Auto-estima
Por Fernando Fontoura

Quando uma dona de casa trabalha o mês todo, de sol-a-sol, e no final do mês não tem dinheiro suficiente para comprar leite para seus filhos ou o marido, que tem dois empregos e no final do mês não consegue dar o mais simples presente para sua mulher, o que está sendo atacado, destruído e relegado aí é o maior - senão o fundamental - combustível de sobrevivência do ser humano: sua auto-estima.

O que faz um indivíduo ter auto-estima e mantê-la intacta é uma ideologia com princípios fortes e a certeza de nunca, mas nunca mesmo, receber uma culpa imerecida. Nos ensinaram desde cedo, através dos governos, da educação e da religião, que nossas falhas têm tudo a ver com nosso valor como ser humano, ou seja, que nossos erros, por menor que fossem, reais ou não, afetavam diretamente nossa estima vista pelos outros e que se os outros a objetivassem como baixa - por critérios vários e mutáveis -, assim deveríamos nos sentir; e se os outros a definissem como alta, assim deveríamos nos sentir.

Nosso padrão de auto-estima estava indexado aos outros, sejam vizinhos, conhecidos, amigos de trabalho, amigos dos amigos de alguém ou, inclusive, - ainda com mais maldade por não haver como argumentar contra ou a favor -, a anjos, deuses, fantasmas de mortos, espíritos andantes ou qualquer outra forma sobrenatural. Nunca, em nenhuma dessas três vias de ensino - governo, educação, religião - foi-nos dito que auto-estima é uma coisa comparada apenas com ela mesma e apenas do agente para com ele mesmo. Não é diversas estimas nem outros estimas.

A conceitualização dos outros para com nossas atitudes e pensamentos definiam nosso rótulo, mesmo que eles nada soubessem de nosso contexto. Os conceitos nunca podem fugir do contexto em que estão inseridos. Um julgamento tem que limitar um contexto, senão não há julgamento.

O fato de um indivíduo cometer um erro não é prova de sua baixa estima. Tem que se aprender e desatrelar erros normais de acordo com o contexto, com provas de auto ou baixa estima. Se um jogador erra na execução de um golpe, isso não é prova de baixa estima. Não pode ser contestada sua valorização pessoal ou profissional por causa de erros ou falhas inerentes à natureza daquilo que faz.

Todo escritor já teve branco, mas nem por isso se considera um mau escritor; todo centroavante já perdeu pelo menos um gol fácil e nem por isso pode ser considerado um mau jogador; todo professor já ensinou mau um dia ou outro, mas nem por isso pode ser considerado um mau educador.

Nunca aceite uma culpa imerecida. Colocamos nossa auto-estima à prova por pequenas falhas, digo ainda, importantes e cruciais para o nosso desenvolvimento na área que atuamos. Não transforme o ato de treinar, jogar, ganhar ou perder em um tortura por adicionar a eles um valor maior do que eles realmente têm. A verdade, dizia Hegel, é o todo. Auto-estima se constrói através de um processo de pensamento e ações e não pode ser posta à prova por atos isolados.

Podemos cansar da batalha do dia-a-dia, mas jamais colocar em prova nosso valor e auto-estima, pois esse é nosso combustível para continuarmos tentando nos aprimorar. Não gosto de ouvir dizer que o erro é inerente à condição humana e que só quando o homem erra ou mostra suas fraquezas é que mostra seu lado humano. Não é verdade, pois quem acredita nisso, acredita que o acerto é um acidente e que o erro é a regra.

E é exatamente o oposto. O estado normal de saúde física e mental do homem é que lhe traz felicidade, e não o contrário. É o correto uso da natureza do homem que lhe traz prosperidade, alegria e entusiasmo. Quando nos aproximamos do nosso estado natural nos sentimos mais felizes, mais alegres, mais leves, mais completos, mais valorosos. Quando nos afastamos de nossa natureza através de vícios, de maltratos mentais e físicos é que experimentamos a tristeza, a dor, o peso e nos sentimos desvalorizados como pessoa.

O ser humano tem a primazia do erro, não pelo erro, mas pela correção. Se o ser humano erra, ele tem a capacidade de aprender com esse erro, o que lhe dará mais força em sua estima. O ser humano tem a capacidade de avaliar seus atos, compará-los com os resultados passados e mudar o curso de seu futuro. Esta é a sua natureza e assim tem-se dado desde que o homem é homem.

A auto-estima tem de sempre ser avaliada pela própria pessoa e em comparação com ela mesma. Se alguém lhe diz que seu trabalho não é bom, embora você saiba que é o melhor que pode realizar, isso não pode entrar em seu rol de critérios para avaliar sua auto-estima. A maior competição que existe é essa: superar-se a si mesmo.

Quanto maior o nível de profissionalismo, em qualquer esporte, maior é a comparação do atleta com ele mesmo. Quando começa a competir, o atleta quer ganhar de qualquer um que enfrente. Depois, escolhe alguns rivais mais especiais, aqueles que exigem mais dele. Criam-se aí as rivalidades saudáveis, pois elas fazem com que ele comece a comparar-se com ele mesmo para poder vencer. E, finalmente, os números um de qualquer modalidade, como Roger Federer, Pelé, Michael Schumacher, Tiger Woods e outros, chegaram ao nível de comparar seus desempenhos apenas com seus próprios desempenhos e sua meta é superá-los, independentemente do adversário, torneio, competição ou situação. São os ídolos de todos, pois chegaram à perfeição moral de entender que nenhuma derrota mais os fará perder ou abalar sua auto-estima. Apenas servirá de incentivo para futuros desempenhos.

Um indivíduo com auto-estima tem uma fortaleza interna que se vê na maneira de olhar, de andar, de falar, de se portar diante do mundo, que muitos confundem com arrogância ou petulância. Na verdade, estas duas palavras deveriam ser substituídas por orgulho, que é o sentimento de saber que você é o seu mais alto valor e autoconfiança, que vem da atitude do auto suficiente que tem como maior valor sua inteligência e habilidade, independente das dos outros, pois a comparação não é externa.

Jogadores que quebram barreiras de uma hora para outra, como Guga em 1997, tiveram sua maior mudança não em seus golpes, mas em sua atitude consigo mesmo. A confiança de que podiam jogar de igual para igual com os melhores - precedida de muito treino na quadra - os fez aumentar sua auto-estima e fizeram-na trabalhar a seu favor.

O maior trabalho de psicólogos esportivos é aumentar e manter a auto-estima de seus atletas, mas o principal trabalho deveria ser o de ensiná-los a não colocar sua auto-estima à prova de qualquer falha ou engano. Auto-estima é quase um axioma, ou seja, um conceito que dá prova e valor a todos os outros e que não pode ser contestado, ou pelo menos, não deveria ser tão contestado.

Orgulho e autoconfiança são atitudes próprias do ser humano e vão representar aquilo que é fundamental em sua busca para o sucesso e felicidade: sua auto-estima.

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Fernando Fontoura, ex-professor de tênis por dez anos
e filho da tenista Henny Fontoura, já publicou dois livros
técnicos - "Configure seu Jogo", em 1998, e "Tênis Para Todos", em 2003. Atualmente escreve "Filosofia das Quadras", uma reunião de suas principais crônicas.

Fale com o Fernando: fcdafontoura@hotmail.com