A natureza da concentração
Por Fernando Fontoura
Devido
a inúmeros e-mails que recebi sobre a última crônica - Orientação
Mental -, percebo que o assunto é muito mais pertinente graças à
preocupação dos pais, porém muito pouco relevante quando
essa preocupação é externada a professores, treinadores e
técnicos. Nenhum deles é louco o suficiente para tentar minimizar
a importância deste fator ao esporte, mas o máximo que fazem é
responder com frases prontas e definições óbvias, mas sem
conteúdo. Tipo "sim, isso é verdade, o senhor tem razão.
O jogo mental é tão importante quanto a parte técnica",
"inclusive tenho lido sobre essa parte e é realmente muito interessante",
"por experiência própria posso afirmar o que o senhor está
dizendo e concordar que o jogo se ganha na cabeça do atleta" e outras
frases que dão importância ao assunto, fazendo assim uma empatia
com o responsável pelo desempenho do atleta, mas eximindo-se totalmente
de uma solução.
A solução do professor, treinador
ou técnico do atleta não é apenas prática, mas de
indicação e equipe. Não precisa - nem tem condições
e nem é seu papel - ser o orientador mental de seu pupilo, mas tem por
obrigação saber indicá-lo a um bom profissional ou ter um
em sua equipe de trabalho.
Muitos falam em concentração sem
saber da natureza desse ato. Focar não é o mesmo que pensar, não
é o mesmo que dizer a si mesmo "agora vou me concentrar". Focar
não resolve problemas, mas é a prontidão para pensar, ou
seja, é a precondição do pensamento. O foco nunca se transforma
em um reflexo mental, por isso, deve ser continuamente perseguido e treinado.
A natureza da concentração faz com que esse processo tenha que ser
sempre iniciado, nunca se torna autônomo. Se você estiver concentrado,
por exemplo, no ponto de contato da direita, ao mudar o foco para a terminação
de esquerda, terá que reiniciar o processo de concentração.
Estar focado em um aspecto não garante a concentração em
outros, daí que podemos caracterizá-lo como uma questão de
escolha. É um processo que deve ser sempre iniciado e depois mantê-lo
por um longo período de tempo por esforço.
Quando o caracterizo
como uma escolha é porque tudo o que se faz com prazer é
mais produtivo - e parto do princípio que o escolheu porque gosta. Portanto,
quando se escolhe algo como praticar um esporte, está se escolhendo junto
suas implicações necessárias para manter essa opção
com o sentimento de prazer. Como a natureza da escolha é não ser
necessária, pois poderia ser de outra forma, pode-se evadir de algumas
de suas implicações, mas não do fato que ao fazer isso se
está prejudicando a natureza do objetivo: o prazer. Como tudo na vida é
um processo, ter o real prazer com algo também é fruto de ações
interligadas e arrancar um ou mais elos dessa cadeia é prejudicar sua validade.
As pessoas que desejam ter seu baú de tesouro em seu colo, mas não
querem cavar para alcançá-lo são as que mais sabotam o prazer
que estavam buscando.
Um certo filósofo certa vez disse que foco
é o estado de uma mente orientada para objetivos e comprometida em consegui-los.
Esse estado é fruto de treino, de técnica, de esforço e dedicação.
Não basta entrar para a quadra e "pensar" em se concentrar se,
durante toda a temporada, o foco foi uma questão secundária em sua
agenda de treinos.
Esse treino de orientação mental será
aproveitado não apenas nos jogos, mas em qualquer outra questão
da vida em que seja necessária uma concentração mais apurada
como nas aulas, na faculdade, na profissão que por ventura um dia terão,
na leitura, na apreensão de qualquer conteúdo que cair em sua mente.
Com a capacidade de focar, a pessoa passa a ficar mais "esperta" e aprende
a ter mais discernimento em todas as questões que a envolvem.
Orientação
mental não é um assunto a ser tratado quando aparecer a necessidade,
mas uma precondição para qualquer um que aspira tirar mais proveito
de seus conhecimentos técnicos em qualquer área que atue.
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Fernando Fontoura, ex-professor de tênis por dez anos
e filho da tenista Henny Fontoura, já publicou dois livros
técnicos - "Configure seu Jogo", em 1998, e "Tênis Para Todos", em 2003. Atualmente escreve "Filosofia das Quadras", uma reunião de suas principais crônicas.
Fale com o Fernando: fcdafontoura@hotmail.com |
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