E agora?
Por Fernando Fontoura

Acabou! A situação do tênis brasileiro hoje, em todos os níveis – falta de patrocínio para a Davis, retirada de grandes patrocinadores entre nossos melhores atletas, queda brusca de vendas de materiais esportivos de três anos para cá, falta de apoio filosófico a jovens jogadores, queda do número de novos praticantes, falta de promoção séria e ampla dos benefícios do esporte como lazer, como ato social e saúde, a visão cada vez mais longe de um interclubes brasileiro – chegou ao nível que havia sido prognosticado há mais de cinco anos por um treinador espanhol, Luís Medieiro.

Arantxa SanchezEm um curso em Miami, conversamos sobre o grande momento do tênis brasileiro com Guga sendo bicampeão de Roland Garros. Não se engane, disse Luís Medieiro. Na Espanha, no auge das conquistas de Sergi Bruguera e Arantxa Sanchez, bicampeões em Roland Garros, números dois e um do mundo respectivamente, várias conquistas em outros grandes torneios, não aumentou a circulação de revistas, não aumentou o número de torneios infanto-juvenis ou profissionais, não houve aumento considerável na venda de material esportivo. Ao contrário. Após alguns anos das conquistas dos seus grandes tenistas, começaram a fechar revistas, a cancelarem torneios, a terem menos praticantes e a venda de material esportivo despencou.

Por quê, perguntei. Porque as coisas não acontecem do nada, respondeu. Todos pensaram que por causa de Sergi Bruguera e Arantxa Sanchez tudo iria funcionar melhor como num passe de mágica. Todos esperaram e ninguém fez nada. Nenhum profissional envolvido com o esporte mexeu um dedo para manter ou aumentar o que os jogadores tinham conseguido realizar a duras penas. Apenas esperaram que algo fosse acontecer.

É como a conquista de um país: há alguns poucos homens valentes e desbravadores, mas sem o trabalho da própria população que vai usufruir daquilo que eles conquistaram, o grande país vira novamente um amontoado de terra inerte e imprestável. É a ação do homem que transforma a realidade. Para o bem ou para o mau. A inação é o mesmo que agir contra, pois conta com a passividade e passividade não constrói nada. Não adianta ficar um século sem destruir, que nada se erguerá.

O Brasil volta ao patamar inicial, ou pior, um patamar anterior ao da conquista de Guga em mil novecentos e noventa e sete. Um passo anterior porque nada foi aprendido no processo. Mais do que a visibilidade que teve o tênis todo esse tempo, com mais produtos do qual o Guga foi garoto propaganda e melhor garoto propaganda do que ele, duvido, em um curto prazo de tempo. Guga aliou a conquista com a simpatia e a empatia. Uma fórmula bombástica para qualquer um que quisesse fazer alguma coisa.

A única coisa que aumentou no tênis brasileiro nesse período passado foram as mamadas. Várias pessoas e empresas mamaram um pouco da vaquinha gorda e bonita que Guga colocou à disposição. Não se preocuparam em dar um pasto, ralo que fosse, a ela. Hoje, ela não está mais agonizando, fraca, deitada e desfigurada. Hoje, ela está morta e ninguém quer enterrar.

Guga ainda, de lambuja, teve uma atitude que ninguém teve coragem de ter, boicotou a direção espúria da antiga CBT (Confederação Brasileira de Tênis). O que foi feito a seguir? Entrou, muito tempo depois, uma direção que não valoriza um trabalho feito pela qualidade de ensino do nosso esporte. Diz que tudo não passou de balela, anula tudo o que foi feito pelo simples ato de vontade cega e apresenta um novo projeto de qualificação do ensino que nunca vai sair do papel, pois tem todos os vícios socialistas: unanimidade, ‘ideal' maior e agradar a todos.

