Ato
contra a existência
Por Fernando Fontoura
Há 140 mil anos, o homo sapiens deu um passo decisivo
na sua evolução e sobrevivência. Pegou
um ovo de avestruz, furou-o, tirou a gema e a clara e colocou
água dentro. Na seca em que vivia no hemisfério
sul do planeta, ele enterrou o ovo com água para poder
matar a sede mais tarde. Esse simples gesto lhe rendeu um
salto de milhões de anos à frente do homem de
Neanderthal. Salto que foi decisivo quando mais tarde se encontraram
e o homo sapiens venceu pela capacidade de raciocinar em longo
prazo, coisa que seu oponente não era capaz de fazer.
O homem de Neanderthal vivia de acordo com os desígnios
da natureza, em curto prazo, e suas ações encontravam
apenas o raio de seu parco pensamento, se é que o tinha.
O homo sapiens passou a transformar o ambiente a seu favor,
adquirindo a inteligência necessária para isso
a partir do ovo de avestruz com água que ele enterrou.
De lá para cá, a única diferença
é de tempo. Nossa inteligência de hoje também
nos permite transformar o ambiente a nosso favor e a única
maneira de fazermos isso é arranjando os fatores que
a realidade nos apresenta. Não temos capacidade de
criar do nada, mas temos capacidade de transformar tudo o
que entra no círculo de nossa racionalidade e o tamanho
desta circunferência só é limitado pela
nossa vontade. Ou seja, temos capacidade de agir a favor de
nossa existência.
Assim como o homo sapiens se tornou verdadeiramente "homem"
a partir do momento em que conseguiu perceber uma realidade
e pensar em longo prazo sobre como superá-la, nós
hoje só podemos ser consideradas pessoas evoluídas
quando conseguimos ter metas em longo prazo que mantenham
nosso maior valor: nossa vida. Quanto mais um homem ou uma
mulher consegue pensar em longo prazo sua vida e, logicamente,
age para que isso aconteça, mais evoluída é
essa pessoa.
O que faz então um homem adulto, teoricamente maduro
racionalmente, não desenvolver a capacidade de pensar
em longo prazo? É que o processo de maturação
do corpo é involuntário, independe de nossa
vontade, apenas de nosso cumprimento fiel às regras
de alimentação, por mais precária que
sejam, assim como nossos antepassados o fizeram em ambientes
totalmente insólitos. E o processo de maturação
racional depende exclusivamente de nossa vontade. A natureza
nos dá o cérebro, mas não seu conteúdo.
É por ato de escolha e vontade que o homem tem que
transformar as informações ao seu redor em conhecimento.
Esse processo não é automático como o
funcionamento de nossos pulmões ou coração.
Quando um pai dopa os adversários do filho para tirar
proveito momentâneo sobre a situação,
está agindo em curto prazo e pensando apenas no raio
de suas vontades primárias. Toda ação
leva a uma causa e evadir do conhecimento dessa conseqüência
leva o homem a agir aleatoriamente. A aleatoriedade tem como
natureza a negação das causas e um ato de 'lavar
as mãos' para as conseqüências. É
o ato em si, como um fim em si mesmo. Transformar um ato de
causa e efeito em um ato isolado é o mesmo que dizer
que se pode obter algo sem pagar e /ou pagar sem agir para
ganhar. O primeiro ato elimina a conseqüência e
o segundo, a causa.
É importante salientar que esse 'jeitinho' de abreviar
aquilo que viria apenas por merecimento não é
uma questão local, de brasileiros malandros. É
uma questão de toda pessoa, em qualquer lugar do mundo,
que acha que pode passar por cima da existência e da
consciência de seus atos. A existência por si
tem um código a ser seguido, pois quando algo existe,
este algo tem que agir de uma certa maneira para manter-se
o que é, e agir contra isso é agir contra o
código de sua existência, seja física
ou moral. A consciência é a faculdade que nos
permite avaliar e julgar nossos atos em comparação
com o código moral que estabelecemos (conscientes ou
não) para nossa vida. Negá-la é agir
contra sua própria moralidade e contra sua própria
felicidade.
A morte provocada por Christophe Fauviau a um desses tenistas
que competia contra seu filho, ao colocar uma droga na bebida
do adversário durante o jogo, é o resultado
final de uma atitude contra todas as bases da existência
e moral do ser humano. Não há de se espantar
que o final seja esse, pois não há auto-engano
que possa mascarar as conseqüências de um ato tão
abjeto, como não há espanto em se ver como ficam
os soldados que voltam de uma guerra. Não poderiam
vir de outra maneira. Também não espanta que
um ser humano aja assim contra outro, impulsionado por desejos
reprimidos e muitas vezes desfocados do próprio objetivo.
O que espanta é o próprio filho e a Justiça
francesa atenuarem a natureza do ato. E por causa dessa aceitação
de um ato imoral e contra a existência de uma pessoa
é que a corrupção interna floresce naqueles
que um dia pensaram em agir dessa forma e tinham algum receio.
As regras da existência e da moral estão presentes
em todas as nossas ações como seres humanos
e não apenas temos que nos dar conta disso, mas muitas
vezes temos é que redescobri-la, ou seja, tirá-la
debaixo do manto da aceitação, das máscaras
e da flexibilidade ética.
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Fernando Fontoura, ex-professor de tênis por dez anos
e filho da tenista Henny Fontoura, já publicou dois livros
técnicos - "Configure seu Jogo", em 1998, e "Tênis Para Todos", em 2003. Atualmente escreve "Filosofia das Quadras", uma reunião de suas principais crônicas.
Fale com o Fernando: fcdafontoura@hotmail.com |
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