Ignorância ativa
Por Fernando Fontoura
Neste artigo peço ajuda a você e ao seu conteúdo
mental, que deve ser muito mais amplo que o deste colunista
que escreve. Eu juro que tento me esforçar. Por anos
tento resolver uma equação que no final sempre
me leva de volta a reavaliar as premissas. Volto a ela e seu
resultado nunca confere com a fórmula inicial.
Em filosofia isso se chama de erro de lógica, pois
a lógica é a arte da identificação
não-contraditória. Ao deparar com uma contradição
confesso automaticamente um erro no meu processo de pensamento,
pois o resultado não pode contradizer sua natureza.
Não posso começar estudando uma pedra e chegar
à conclusão que ela é uma árvore.
Essa contradição me leva saber que o que analisei
não é nem uma coisa nem outra. Assim devo voltar
às premissas básicas e desenvolver novo processo
de pensamento.
A equação que não resolvo e da qual
partilho agora com você e peço-lhe ajuda é
mais um fator que leva nosso esporte à derrocada dele
próprio. Aqueles que utilizam sua força no mercado
são os primeiros a acabarem com sua possibilidade de
vida em longo prazo neste mesmo mercado. É como um
canibal comendo a si mesmo na esperança de matar sua
fome.
Muitos empresários - esse termo não é
necessariamente o mais apropriado - com o intuito de "proteger"
seus clientes, os deixam fadados à falta de informação
e conhecimento. Dão-lhes apenas aquilo que podem vir
deles ou algo extremamente filtrado por eles. Negam assim,
como o filósofo Kant, toda a gama de realidade que
os cerca. Passam a seus clientes apenas o que é real
para eles, e essa medida é aquilo que não venha
de nenhum outro "concorrente".
Fazendo assim, os clientes recebem uma pequena parcela da
informação e conhecimento disponível
no mercado e os eventos ficam centralizados a academias ou
clubes e para seus respectivos sócios. O retorno para
o patrocinador do evento fica parco, vinculado apenas ao domínio
da área dos interesses do empresário. Com um
retorno fraco as empresas começam a pensar duas vezes
em patrocinar eventos o que aumenta ainda mais o sentimento
de "proteção" dos empresários
a seus clientes. Depois ainda reclamam que o mercado está
parado ou muito devagar. Uma espiral descendente.
Mercado não é uma entidade soberana que existe
por conta própria. É uma causa da relação
de trocas entre as pessoas diretamente envolvidas nesse processo.
Se o mercado está mal, então as pessoas envolvidas
nele deveriam repensar as visões que o fomentam. E
não reclamar dele como se fosse missa de domingo, onde
tudo o que se faz lá, freqüentemente, não
tem conexão com o resto dos dias da semana.
Quando revejo as premissas dessa equação, me
concentro em dois pontos: isso acontece ou (1) porque as pessoas
envolvidas não sabem do processo, ou seja, acontece
por ignorância passiva. Ou (2) as pessoas envolvidas
conhecem o processo, mas resolvem passar por cima de tudo,
ignorar suas conseqüências porque têm algo
a ganhar em curto prazo, mesmo que deixem um rastro de destruição
atrás e mesmo que tenham que voltar a andar por esse
caminho amanhã.
A definição para isso é ignorância
ativa. Errar por ignorância passiva não é
uma falha moral - fato que também não acredito
que aconteça em nosso mercado, pois as pessoas envolvidas
são cultas, viajadas, estudadas -, mas errar por ignorância
ativa é um ato de brecha ética. A ignorância
ativa é uma atividade, não passividade. É
preciso esforço para fingir não saber de nada,
é preciso dispensar energia para se fazer de cego,
é preciso atividade mental para jogar a imoralidade
para baixo do tapete da consciência.
Outra incógnita de minha equação é
por que agem assim. Ciúme? Concorrência? Inveja?
Competição fora das quatro linhas? Mas nenhuma
dessas causas tem um fundamento que a sustentem em longo prazo.
Bingo! Achei! Longo prazo... é uma palavra que o brasileiro
em geral não conhece. Vale tudo para o curto prazo,
inclusive contaminar de maneira letal o próprio mercado
que o sustenta. Ou seja, o erro não é puramente
técnico, é moral, é de valor, ou falta
dele.
Penso que minhas premissas dessa equação estão
certas, o resultado é que não confere. Mas qual
deveria ser o resultado para confirmar minha estrutura inicial?
- Abertura de mercado
- Concorrência contra o futebol, o vôlei, o golfe,
o xadrez, o jogo de taco ou qualquer outro esporte
- Análise de projetos, não apenas de contatos
O número 1, a abertura de mercado, significa que todas
as partes que compõem o todo vão se juntar contra
um inimigo comum. Aí entra o número 2: os outros
esportes. Quando se perde um tenista para outra academia de
tênis ou outro clube, ainda assim pode se ganhar em
longo prazo com ele, mas quando se perde um atleta de tênis
para outro esporte a perda imediata é grande e em longo
prazo ainda maior. Nunca mais ele vai falar de tênis
no café da manhã, com amigos, no trabalho, fora
tudo que ele vai deixar de consumir diretamente nas lojas
e derivados. A paixão mudou de foco.
O número 3é uma extensão dos contatos,
ou melhor, é a qualificação deles. Se
além de ter bons contatos, apresentam-se bons projetos
e eles são levados em conta, melhor para todos. Conheço
vários projetos maravilhosos de muito alcance engavetados
por aí porque o fulano não é amigo do
diretor, não puxou o saco direitinho ou está
fora da panelinha. Isso só atrasa a vida de todos os
envolvidos, tanto os empresários sérios quanto
os consumidores que querem sempre o melhor.
A autodestruição através da evasão
das conseqüências tem como ponto fundamental que,
ao negá-las, pode-se alterar a natureza da realidade.
Como a pessoa que quer se drogar, mas não quer morrer.
Para continuar agindo em curto prazo - fumando, injetando,
cheirando - nega a conseqüência óbvia, mas
isso não altera o resultado. Faz isso apenas para um
alívio de consciência, usa da ignorância
ativa para evadir-se da realidade.
Sempre tenho a esperança de que alguns poucos sacudam
a poeira e dêem a volta por cima para que o resultado
dessa equação possa enfim ser coerente com suas
premissas estruturais.
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Fernando Fontoura, ex-professor de tênis por dez anos
e filho da tenista Henny Fontoura, já publicou dois livros
técnicos - "Configure seu Jogo", em 1998, e "Tênis Para Todos", em 2003. Atualmente escreve "Filosofia das Quadras", uma reunião de suas principais crônicas.
Fale com o Fernando: fcdafontoura@hotmail.com |
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