Não é preciso quantidade, maioria ou unanimidade para se fazer algo produtivo e realizar aquilo que realmente dá resultado. No Brasil, a cultura do meio-termo , da ensebagem e do não vamos ser tão radicais , acaba com os propósitos e convicções de quem tem fortes ideais e luta por uma recompensa justa.

Como diz o filósofo Olavo de Carvalho, boas idéias só servem para alguma coisa em grandes mentes. Contra toda essa cultura do meio-termo, digo que essa filosofia não agrada nunca os lados envolvidos, ao contrário, desagrada a todos. E esse ideal de que se consegue ser tudo para todos leva a não se ser verdadeiro com ninguém. Todos saem perdendo e todos aceitam o menos como recompensa. Em princípios fundamentais não pode haver meio-termo . Ou a vida ou a morte; ou justiça ou injustiça; ou liberdade ou escravidão.

E sempre, digo sempre , que houver um meio-termo em princípios fundamentais, quem sai ganhando é o lado mau. Enquanto nossa cultura política continuar dando o exemplo de que para governar tem que se fazer alianças hoje com quem se xingava um mês atrás, que para governar tem que se fazer concessões para quem nunca pensou igual ou parecido, cabe à nossa consciência crítica individual não aceitar isso como um padrão de moral e valor.

Como no alto nível do tênis e de qualquer outro esporte, a comparação verdadeira é sempre com o próprio desempenho, não mais com o competidor que está do outro lado. Não interessa destruir o outro, mas melhorar cada vez mais o próprio padrão de valor. E é exatamente isso que me entristece quando vejo que a bolha fantástica deixada por Guga, murchou. Murchou para um patamar ainda pior do que estávamos. Ou seja, na comparação de nós com nós mesmos, estamos perdendo.

Não falo de fatos isolados como alguns torneios a mais aqui ou ali. Falo em proposições fundamentais que, como a fundação de um edifício, é que irá sustentar todas as outras. A promoção do esporte nos seus mais variados níveis e públicos, através dos profissionais do tênis de todas as áreas, a valorização do atleta de clube e amador - que é o verdadeiro fomentador do mercado de materiais esportivos, revistas, sites, promoções e eventos -, a atitude de, realmente, como se diz no futebol, "chamar o jogo para si" das federações e confederação no sentido de aglutinar todos os níveis de promoção junto às empresas interessadas em atingir esse público, que, diga-se de passagem, é um dos melhores públicos que existe, pois seu poder aquisitivo lhe proporciona adquirir produtos de todos os níveis. O golfe, que tem um público semelhante ao do tênis, está sabendo muito bem aproveitar essa qualificação. Princípios fundamentais duram muito mais do que outras ações e as ordenam muito mais corretamente dentro da realidade. O que se faz hoje é querer alterar a fundação apenas trocando as janelas ou refazendo a pintura externa. O fundamental, o essencial, ainda está intocado.

Para se realizar coisas boas não é preciso envolver todos de uma categoria, mas apenas os melhores. Pinçar os melhores de cada área e fazer um plano de ação fiscalizado pelos órgãos estaduais, com datas e metas bem definidas, não é algo difícil. Qualquer empresa que se preze faz isso para se manter ativa no mercado. Como é que a CBT e as federações podem se dar ao luxo de pensar que isso não é necessário para elas? Outra saída é unir pequenos grupos de grandes pessoas, sem a chancela oficial, e começar a realizar aquilo que é preciso fazer. Se a oficialidade nega sua realidade e funcionalidade, quem vive dentro desse mercado tem o dever de agir.

O melhor de cada um está naquilo que realiza e tenho certeza de que existem muitos por aí e é deles que a nova vida do tênis brasileiro depende.

 

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Fernando Fontoura, ex-professor de tênis por dez anos
e filho da tenista Henny Fontoura, já publicou dois livros
técnicos - "Configure seu Jogo", em 1998, e "Tênis Para Todos", em 2003. Atualmente escreve "Filosofia das Quadras", uma reunião de suas principais crônicas.

Fale com o Fernando: fcdafontoura@hotmail.com