Orientação mental
Por Fernando Fontoura

A cena é a seguinte:
Torneio de clube. Dois meninos de 12 anos jogando. Um grandão e com uma turma de amigos ao lado da quadra. Outro menorzinho e sem amigos, pais ou treinador ao lado. Saque do grandão. O menorzinho dá bola fora. O jogo está empatado em games. Apoiado pelos amigos, o grandão vai verificar a marca. Os amigos continuam a lhe “incentivar” (Vai deixar ele te roubar? Não deixa assim. Olha o tamanho dele. Vai lá conferir). Ele atravessa a quadra e o menorzinho mostra a marca com a ponta da raquete. O grandão vê a marca fora e olha para os amigos. Eles continuam “incentivando”. Olha para o menorzinho e diz que foi boa. Vira as costas e volta para seu lado. Os amigos gritam palavras de “apoio”. O menorzinho continua parado ao lado da marca insistindo que a bola foi fora. O grandão volta à rede. Olha para os amigos. O menorzinho olha para o lado e não tem ninguém para ajudá-lo. Continua insistindo na marca. Vai para o fundo da quadra e diz para o grandão dar o segundo saque. Os amigos gritam para o grandão não deixar assim. O grandão titubeia. Olha para o menorzinho, para a marca fora e para os amigos gritando e gesticulando. O menorzinho está calado atrás da linha esperando o segundo saque. O grandão volta para o fundo e diz para a turma que vai ganhar dele de qualquer jeito, por isso que deixe assim. Recomeça o jogo com o segundo saque do grandão. Durante toda a partida o menorzinho recebeu pressão dos amigos do grandão cada vez que passava na frente deles. Ganhou o jogo em dois sets. O grandão saiu sem apertar a mão dele no final.

Essa não é uma cena rara, mas a atitude do menorzinho é. A consistência com que ele defendeu sua convicção – que inclusive tinha prova – ante uma opressão psicológica e física e não se dobrou, é típica de pessoas determinadas, objetivadas e concentradas naquilo que é seu por justiça e direito. Adultos têm esse comportamento. Crianças, geralmente, não. A prova está no grandão, que mesmo sabendo que estava errado e não merecia aquele ponto, ante a pressão de ser aceito e ter valor, sucumbiu à pressão da avaliação dos outros. Traiu sua própria lei interna de não roubar e não brigar pelo imerecido. A dicotomia entre o valor que os outros davam a ele e aquilo que é certo e valoroso por si só o deixou confuso e perdido.

Conversando com pais durante a Copa Gerdau, percebi que essas cenas acontecem mais do que se imagina. E eles que gastam muito de seu dinheiro em treinos, clubes, materiais, torneios, professores e técnicos e não se dão conta de que o dinheiro mais bem investido não está sendo gasto. O dinheiro com um acompanhamento psicológico para seus filhos.

Em um ambiente competitivo, onde a vitória é alcançada de forma solitária dentro de uma quadra, a pressão de pais com suas expectativas exacerbadas, de treinadores querendo se orgulhar de seus pupilos, de pontuação de ranking e, em alguns casos, de patrocinadores precoces funciona de forma ativa na formação do caráter desse pequeno tenista. Formação não quer dizer necessariamente boa formação. Muitos treinadores desses meninos já foram grandes profissionais do tênis e viajaram mundo afora sem nenhuma forma de preparação mental adequada. Exatamente essa falta que tiveram e que faria a diferença em suas carreiras deveria ser o foco principal quando algum menino exterioriza o desejo de querer ser profissional.

Não é novidade que quanto mais alto o nível de competição mais o fator mental se torna um diferencial. Sabe-se isso de antemão e nada é feito nessa direção. Não há como entender do homem sem estudar sua natureza. Não há como querer ser profissional sem querer estudar a parte mental que o fundamenta. Antes de ser tenista, jogador de futebol, nadador esse menino ou menina é um indivíduo com características, qualidades e atributos fundamentais que o direcionam em todas as ações de sua vida. Desde a escolha do jogo de seu videogame até suas atitudes dentro de uma quadra de tênis. Querer dar atenção à técnica, à preparação física, à nutrição, à tática e negar toda parte mental ou apenas cuidar dela quando “algo” acontecer é querer correr para frente amarrado a um poste.

O trabalho mental é o mais pesado que há, pois parte de uma abstração da realidade para poder conceituá-la, julgá-la, conscientizá-la e a partir daí usá-la como algo real em sua vida. Mas essa dificuldade não é a única desculpa para não se dar atenção a ela. Considerando a importância direta nesses meninos e meninas, o professor, instrutor ou técnico é a ponta dessa pirâmide. Não basta capacitação técnica para eles terem conhecimento de como ensinar. É preciso eles terem uma capacitação moral de como levar seus pupilos por essa estrada. No mesmo nível dessa pirâmide estão os ex-profissionais que já passaram na prática essas dificuldades mentais. Deveriam colocar em sua carga horária de treinos palestras sobre como enfrentaram essas adversidades mentais nos jogos. Uma psicóloga de plantão deveria estar acompanhando essa meninada por torneios. Em nível nacional e internacional financiada pela C.B.T. (Confederação Brasileira de Tênis) e em nível estadual pelas federações.

O abandono de tantos talentos brasileiros quando estavam se tornando profissionais ou de profissionais que não suportaram a pressão não só da derrota, mas da vitória é fruto de uma falta completa de apoio mental a nossos jogadores. Guga é um exemplo a ser seguido, não por seus meios, mas por seus fins. Seus resultados é que devem embalar os desejos de tantos outros. Passou por dificuldades mentais muito grandes que antes poderiam ser amenizadas se também tivesse tido um acompanhamento mental desde cedo. Sua força mental foi exteriorizada em vários jogos que ele virou e não se entregou, mas a forma que a adquiriu pode ter deixado marcas de cansaço e fadiga.

Hoje há a lembrança da força, mas não de sua natureza. Porque ela nasceu não da orientação, mas da necessidade do momento. A orientação mental realizada por um profissional e abalizada pelo conhecimento, pelo menos em termos gerais, dos professores, técnicos e treinadores é peça fundamental para o sucesso desses meninos, não apenas nas quadras, mas na vida.

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Fernando Fontoura, ex-professor de tênis por dez anos
e filho da tenista Henny Fontoura, já publicou dois livros
técnicos - "Configure seu Jogo", em 1998, e "Tênis Para Todos", em 2003. Atualmente escreve "Filosofia das Quadras", uma reunião de suas principais crônicas.

Fale com o Fernando: fcdafontoura@hotmail.com