Pensamento de campeão
Por Fernando Fontoura

Sabemos que o resultado dentro da quadra - ou na vida - é espelho daquilo que pensamos, escolhemos e agimos antes da partida. Nada acontece por acaso dentro de uma quadra de tênis e nenhum golpe ou tática há de funcionar de repente somente pelo ato da vontade do jogador. Se não treinou antes, coelho nenhum sairá da cartola. Ler as entrevistas de grandes jogadores após suas partidas é sempre bom para desvendar o que pensam e qual filosofia eles têm para manter suas ações coerentes.

Roger Federer é para mim, de longe, o melhor que sabe expressar em palavras e atitudes fora da quadra aquilo que é dentro dela. Responde objetivamente o que é para responder, sem ficar dando voltas em círculos. Não especula e não entra em especulações. Muitos repórteres, principalmente de futebol, adoram uma especulação para poderem transformar frases soltas, ou seja, fora do contexto, em objeto para matérias para criar polêmica.

Na final da World Cup de 2005, em que Federer perdeu para David Nabaldian, após uma incrível marca de seguidas vitórias em finais e de muitas partidas seguidas no ano, um repórter perguntou se ele estava abatido e qual seria o sentimento dele em acabar o ano perdendo a partida mais importante, a final entre os oito melhores. Resposta de Federer: "Foi apenas uma partida. Não vou colocar nela toda a responsabilidade de um ano espetacular que tive. Acabei o ano como número um do mundo novamente, ou seja, consegui manter o alto nível em um ambiente competitivo, ganhei dois Grand Slams e praticamente ganhei de todos os jogadores que enfrentei. Foi um excelente ano e não tenho do que me queixar."

Quando perdeu para o Guga no ano de 2004 em Roland Garros, no qual ele já era o número um do mundo disparado, um repórter perguntou se deveria ter sacado melhor ou atacado mais, qual a estratégia que poderia ter usado para mudar o resultado e o que faria a partir de agora para mudar, no futuro, o que não foi bom durante a partida. Federer respondeu que não entraria em discussões sobre seu jogo com quem não era profissional. Que havia um Guga do outro lado da quadra que jogou muito bem e que tudo o que deveria ter feito no jogo, fez. Não ficaria pensando no que faria diferente, pois naquele contexto, ele fez o possível. Guga esteve melhor e vamos para a próxima pergunta.

Em entrevista dele em Roland Garros de 2005, perguntaram se ele tinha medo de enfrentar Carlos Moyá, já que ele fora campeão do torneio. E de quem tinha mais medo de enfrentar no momento. Disse que respeitava todos, mas que não tinha medo de enfrentar ninguém já que ganhara de todos eles no último ano e que o número um do mundo era ele. Ou seja, vamos aos fatos, quem deve ter medo são os outros.

Na final de Mônaco de 2006 onde perdeu para Rafael Nadal, sua segunda derrota no ano e as duas para o mesmo jogador, perguntaram se essa derrota abalaria sua estima para Roland Garros. Resposta: "Meu saque não entrou como eu queria e acabei dando muitas chances e, para um jogador como Nadal, não se pode dar tanta chance assim. Mas nesta semana, aprendi algumas ferramentas que posso aprimorar e usar para chegar melhor em Roland Garros."

Federer nunca deixa que coloquem sua auto-estima em jogo. Nunca entra em polêmicas de sentimentos e de inversão de conceitos, mantém sua estima intacta e não a coloca em jogo por qualquer derrota ou partida. E ele faz isso de uma forma explícita: sempre analisa o contexto. Jamais pega um fato isolado e o trata como mais importante que o contexto em que ele se situa.

Tentaram fazer isso quando perguntaram sobre a derrota para Nabaldian e sobre a derrota para Nadal. Ele continuou analisando as partidas em questão dentro de um contexto - no caso de Nalbandian, o grande ano que teve e no caso de Nadal, em seu objetivo que é Roland Garros. É por isso, por essa atitude mental, que Federer é um grande campeão.

Muitos se abalam quando perdem partidas que pensam que não poderiam ter perdido. Fazem dela, um fato dentro do contexto, algo maior do que é. Colocam em um monociclo toda sua auto-estima e, ao pedalar errado, caem e, junto na queda, toda sua carga emocional que jamais deveria estar ali.

A auto-estima é avaliada dentro de um contexto. Se o contexto é desfavorável para auto-estima, há de se tomar ações corretivas para se mudar o resultado. Se há mais derrotas que vitórias dentro da quadra, se os golpes treinados não aparecem durante o jogo, se a tática não sustenta o estilo, se a parte mental não agrega valor ao jogo, há de se ter mudanças em prol da auto-estima, mas não se pode julgá-la errada. Auto-estima é uma resposta a um conjunto de ações. Mudam-se as ações, muda-se a resposta. A auto-estima não pode estar em cima do monociclo, mas é a pré-condição que vai fazer você subir nele. Ela pode ser baixa em algum momento, mas jamais pode fazer você parar de agir.

O contexto é algo que dá valor e significado aos fatos. Fazer uma dupla-falta no primeiro game de uma partida de primeira rodada é uma coisa, mas fazer uma dupla-falta no match point contra em uma final que vale um milhão de dólares, é outra. É preciso analisar o contexto em que se está e ao qual se pretende chegar para poder julgar com exatidão e coerência os atos do processo.

Nosso mercado vive isso. Não ter eventos e promoções sérias do esporte até 1996 era uma coisa aceitável, mas depois de 1997 quando Guga alavancou o esporte a níveis inimagináveis, manter o mesmo padrão é inaceitável.

Isso o que Federer explicita em suas entrevistas é o que chamo de "pensamento de campeão" . E pensamento de campeão - de qualquer modalidade esportiva - vem sempre com palavras-chaves que podemos adicionar em nossas vidas em qualquer área que atuemos. Algumas delas são: confiança, foco, manter o nível, prazer e motivação. E todas elas têm como objetivo aumentar ou proteger a auto-estima. Essas palavras aparecem muito em todas as entrevistas de grandes campeões. Eles passam quase que necessariamente pelo mesmo caminho, o que reforça um ditado que diz que para o fracasso as possibilidades são muitas - por isso, as desculpas e justificativas são enormes -, mas para o sucesso o caminho é quase sempre o mesmo, varia muito pouco. Isso pode ser levado adiante em questões como felicidade, realização, moralidade.

Pensar como campeão é ter a coragem de transformar o pensamento em ação e buscar um resultado que reforce sua auto-estima. Não há a certeza de vitórias, mas há a certeza de estar formando um campeão mental, seja nas quadras ou na vida.

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Fernando Fontoura, ex-professor de tênis por dez anos
e filho da tenista Henny Fontoura, já publicou dois livros
técnicos - "Configure seu Jogo", em 1998, e "Tênis Para Todos", em 2003. Atualmente escreve "Filosofia das Quadras", uma reunião de suas principais crônicas.

Fale com o Fernando: fcdafontoura@hotmail.com