me trouxe de novo ao
tênis. Afortunadamente, pude agradecê-lo ainda
em vida. Aos que não puderam fazê-lo, basta um
pensamento carinhoso. Ele receberá.
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Suzana Silva é colunista de tenisbr@sil para Instrução Infantil.
Ex- tenista profissional, é formada em Educação
Física pela USP e foi casada com Toninho Farinas.
Em novembro passado, lançou o livro "Tênis
Para Crianças, Manual para Pais, Filhos e Mestres". |
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