Ladeira abaixo
Por Fernando Fontoura 25/07/2006
 

Mais um complexo de quadras de tênis de aluguel fechou em Porto Alegre. Agora as antigas quadras cobertas e iluminadas vão servir para depósito. Triste! Com ele uma debandada de tenistas, campeonatos, rankings, aulas. Sintoma de um mercado em franco movimento de descida ladeira abaixo, sem freio.

Quando um mercado está estabilizado, por exemplo o mercado de pádel, que não cresce e nem diminui, tudo fica como está: número de quadras, de torneios, de revistas, de patrocínios. Resultado de um número X de participantes desse mercado. O tênis estava estável, inflou absurdamente com a Era Guga e agora cai vertiginosamente. Só que nessa queda, leva consigo não apenas o "excedente", mas tudo que enraizou nele nestes últimos tempos.

A falta de apoio ao fomento desse mercado não vai acabar apenas com aqueles que investiram nele apenas por ser um bom negócio de ocasião, visando (legitimamente) apenas o lucro enquanto o mercado era promissor, mas com quem estava estabelecido antes da bolha Guga, com quem fazia dele um meio de vida dentro de um mercado antes estável. O medo e a dúvida instalados nos empresários de hoje, vendo que quadras, revistas, eventos estão se escasseando, leva-os a pensar quinze vezes antes de investir.

Há os corajosos e visionários de longo prazo (coisa rara no Brasil imediatista e de curto prazo). Em uma conversa com um empresário do marketing esportivo daqui do Sul, o qual está interessado em investir no mercado de tênis, disse-lhe que qualquer tipo de mamada no esporte está fadada ao fracasso. A vaca já secou e está respirando por aparelhos e, como muitos empresários que investiram no tênis como negócio de ocasião já abandonaram o animal às moscas e estão procurando outra vaca sadia por aí, só quem tiver cacife e visão de longo prazo poderá lucrar. Ou seja, só quem tiver força e comprometimento com o mercado poderá ser bem sucedido em longo prazo.

Levar mais para os que já são tenistas (amadores) e aumentar a demanda de novos tenistas é básico para quem quer entrar nesse negócio. Conheço inclusive lojas que vivem do tênis há anos e agora estão pensando em mudar de ramo para continuarem ganhando alguma coisa. Ao invés de pensarem em como fomentar esse mercado do qual lucraram - dia do tênis gratuito em praças públicas, eventos sociais com clubes, colocar em todas as datas especiais (dia das mães, dia dos pais, dia das crianças, páscoa, etc) o esporte em evidência, sei lá, qualquer coisa que aumente a visibilidade e acesso ao tênis, preferem mudar o foco e procurar outro mais sadio.

Mas sabe qual é o pensamento pequeno que os travam: tudo bem, eu vou ganhar alguma coisa com isso (alguma coisa?), mas outros vão ganhar também através de minhas ações. Ou seja, se não ganho tudo sozinho (tipo garoto mimado), então não faço nada. Não tem nem como começar a explicar nada para uma criatura que pensa assim. E nosso esporte está nas mãos de muitos desse tipo.

O tênis tem um aspecto que outros esportes de raquete, como o pádel e o squash, não têm: renovação espontânea. É só ir a um clube e ver as quadras sempre com alguma criança jogando com seus pais ou com outros amiguinhos. Essa é a sorte do esporte, mas como todo bom empresário sabe, sorte aleatória não leva a nada. A sorte fabricada em cima de aspectos positivos é que leva a algum lugar.

Não é novidade nem segredo, pois todos sabiam que quando Guga estava no auge, ele é quem tinha patrocínio, não o tênis. Com a saída dele da vitrina, os patrocínios debandaram. Só que entre um acontecimento e outro correram sete anos e nada foi feito para fomentar o aumento de demanda dos tenistas amadores e apaixonados pela figura do tão simpático e carismático Guga.

Agora é tentar agarrar pelo pára-choque o caminhão que desce sem freio ladeira abaixo.

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Fernando Fontoura, ex-professor de tênis por dez anos
e filho da tenista Henny Fontoura, já publicou dois livros
técnicos - "Configure seu Jogo", em 1998, e "Tênis Para Todos", em 2003. Atualmente escreve "Filosofia das Quadras", uma reunião de suas principais crônicas.

Fale com o Fernando: fcdafontoura@hotmail.com