Programas de tênis brasileiro
Por Fernando Fontoura

Já é sabido por qualquer um que sem um programa de tênis brasileiro, que envolva todas as camadas do esporte (CBT, federações, academias registradas, clubes filiados, grupo de treinadores e professores), o tênis como um todo, recreação, lazer e competição, vai à bancarrota. Incrível como o conhecimento intelectual não se transforma em algo existencial neste país.

Para muitos a intelectualidade é um fim em si mesmo e ostentar que “sabe” já é o suficiente e o propósito moral do ser humano. Qualquer conhecimento não é um fim em si mesmo e não existe de fato a não ser que seja transformado em algo real no mundo existencial.

Imagine se Santos Dumont apenas “soubesse” fazer o avião, mas não tivesse colocado em prática seu conhecimento. Imagine se Bill Gates apenas “soubesse” como fazer a conexão de rede e não tivesse transformado seu conhecimento em um produto real.

Não há dicotomia entre conhecimento e realidade. Um depende do outro. Não há conhecimento que venha do nada, apenas da observação do que já existe; não há realidade possível sem conhecimento (a não ser o ambiente selvagem). Há é uma integração entre as partes, uma perfeita harmonia entre saber e realizar.

Por que não há, então (entra diretoria, sai diretoria) um programa de crescimento para o tênis brasileiro? Primeiro tem de haver uma finalidade, um objetivo que dê sentido a todas as ações e esforços subseqüentes. Qual? A promoção do esporte em todos os níveis. E qual o ponto central que aglutinará esse propósito? Um programa único que contemple todos os setores.

As três palavras acima em destaque fazem o tripé básico e inicial para qualquer ação. Um programa que delimite a cada setor suas funções e abrangências. As academias terão sua prioridade em lazer e quando tiverem atletas de competição poderão levá-los a clubes ou universidades que tenham a estrutura necessária para dar suporte a esse futuro atleta. Parcerias com essas entidades também é viável, desde que a academia tenha a estrutura mínima para manter o atleta em alto nível. O que acarreta para o jogador treinar em academia é o custo que em clubes ou universidades ele pode ser sócio-atleta ou bolsista, ou seja, não pagaria para jogar. Fora que estruturas formadas têm mais capacidade de atrair patrocinadores e por isso também têm mais capacidade de darem retorno ao investimento.

Passada esta fase, as federações e CBT teriam que ter ex-atletas de apoio em um Centro de Treinamento para a passagem para o profissional. Como entidades máximas em suas regiões e no Brasil teriam patrocinadores para custear e receber o retorno dos atletas selecionados (o COB com a Olympikus lembra alguma coisa?).

Claro que há nuances a serem trabalhadas neste processo e, como diz a palavra, é um processo, ou seja, não se faz em uma tacada só, mas através de ações específicas direcionadas a um objetivo. Enquanto esse objetivo não for claro e transparente como água, ficaremos à mercê de ações isoladas, desconectadas umas das outras tanto quanto da realidade. O sucesso momentâneo de alguns atletas esforçados e auto-suficientes é o que nos resta como consolo.

Em qualquer escolinha de críquete na Inglaterra, de beisebol nos EUA ou de esqui na Europa, os praticantes não entram em aulas, mas em programas de ensino ou treinamento e, se quiserem continuidade no esporte, sabem exatamente o que e onde fazer. Não interessa se é por lazer ou por competição, a organização através de uma linha-mestra sempre é benéfica para quem pratica e para quem ensina. Mas nós, brasileiros, com a cultura do improviso, da flexibilidade, do ‘jeitinho’ vamos propagandeando essas falsas virtudes como cultura nacional e ainda nos vangloriamos disso. Valorizamos o erro, a falta de continuidade e a esperteza do momento acima do planejado, do método e do longo prazo. E ainda temos a cara de pau de reclamar.

Já pedi em uma crônica anterior, mas repito: os poucos que sabem e agem, por favor, apareçam, pois o mercado do tênis continua uma terra de ninguém.

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Fernando Fontoura, ex-professor de tênis por dez anos
e filho da tenista Henny Fontoura, já publicou dois livros
técnicos - "Configure seu Jogo", em 1998, e "Tênis Para Todos", em 2003. Atualmente escreve "Filosofia das Quadras", uma reunião de suas principais crônicas.

Fale com o Fernando: fcdafontoura@hotmail.com